“Você é uma mulher mulata, posso usar esse termo?” O desconforto causado pela pergunta feita por Mano Brown a Camila Pitanga no podcast Mano a Mano reverberou não só na atriz e diretora, mas entre muitas mulheres que ouviram o programa – rendendo “viralizações” sem fim.
Com um riso nervoso, e sem titubear nem um segundo, Camila respondeu ser negra, no que o rapper e apresentador, num tom professoral, replicou: “Mas você sabe que a gente é lido como pardo, certo?”. “Eu não me chamo de parda”, emendou Camila, incomodada.
O climão permaneceu durante o restante da conversa com Camila e Antônio Pitanga, que participavam da gravação comandada por Brown e pela jornalista Semayat Oliveira, no ar desde 22 de agosto. Na próxima quinta-feira (4), pai, filha e o irmão, o também ator Rocco Pitanga, estreiam o filme “Malês”, sobre a Revolta dos Malês, revolução feita por escravizados na Bahia no século 19.
Considerando as ideias embutidas na palavra mulata, utilizá-la para se referir a uma mulher negra é, no mínimo, desrespeitoso. Em se tratando de uma pessoa que desde sempre exaltou sua negritude, como Camila Pitanga, demonstra falta de cuidado e de conhecimento.
O mal-estar se acentua por vir do líder dos Racionais MC’s, grupo responsável por conscientizar gerações de jovens pretos e pretas periféricos sobre racismo, desigualdades e autoestima. Como apresentador, desde que lançou o Mano a Mano, Brown entrevistou intelectuais como as filósofas Angela Davis e Sueli Carneiro, ambas enfáticas na desconstrução e denúncia de representações preconceituosas associadas às pessoas negras.
No livro “Dispositivos de racialidade” (editora Zahar), Sueli Carneiro refere-se ao tema listando alguns desses esterótipos: “Pai Tomás e a mãe preta (os negros de ‘alma branca’, submissos e portadores da lealdade bovina a seus superiores); o malandro e a mulata (negros espertos, portadores da sexualidade exacerbada e moralmente flexíveis ou ambíguos); o menor e o marginal (expressões do negro como perigo, negros violentos e implacáveis); o negro entertainment (jogadores de futebol, artistas, os negros símbolos da democracia racial)…”, entre outros.
Considerando as ideias embutidas na palavra mulata, utilizá-la para se referir a uma mulher negra é, no mínimo, desrespeitoso. Em se tratando de Camila Pitanga, demonstra falta de cuidado e de conhecimento
Já em “Negros de pele clara” (2004), texto resgatado pelo site TraduAgindo, Sueli menciona a própria Camila: “(…) A consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra”, escreve a filósofa.
Nas décadas de 1970 e 1980, a filósofa, antropóloga e professora Lélia Gonzalez já chamava atenção para o fato de que, independentemente do tom da pele, se mais clara ou escura, mulheres negras são desumanizadas e sofrem os efeitos violentos da articulação entre racismo e sexualização a partir das noções de mulata, doméstica e mãe preta.
Num dos artigos do livro “Lélia Gonzalez – Por um feminismo afro-latino-americano” (organização de Flavia Rios e Márcia Lima; editora Zahar), Lélia descreve como a deusa “mulata” do Carnaval se transfigura na “doméstica” do dia a dia, a depender da situação em que as mulheres são vistas.
“O estabelecimento definitivo do capitalismo na sociedade brasileira produziu seus efeitos na mulata: ela se tornou uma profissional. Mesmo agora não é reconhecida como um ser humano e nenhum movimento foi efetivado para restaurar sua dignidade como mulher. Ela foi claramente transformada em uma mercadoria para consumo doméstico e internacional. Hoje, mulatas são treinadas para se apresentarem em shows em casas noturnas. Essa é a demanda do mercado”, afirma Lélia no ensaio “A mulher negra no Brasil”.
Consagrada por figuras midiáticas como as mulatas Sargentelli e Globeleza, a desumanização descrita por Lélia tornou-se foco de debates com a crescente presença de mulheres negras em posições de destaque.
Em 2017, coordenei uma ação para redes sociais de uma revista feminina intitulada Parece Elogio, Mas É Racismo. A concepção era simples: as convidadas gravaram vídeos curtos, no qual diziam frases que costumam ouvir, terminando com a afirmação “parece elogio, mas é racismo”. O material foi posteriormente editado e publicado em redes sociais e site no Dia da Consciência Negra.
Mais de 30 pessoas participaram, entre elas, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, a cantora Iza, as atrizes Pathy Dejesus, Ana Flávia Cavalcanti, Lucy Ramos e Juliana Alves, as jornalistas Aline Midlej e Flávia Oliveira, a advogada Eliane Dias, a arquiteta e apresentadora de TV Stephanie Ribeiro, além de intelectuais, atletas, influenciadoras etc. A referência à mulata apareceu em diversos depoimentos como um suposto elogio (só que não).
Por fim, algumas das justificativas de Mano Brown para referir a si mesmo e a Camila como pardos remetem a um tal conceito de “parditude”, encabeçado por Beatriz Bueno. Autointitulada mulata, a pesquisadora diz ter como objetivo “abordar as especificidades das vivências mestiças, tanto no âmbito subjetivo quanto nas dinâmicas familiares, promovendo uma interseccionalidade que amplie o diálogo e fortaleça a inclusão”. Tendo as redes sociais como palanque, Beatriz pegou carona na frase de Brown, acumulando alcance e visualizações em post ofensivo a Camila.
A tese que ignora anos de discussões vem sendo desconstruída por pensadores como a psicóloga Lia Vainer Schucman, autora de livros como “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo” (editora Veneta), o filósofo Érico Andrade Marques de Oliveira, professor do departamento de filosofia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), entre outras e outros intelectuais que publicaram artigos recentes, com argumentos robustos, remetendo a lutas históricas do movimento negro – recomendo a leitura, basta dar um Google para se inteirar de tudo.
Como muitas que não tiveram uma ancestralidade tão presente como a de Camila Pitanga, levei anos para compreender minha história e me posicionar como uma orgulhosa mulher negra. Sim, negra. Até porque, como afirma o artista plástico Maxwell Alexandre, pardo é papel.