Os cientistas brasileiros citados nas listas da Nature

O engenheiro agrônomo Luciano Moreira. Um homem de jaleco azul segura uma caixa transparente com mosquitos dentro

O engenheiro agrônomo Luciano Moreira

O engenheiro agrônomo e entomologista Luciano Moreira está na lista da revista científica Nature das 10 pessoas que moldaram a ciência em 2025. Ele se tornou o quinto brasileiro a figurar no ranking, realizado anualmente desde 2011. 

Moreira foi reconhecido por seu trabalho no combate à transmissão de doenças pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, zika, febre amarela e chikungunya. Ele é o líder brasileiro do World Mosquito Program e CEO da Wolbito do Brasil, empresa com sede em Curitiba, que desenvolve o método Wolbachia

Neste texto, o Nexo apresenta o trabalho de Luciano Moreira com o Aedes aegypti e o que credenciou os cientistas brasileiros a serem escolhidos pela Nature. 

Sem transmissão

Moreira fez parte da equipe de cientistas do australiano Scott O’Neill, o primeiro a testar a inoculação da Wolbachia em mosquitos, e trouxe o método para o Brasil, em parceria com a Fiocruz. Os cientistas introduzem a bactéria homônima nos ovos do Aedes aegypti, formando uma prole sem a capacidade de serem vetores de doenças patogênicas. 

O cruzamento de fêmeas com indivíduos machos nascidos com a Wolbachia resulta na esterilidade delas. Os mosquitos fêmeas que nasceram com a bactéria, por sua vez, já têm a totalidade da prole com a Wolbachia, independente do macho ter ou não. A prole com a Wolbachia é lançada em determinadas áreas para se reproduzirem e, assim, diminuir a população transmissora dos vírus. 

Niterói, no Rio de Janeiro, é a principal cidade em que os testes com a população Aedes aegypti inoculados com a bactéria acontecem. A área de cobertura se ampliou para todo o território municipal em 2023. 

A ação resultou em uma queda vertiginosa de casos de dengue: redução de 89% em relação ao período pré-mosquitos com Wolbachia. Em 2025, Niterói tem uma média de 47,5 casos da doença a cada 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, o estado do Rio de Janeiro registrou 182,55 casos por 100 mil habitantes, enquanto o cenário nacional é de 777,5 por 100 mil habitantes. 

O projeto também está distribuído em cidades como Campo Grande, Petrolina e Belo Horizonte, além de 14 países. Em setembro, por exemplo, o Ministério da Saúde implementou o método de combate à dengue com os mosquitos com Wolbachia no Distrito Federal e nas cidades de Valparaíso de Goiás e Luziânia, ambas de Goiás. 

Antes disso, em julho, a Wolbito inaugurou a maior biofábrica de criação de Aedes aegypti com Wolbachia do mundo, em Curitiba. O edifício de 3.500 metros quadrados foi resultado de uma colaboração entre a World Mosquito Program, a Fiocruz e o IBMP (Instituto de Biologia Molecular do Paraná). 

100 milhões

é a capacidade de criação de mosquitos por dia pela biofábrica da Wolbito

Outros brasileiros citados na Nature

Celina Turchi 

A pesquisadora Celina Turchi, da Fiocruz Pernambuco, foi a primeira brasileira a ser citada na lista da Nature de cientistas que moldaram o ano, em 2016. Ela foi responsável por conduzir os estudos da relação entre a microcefalia em bebês e a infecção de zika vírus em mulheres grávidas. 

No ano seguinte, o trabalho sobre microcefalia colocou Turchi na lista das 100 pessoas mais influentes da revista Time. Ela e o jogador de futebol Neymar foram os únicos brasileiros incluídos na publicação de 2017.

Ricardo Galvão 

A defesa dos cientistas e funcionários do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) contra os ataques de Jair Bolsonaro fez com que Ricardo Galvão, que era diretor do órgão, estivesse na lista da Nature de 2019. Ele foi demitido após responder publicamente o então presidente, dizendo que o mandatário teve uma postura “pusilânime” e “covarde”.  

Em julho daquele ano, Bolsonaro afirmou que o Inpe compilava dados mentirosos sobre o desmatamento na Amazônia e que prejudicariam a imagem do Brasil no exterior. Atualmente, Galvão é deputado federal da Rede por São Paulo e é professor de física da USP (Universidade de São Paulo). 

Túlio de Oliveira 

Morador da África do Sul há quase 30 anos, o pesquisador Túlio de Oliveira foi o responsável por chefiar uma das equipes que identificaram a variante ômicron do coronavírus, a quinta considerada como preocupante pela OMS (Organização Mundial da Saúde). A atuação o colocou na lista da Nature de 2021 – e na lista da revista Time de 2022. 

A equipe de Oliveira também foi responsável por identificar a variante beta do coronavírus no ano anterior, que se tornou a maior causadora de mortes por covid-19 na África do Sul. Atualmente, o pesquisador chefia o Centro para Respostas e Inovação em Epidemias do país. 

Marina Silva

A atuação do primeiro ano de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil no governo Lula 3 a credenciou para ser uma das 10 citadas na lista da revista Nature em 2023. A ministra foi chamada de “protetora da Amazônia”. 

A reversão das taxas de desmatamento na Amazônia, com queda em comparação com 2022, último ano da gestão Bolsonaro, foi um dos principais motivos para a inclusão na lista. A reestruturação de programas de policiamento ambiental na região e a retomada do PPCDAm (Plano de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento na Amazônia Legal) foram citadas pela Nature.