Como a incursão contra a Venezuela complica Trump

Donald Trump fala com jornalistas

Donald Trump fala com jornalistas

A Casa Branca admitiu na segunda-feira (1º) que os Estados Unidos autorizaram ataques contra duas pessoas que haviam sobrevivido a um bombardeio a um barco no Mar do Caribe, próximo à costa de Trinidad e Tobago, em 2 de setembro.

No mesmo dia, Donald Trump reuniu o Conselho de Segurança Nacional para tratar da situação da Venezuela, após recomendar às companhias aéreas que considerassem o espaço aéreo venezuelano fechado. Em meio ao recrudescimento da tensão entre os dois países, o presidente americano se vê numa encruzilhada. 

Neste texto, o Nexo explica o que levou ao aumento da pressão interna, o impasse sobre a situação de Maduro e o dilema de Trump.

A pressão interna

Desde o início de setembro, os EUA realizaram pelo menos 21 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico, matando mais de 80 pessoas. O governo americano alega que as vítimas são narcotraficantes que levavam drogas ao país, sem apresentar qualquer prova.

Os ataques já eram alvo de críticas de democratas e de especialistas em direito internacional que os classificam como execuções extrajudiciais, já que não seguem o devido processo legal, ignoram leis da guerra e territoriais e são realizadas sem autorização do Congresso. Contudo, a pressão sobre o governo por causa das ações aumentou no final de semana.

Segundo uma reportagem do jornal americano The Washington Post, publicada na sexta-feira (28), o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, deu uma ordem verbal para “matar todos” a bordo num ataque em 2 de setembro. Após o primeiro bombardeio, dois sobreviventes, que estavam agarrados aos destroços fumegantes, foram mortos num novo ataque. O episódio retratado pelo Post havia sido noticiado em 10 de setembro pelo site The Intercept.

Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, afirmou na segunda-feira (1º), ao ser questionada por jornalistas, que o almirante Mitch Bradley, chefe do Comando de Operações Especiais, foi o responsável pelo segundo ataque aos sobreviventes — isentando Hegseth de responsabilidade.

Leavitt argumentou que os ataques ocorreram para eliminar uma ameaça aos EUA, mas não explicou qual seria a ameaça que a embarcação e, posteriormente, os dois sobreviventes representavam.

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Congressistas democratas e republicanos passaram a questionar mais amplamente a legalidade das operações na região e a falta de evidências nas alegações do governo para atacar as embarcações. O senador republicano Roger Wicker, presidente do Comitê de Serviços Armados, conversou com Hegseth e com o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, sobre os ataques. O congressista disse que o comitê vai abrir uma investigação sobre o assunto.

O senador democrata Tim Kaine afirmou no domingo (30) ao programa Face The Nation, do canal americano CBS, que o episódio pode configurar um crime de guerra. “Se for verdade, trata-se de uma clara violação das próprias leis de guerra do Departamento de Defesa, bem como das leis internacionais sobre a forma como se deve tratar pessoas que se encontram nessa situação”, disse.

No mesmo programa, o deputado republicano Mike Turner disse que “se ocorreu, seria muito sério e seria um ato ilegal”.

Hegseth satirizou os ataques numa publicação na segunda-feira (1ª) no X com a capa de um desenho infantil protagonizado por uma tartaruga. “Franklin alveja narcoterroristas”.

As Convenções de Genebra e os tratados internacionais que regem as leis da guerra e do direito internacional humanitário proíbem ataques contra feridos, enfermos e náufragos. Mesmo se os EUA estivessem em guerra — o que não é o caso —, não poderia haver um ataque contra pessoas fora de combate.

O Manual de Guerra do Departamento de Defesa também destaca que as pessoas fora de combate não podem ser alvo de ataques. O documento define “fora de combate” pessoas em situação de “naufrágio”. O manual estabelece ainda que “subordinados devem se recusar a cumprir ordens claramente ilegais que constituam violações da lei da guerra”.

As ações americanas no Mar do Caribe também violam as Convenções sobre o Direito do Mar, sobre o Tráfico Internacional de Entorpecentes e sobre o Crime Organizado Transnacional.

O impasse sobre a situação de Maduro

Maduro ignorou o prazo dado por Trump para deixar o poder e o país, segundo a Reuters. A data final seria 28 de novembro, de acordo com a agência de notícias.

A conversa entre Trump e Maduro ocorreu em 21 de novembro. Segundo a agência, o presidente americano recusou uma série de pedidos feitos pelo venezuelano, como anistia e fim das sanções contra ele e membros do governo.

Na quinta-feira (27), o presidente dos EUA afirmou que uma operação terrestre contra narcotraficantes ocorreria “muito em breve”. Maduro não cedeu.

Com o fim do prazo, Trump disse no sábado (29) no Truth Social que o espaço aéreo venezuelano deveria ser considerado fechado. Embora não tenha autoridade para isso, a declaração acendeu o alerta sobre o recrudescimento das tensões entre os países, que cresce no segundo semestre de 2025. 

Nicolas Maduro balança bandeira da Venezuela durante comício, com imagem de Hugo Chávez ao fundo

Nicolas Maduro balança bandeira da Venezuela durante comício, com imagem de Hugo Chávez ao fundo

O governo Trump designou em janeiro algumas facções de narcotraficantes – entre elas, o Tren de Aragua – como grupos terroristas. Em julho, também classificou o Cartel de los Soles, como organização terrorista internacional e apontou, sem apresentar provas, Maduro como o seu líder. Ademais, estabeleceu recompensa por informações que levem à prisão do presidente venezuelano.

Marco Rubio, secretário de Estado americano, tem afirmado reiteradas vezes que a eleição venezuelana foi fraudada e que Maduro não é um líder legítimo – a maior parte da comunidade internacional, aliás, não reconhece o resultado das eleições de 2024, diante da recusa da Justiça Eleitoral venezuelana de apresentar as atas de votação. Filho de imigrantes cubanos, Rubio é um dos responsáveis por fazer a América Latina ganhar atenção na política externa e de defesa dos EUA.

Em meados de agosto, os EUA posicionaram porta-aviões, navios de guerra, caças e tropas nas águas do Caribe, perto da costa venezuelana. Em setembro, o governo passou a bombardear embarcações da região, as quais alega serem de narcotraficantes.

O dilema de Trump

Essa movimentação sob a retórica de combate às drogas tem sido interpretada por analistas como uma forma de pressão para depor o líder venezuelano. A resistência de Maduro representa um dilema estratégico para autoridades americanas, especialmente para Trump.

O presidente dos EUA, que se elegeu com a promessa de que não entraria em guerras ou conflitos, não obteve êxito até aqui com sua estratégia de pressão com ações e retórica belicosa. Agora, precisa avaliar os custos de recuar ou de realizar uma intervenção.

“Se recua, pode ser péssimo para a imagem de Trump, que está muito ruim nos EUA. A popularidade dele já está baixa. E seria uma derrota política”, avaliou ao Nexo Lucas Leite, professor de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) e pesquisador do INCT/INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos).

“Uma ação drástica, no sentido de invasão aberta terrestre, teria custo político alto. A ideia de intervenção militar também encontraria resistência em grande parte da região e até na União Europeia, Rússia, China, sem falar do custo humano e militar”, acrescentou.

O cientista político Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, avaliou que Trump caiu numa armadilha que ele criou. “Pelo cenário, ele vai optar pela intervenção militar”, disse ao Nexo. “O custo de recuar vai gerar um descrédito grande.”

Para Santoro, os EUA vão bombardear a Venezuela, além de manter os ataques às embarcações no Caribe e realizar operações terrestres pontuais de forças especiais para capturar autoridades venezuelanas.

Já Leite, da Faap, avaliou que Trump vai continuar com a retórica agressiva, vai aumentar as operações de inteligência e as sanções econômicas, enquanto segue negociando com o regime de Maduro.

“No máximo, se ocorrer algum tipo de ataque, vai ser algo controlado e restrito para após isso apaziguar os ânimos e mudar o foco da política externa dos EUA. Algum tipo de ataque menor para não parecer que houve recuo, para parecer que é uma pressão, que foi tudo controlado, mas que seria um tiro de aviso para sair por cima”, disse Leite.