Um admirador de Pinochet pela 1ª vez na Presidência do Chile

José Antonio Kast na reta final da campanha presidencial

José Antonio Kast na reta final da campanha presidencial

O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, se reuniu nesta segunda-feira (15) com o atual mandatário, Gabriel Boric, no Palácio de La Moneda. O político vai assumir o poder em 11 de março de 2026.

Eleito no domingo (14) após sua terceira disputa presidencial, Kast venceu a ex-ministra Jeanette Jara com 58% dos votos ante 42% da adversária, segundo o Servel (Serviço Eleitoral do Chile). O político é admirador declarado de Augusto Pinochet. Ele prometeu ser linha linha dura na segurança e no combate à imigração.

Neste texto, o Nexo explica quem é Kast, analisa o perfil do político chileno e fala sobre o simbolismo da sua vitória.

Quem é Kast

José Antonio Kast, de 59 anos, é advogado e ex-deputado nascido em Paine, na região metropolitana de Santiago, capital do Chile. Ele é o caçula de 10 filhos de um ex-soldado da Alemanha nazista que emigrou para o Chile nos anos 1950.

A carreira política de Kast começou na época de estudante de direito na Pontifícia Universidade Católica do Chile, quando entrou no liberal-conservador Movimento Gremialista, fundado por Jaime Guzmán. O fundador foi assessor do ditador Augusto Pinochet, que comandou no Chile, de 1973 a 1990, uma das ditaduras mais cruéis da América Latina.

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Kast foi vereador de 1996 a 2000 e deputado de 2002 a 2018 pelo partido de direita tradicional UDI (União Democrática Independente), o mesmo de Evelyn Matthei. Fundou em 2019 o ultraconservador, nacionalista e personalista Partido Republicano.

O político é admirador declarado de Pinochet. Ele é conhecido por sua postura contrária ao aborto, ao casamento homoafetivo e à adoção homoparental. Por vezes, é comparado a Donald Trump e Jair Bolsonaro.

De candidato a eleito

Essa foi a terceira vez que Kast disputou a presidência chilena. Na sua primeira campanha, em 2017, ele conseguiu 8% dos votos, ficando em quarto lugar. Sebastian Piñera, da direita tradicional, foi eleito — e morreu em 2024.

Na primeira tentativa, Kast não escondeu sua admiração por Pinochet. Ele comentou durante um ato de campanha em 2017 que, “se [Pinochet] estivesse vivo, votaria em mim”. O irmão dele, Miguel Kast, foi ministro do Trabalho (1980-1982) e do Banco Central do Chile (1982) durante a ditadura, prometendo à época indultar militares presos.

Em 2021, Kast chegou ao segundo turno ao obter 27,9% dos votos, mas perdeu a disputa para Gabriel Boric, atual presidente do país.

Durante a campanha, o advogado evitou falar em Pinochet até que, numa entrevista a correspondentes estrangeiros, destacou que o Chile vivenciou uma transição democrática sob o “governo militar”, diferentemente das “ditaduras” de Cuba, Venezuela e Nicarágua. Ele defendeu propostas contra o aborto e a população LGBTI+.

Já na campanha de 2025, Kast moderou o discurso. Ele evitou tratar de questões de direitos humanos, casamento homoafetivo ou a defesa de Pinochet. Em vez disso, focou na segurança linha dura e no combate à imigração — dois temas caros à extrema direita mundial —, além da austeridade no campo econômico. 

Kast propôs a construção de prisões de segurança máxima, o aumento das penas e a revisão da forma de aplicação da legítima defesa. Prometeu deportações em massa de imigrantes em situação irregular e o corte do acesso dessas populações a serviços básicos, como saúde e educação. Além disso, defendeu um ajuste fiscal, cortando US$ 6 bilhões (cerca de R$ 31,9 bilhões) em 18 meses.

Em seu discurso da vitória, o presidente eleito afirmou que as mudanças começarão imediatamente. Ele pediu paciência aos chilenos, fez acenos a todos os candidatos — inclusive a Jara e até ao presidente, Boric — e reafirmou que sua prioridade é a segurança.

“O Chile venceu aqui e, com ele, a esperança de viver sem medo”, disse. “Sem segurança, não há paz. Sem paz, não há democracia. Sem democracia, não há liberdade. E o Chile estará novamente livre do crime, livre da angústia, livre do medo”, acrescentou.

Ultradireita neopatriótica ou conservador radical

Kast é um político com posições controversas, que muito se assemelham às de figuras de extrema direita como Trump e Bolsonaro. Contudo, há diferenças entre eles.

Segundo o livro “A extrema direita hoje”, de Cas Mudde (2019), a direita radical é geralmente nacionalista e rejeita o liberalismo — no sentido dos direitos universais para todas as pessoas —, mas participa do jogo democrático e o respeita. Ou seja, ela não rejeita a democracia. Já a extrema direita é abertamente contra a democracia.

Desde sua fundação, em 2015, o Nexo usa “extrema direita” como sinônimo de “far right”. Mas, entre acadêmicos, o termo movimenta debates semânticos, históricos e políticos.

Para o cientista político Camilo López Burian, professor da Universidad de la República, no Uruguai, Kast é membro do que ele e José Antonio Sanahuja, professor de relações internacionais da Universidad Complutense de Madrid, classificam como “ultradireita neopatriótica”.

Em tese, é o mesmo que Mudde chama de “ultradireita”, que é o guarda-chuva que abriga a direita radical e a extrema direita. Mas Burian, que também é pesquisador do Observatório da Extrema Direita, não faz distinção entre direita radical e extrema direita, definindo ambos como “ultradireita neopatriótica”.

O politólogo uruguaio explicou que mesmo os políticos da direita radical participam do jogo democrático, mas, uma vez dentro do sistema, acabam buscando desmontar os elementos da democracia liberal, como os “freios e contrapesos” e as garantias constitucionais, assemelhando-se aos de extrema direita.

Kast é um político ultraconservador, fortemente nacionalista e antiglobalista, que contesta o passado autoritário do Chile. “Kast reivindica uma forma de pensar a memória histórica que questiona os relatos de defesa de democracia e faz um branqueamento do terrorismo de Estado do Chile”, disse Burian ao Nexo.

Para o cientista político chileno Carlos Meléndez, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Portugal), o presidente eleito do Chile é “um conservador radical”. Ele acrescentou que, diferentemente do candidato de extrema direita Johannes Kaiser, Kast tem maior respeito às instituições políticas e sociais.

“Kast é um conservador nostálgico da ditadura de Pinochet, mas que reconhece o pluralismo ideológico e as formas da democracia contemporânea. Ele vê os opositores como rivais, não como inimigos. Ao mesmo tempo, promove posições morais ultrapassadas sobre a família e os casais do mesmo sexo. Em relação aos valores sociais, ele é fundamentalista, e seu pluralismo se esgota rapidamente, como se pode ver em suas posições sobre aborto e imigração”, afirmou Meléndez ao Nexo.

Um admirador de Pinochet na Presidência

Desde o fim da ditadura de Pinochet, em 1990, até 2010, o Chile foi governado por uma Concertação de Partidos pela Democracia, coalizão de partidos de centro-esquerda. Depois, o poder se alternou entre esquerda e direita, sem que um presidente fizesse um sucessor do mesmo espectro político.

Augusto Pinochet

Augusto Pinochet

Tanto a esquerda quanto a direita — como o ex-presidente Sebastian Piñera — rechaçam a ditadura chilena. Kast será o primeiro presidente abertamente admirador de Pinochet.

Kast terminou o primeiro turno com 23,9% — atrás de Jara, com 26,8%. No segundo turno, ele teve o apoio de Kaiser e Evelyn Matthei, candidatos que ficaram em quarto e quinto lugar no primeiro turno, respectivamente. O populista Franco Parisi, que ficou em terceiro, com 19,7%, não declarou apoio a nenhum dos candidatos.

A política chilena atual é dividida em três campos de rejeições: os anticomunistas, os antipinochetistas e o anti-establishment, que são tanto contra a direita quanto contra a esquerda.

Para Meléndez, a eleição de Kast mostra que ele representa uma parcela — que não é pequena — da sociedade chilena nostálgica do pinochetismo. Esse saudosismo e o apelo político de Kast foram reavivados, em parte, pela crise de segurança pela qual passa o país.

“Mas não estamos lidando com um ditador em formação, e sim com alguém que provavelmente deixará o poder em quatro anos, após as próximas eleições. Será estranho ver alguém nostálgico de uma ditadura respeitando rotineiramente o Estado de Direito. Não um Bolsonaro que planeja permanecer em La Moneda, nem um [primeiro-ministro da Hungria, Viktor] Orbán que muda as regras do jogo”, disse.