
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião no Salão Oval da Casa Branca, em setembro de 2025
O cessar-fogo entre Irã e Israel se rompeu no domingo (7). O exército iraniano lançou mísseis no território israelense em retaliação a ataques em Beirute, capital do Líbano. Em contrapartida, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou bombardeios em Teerã.
A ofensiva de Israel no Oriente Médio desde o fim de maio ocorreu à revelia de seu aliado histórico, os Estados Unidos. Donald Trump pediu a Netanyahu que não revidasse os ataques iranianos. Por telefone, o presidente americano teria dito ao primeiro-ministro israelense que ele estava “completamente louco” e havia sido salvo da prisão pelo mandatário dos EUA.
Neste texto, o Nexo relembra a aliança histórica entre Israel e EUA e a coordenação entre os dois países na guerra contra o Irã. Também explica quais os impactos do atual momento do conflito e conversa com especialistas sobre os atritos entre Trump e Netanyahu.
Os americanos foram os primeiros a reconhecer o Estado israelense após sua fundação, em 1948. Com o passar do tempo, Israel se tornou o principal aliado dos EUA no Oriente Médio. O país foi o que recebeu a maior quantidade de recursos econômicos e militares da Casa Branca ao longo das últimas décadas.
Ambos desenvolvem equipamentos militares e de defesa em conjunto, como os do sistema de defesa aéreo israelense. O mais conhecido deles é o Domo de Ferro, que intercepta mísseis de curto alcance e foguetes de até 70 km.
US$ 174 bilhões
foi o valor fornecido pelos EUA a Israel desde 1948 — sem correção pela inflação —, segundo relatório de maio de 2025 do Congresso americano
Em 1973, forças militares do Egito e da Síria atacaram Israel no feriado judaico do Yom Kippur (Dia do Perdão) para retomar territórios anexados pelos israelenses em 1967, na Guerra dos Seis Dias. Os EUA apoiaram o Exército de Israel no conflito, além de terem articulado um cessar-fogo entre israelenses e árabes.
Cinco anos depois, Jimmy Carter, então presidente dos EUA, reuniu Menachem Begin, então primeiro-ministro israelense, e Anwar Sadat, então presidente egípcio, para os acordos de Camp David, que resultaram no reconhecimento de Israel por parte do Egito e na retirada de tropas israelenses da península do Sinai.
Ao longo dos anos 1980, os EUA estreitaram os laços militares e diplomáticos com Israel por meio de acordos de cooperação. Em 1993, Bill Clinton, então presidente americano, mediou os acordos de Oslo, assinados na Casa Branca entre o então líder palestino, Yasser Arafat, e o então primeiro-ministro israelense, Yitzahk Rabin.
O acordo criou a Autoridade Palestina, uma entidade governamental semiautônoma reconhecida internacionalmente como o governo interino da Palestina. Mas deixou pendentes questões de fronteiras, assentamentos, a divisão de Jerusalém e o direito de retorno de refugiados palestinos para suas terras. Esses pontos são alvo de tensões entre israelenses e palestinos até hoje.
Desde que Benjamin Netanyahu assumiu como primeiro-ministro de Israel – são 22 anos, intercalados entre 1996 e 1999 e entre 2009 e 2021 –, as tentativas de cessar-fogo com intermediação americana na região reduziram drasticamente. Netanyahu sempre foi crítico aos acordos de paz com os palestinos. Seus governos fortaleceram o nacionalismo e o avanço israelense sobre o território palestino.
No primeiro mandato de Donald Trump (2017-2021), os EUA abandonaram a defesa de dois Estados como solução para o conflito e se alinharam a Netanyahu. O presidente americano transferiu a embaixada dos EUA para Jerusalém em 2017 e apoiou a expansão de colonos israelenses sobre o território palestino da Cisjordânia.
Após os ataques do grupo islâmico Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, os Estados Unidos se posicionaram ao lado de Netanyahu. De acordo com estatísticas do Escritório de Supervisão da Assistência Externa, houve uma transferência de mais de US$ 10,1 bilhões de órgãos do governo americano para os israelenses nos dois anos seguintes ao estopim do conflito.
US$ 170 milhões
foi a média de valores gastos pelos EUA com assistência externa para outros países em 2024
Ao retornar ao governo, Trump voltou a defender as ações de Netanyahu. Em janeiro de 2025, o americano apresentou um plano para que os EUA controlassem a Faixa de Gaza, realocando os palestinos para o Egito ou a Jordânia — movimento semelhante ao deslocamento forçado da população palestina para países vizinhos em 1948, chamado de Nakba.
Trump também ajudou a costurar um acordo de paz entre Israel e o Hamas, com o início do cessar-fogo em Gaza em outubro de 2025. Desde então, houve diferentes rompimentos da medida.
Ao longo dos anos, os EUA têm ainda usado seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, órgão das Nações Unidas responsável pelas decisões sobre a paz e a segurança internacional, a favor de Israel. O governo americano atua, principalmente, para blindar o país de sanções ou condenações internacionais por sucessivas violações de direitos humanos e pelo avanço da ocupação em territórios palestinos.
A parceria entre Estados Unidos e Israel se fez presente novamente no conflito com o Irã, que teve início em 28 de fevereiro de 2026. O ataque coordenado dos dois países matou a cúpula do regime persa, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano desde 1989.
Entre as justificativas de Trump para os ataques, estavam a proteção do povo americano de ameaças externas, a destituição do regime e a destruição do programa nuclear iraniano. Israel já havia atacado o Irã — na chamada Guerra dos 12 Dias — em junho de 2025, sob a anuência dos Estados Unidos, de acordo com a imprensa americana.
Desde o início de fevereiro de 2026, os EUA e o Irã tentavam negociar um novo acordo nuclear, sob desconfiança mútua. Enquanto os americanos exigiam o fim do programa nuclear iraniano — inclusive para fins pacíficos, como produção de energia, pesquisa e uso médico —, os iranianos resistiam a abrir mão dele completamente, reiterando que seus objetivos eram pacíficos — embora enriquecessem urânio em níveis acima do necessário para o uso civil.
Após os primeiros ataques, Trump repetiu que o conflito se encerraria “muito em breve”, com ultimatos contra os iranianos. O americano também ameaçou atacar a infraestrutura civil do país, o que configuraria crime de guerra. Em sua ameaça mais grave, no dia 7 de abril, ele escreveu na rede Truth Social que uma “civilização inteira” morreria naquela noite, o que o Irã denunciou como “potencial genocídio” na ONU.
Um cessar-fogo de duas semanas foi estabelecido em 8 de abril. Treze dias depois, Trump estendeu-o para que tivesse duração indefinida, mas as partes não chegaram a um acordo de paz. Americanos e iranianos divergiram sobre o encerramento ou não do programa nuclear iraniano e a reabertura total do Estreito de Ormuz – por onde passam 20% do petróleo mundial e cerca de 20% do gás natural exportado por países do Golfo Pérsico.
Mesmo em meio à trégua, os EUA bombardearam a cidade portuária de Bandar Abbas em 25 de maio.
A possibilidade de acordo de paz também envolve a interrupção dos ataques israelenses ao Líbano — o que, até agora, não ocorreu. A justificativa de Israel é a eliminação do grupo extremista Hezbollah, aliado iraniano no país.
Mais de 600 libaneses morreram após as primeiras tratativas de cessar-fogo com Israel, em 17 de abril. O bombardeio em Beirute no domingo (7) resultou na ofensiva iraniana contra o território israelense, a primeira desde abril.
A retomada de ataques de Israel contra o Líbano no fim de maio revoltou Trump, que tenta costurar um acordo de paz com o Irã.
De acordo com reportagem de 1º de junho do site de notícias americano Axios, funcionários da Casa Branca relataram que o presidente estava irritado numa ligação telefônica com Netanyahu.
“Você está completamente louco. Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo te odeia agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso”
Donald Trump
presidente americano, em ligação telefônica ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, segundo relato de funcionários da Casa Branca ao site Axios
Os EUA ajudaram a costurar um cessar-fogo entre israelenses e libaneses na quarta-feira (3). A trégua durou menos de uma semana, quando, no domingo (7), forças militares israelenses atacaram estruturas no Líbano. O ministro da Defesa do país, Israel Katz, afirmou que o ataque foi uma resposta a foguetes do Hezbollah interceptados.
Em resposta, Irã retaliou Israel. Por telefone, Trump teria pedido a Netanyahu que não revidasse os bombardeios. O primeiro-ministro teria concordado com o americano, mas, depois, atacou novamente os iranianos.
Novos ataques israelenses ocorreram nesta segunda-feira (8) no sul do Líbano. Ao menos 14 pessoas morreram, segundo o Ministério da Saúde do país.
Também nesta segunda (8), Trump disse ao jornal americano Financial Times que Netanyahu terá que aceitar o acordo de paz que está sendo costurado por EUA e Irã. “Eu que mando. Eu tomo todas as decisões. Ele [Netanyahu] não manda”, disse.
Há uma desconfiança por parte da Agência de Defesa de Inteligência dos EUA de que Israel esteja espionando negociadores americanos que tentam costurar o acordo com o Irã. Segundo reportagem do jornal The New York Times de sábado (6), membros da alta cúpula do governo dos Estados Unidos foram grampeados.
A guerra contra o Irã tem gerado questionamentos e pressões na política interna americana e israelense. Uma pesquisa de abril de 2026 do Pew Research Center mostrou que 60% dos americanos têm visão negativa de Israel. Em agosto de 2023, antes do conflito contra o Hamas, o percentual desfavorável era de 41%.
Trump também está com uma das maiores taxas de desaprovação desde o início de seu segundo mandato. A queda de popularidade ocorre às vésperas das midterm elections, as eleições de meio de mandato, que elegem novos parlamentares em 3 de novembro.
57,5%
era o percentual de desaprovação de Donald Trump em 8 de junho, segundo o agregador de pesquisas do Silver Bulletin, do estatístico Nate Silver
As ofensivas militares e tarifárias da Casa Branca contra outros países são alguns dos fatores que ampliam a rejeição a Trump e podem impactar o resultado das midterms. A maior parte das pesquisas eleitorais americanas sobre o pleito de novembro dão vantagem aos democratas frente aos republicanos, partido do presidente.
Apesar desses reveses, o Congresso dos Estados Unidos incluiu a cooperação militar com Israel na Lei de Autorização da Defesa Nacional de 2027. A proposta, que ainda está em tramitação, tornaria a relação entre os países mais intrínseca.
A relação com o governo americano também tem interferido na política israelense. Parlamentares do país afirmam que gostariam de aumentar os ataques contra o Hezbollah.
O parlamento local aprovou sua própria dissolução em 20 de maio, o que deve antecipar as eleições nacionais, previstas para acontecer até 27 de outubro. Pesquisas eleitorais mostram que Netanyahu tem grandes chances de não ser reeleito primeiro-ministro.
Apesar do tensionamento entre Trump e Netanyahu, especialistas em relações internacionais disseram ao Nexo que acham improvável que haja rompimento entre EUA e Israel. Lucas Rezende, professor do Departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirmou que há uma coexistência entre os países.
“Se a tônica dos Estados Unidos chegar a ser muito forte, certamente haverá uma adequação doméstica por parte de Israel, pois a manutenção dessa aliança é fundamental para a sua sobrevivência. Da mesma forma, é fundamental para qualquer governante nos Estados Unidos manter essa relação com o governo israelense, dado o lobby histórico que existe”, disse.
Já Daniel Coronel, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), afirmou que o motivo do embate é a personalidade dos mandatários. “Netanyahu precisa muito dos Estados Unidos, mas muitas vezes faz as coisas pelo seu bel-prazer, sem consultá-los. E nós sabemos como Trump age no sentido de desrespeitar o multilateralismo e os acordos internacionais”, disse.
A mudança de comportamento da população americana em relação a Israel, por outro lado, é uma novidade. “[A parceria entre EUA e Israel] está tendo impacto nos fluxos econômicos e nas questões dos direitos humanos. A população sempre apoiou a relação, mas isso está diminuindo ao longo do tempo”, disse Coronel.
Para Rezende, a intensificação das críticas de Trump a Netanyahu faz parte da dificuldade do americano em sair da guerra em que se colocou, mas isso não significa um rompimento. “Continua como está: os Estados Unidos ainda são aliados de Israel e conduzem uma guerra por procuração [indireta]”, afirmou o professor da UFMG.