Os líderes europeus têm certeza de que devem estar preparados para entrar em guerra com a Rússia. Veja bem: eles não têm certeza de que essa guerra vá acontecer; eles têm certeza de que têm de estar preparados para ela, rapidamente.
Os preparativos incluem a ampliação do recrutamento para o serviço militar voluntário, como anunciado na quinta-feira (27) na França; e obrigatório, como na Dinamarca, onde as mulheres, e não apenas os homens, agora estão forçados a se alistar; a conversão de centros esportivos subterrâneos em abrigos nucleares, como na Finlândia; e a formação de jovens com idade a partir dos 14 anos em manuseio de fuzis de uso exclusivo das Forças Armadas, como em algumas escolas da Polônia; sem contar a volta do uso de minas explosivas antipessoal nos países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia –, além da Polônia; e o ingresso da Finlândia e da Suécia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Os líderes europeus têm certeza de que devem estar preparados para entrar em guerra com a Rússia
Essas medidas são justificadas para rechaçar atos hostis como a intrusão do espaço aéreo da Moldávia e da Romênia por drones russos; a violação das águas territoriais britânicas por um navio oceanográfico enviado por Moscou, que vem realizando a cartografia dos cabos submarinos de comunicação na Europa; e as dezenas de ações de desinformação e de sabotagem informática atribuídas a agentes russos nos últimos meses.
O presidente russo disse, primeiro, que tudo isso é “ridículo”. Vladimir Putin começou negando taxativamente que fosse atacar a Europa. Mas, dias depois, mudou o discurso e passou a dizer que, se a Europa quer guerra, ele está pronto. Só que, de alguma forma, isso já vem acontecendo há quatro anos: a Ucrânia é um país europeu – embora não seja da União Europeia e da Otan – e já foi atacado: primeiro, em 2014, com a anexação de Donetsk e Lugansk; depois em 2019, com a invasão total do país.
A Europa considera que Putin não é um homem de palavra, e revisita exaustivamente a memória da invasão da Tchecoslováquia, em 1938, e da Polônia, em 1939, por Adolf Hitler – dois prenúncios da Guerra Mundial que viria em seguida, e que a Europa preferiu ignorar, reconfortando-se à época numa falsa sensação de segurança e de superioridade.
Putin não é Hitler e a Ucrânia não é a Tchecoslováquia, é verdade. Mas a Europa tampouco quer ser a mesma de 80 anos atrás, quando foi pega desprevenida por um ato de agressão que se anunciava explicitamente no horizonte.
O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que a guerra já não se conjuga na Europa com verbos no futuro, mas no presente, enquanto seu chefe das Forças Armadas, o general Fabien Mandon, afirmou que as mães de filhos franceses devem estar preparadas a partir de agora para lidar com suas perdas. Enquanto isso, o governo distribui cartilhas sobre como se comportar em caso de guerra.
Pouco ou nada disso tem chegado ao Brasil, onde a imprensa é majoritariamente hipnotizada pelo que acontece nos EUA, relegando o restante do mundo, incluindo agora a Europa, a um segundo plano. Mas basta acompanhar os jornais europeus para sentir o clima de guerra por lá.
A editorialista do jornal francês Le Monde, Sylvie Kaufmann, disse em entrevista à France Inter, na quinta-feira (27), que já há uma “guerra híbrida” acontecendo entre a Rússia e a Europa, com ações de sabotagem informacional ocorrendo de ambos os lados, sem contar as invasões das fronteiras europeias com aeronaves e embarcações de Moscou. A questão, para ela, é “a partir de que ponto essa guerra híbrida será considerada um verdadeiro ataque contra um membro da Otan?” A pergunta é importante porque a aliança possui uma cláusula fundacional segundo a qual um ataque contra um membro deve ser respondido por todos os demais.
Com todas as ações da Europa direcionadas agora para uma guerra contra a Rússia, só falta mesmo que a guerra se instale, o que pode depender não apenas de um ato hostil de Putin, mas também de qualquer mal entendido, acidente, provocação ou erro de cálculo, num ambiente cada vez mais saturado de gás inflamável, prestes a explodir a qualquer momento.
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