Já avançamos um quarto do século 21, e não restam dúvidas de que estamos vivendo em um mundo pós-mudanças climáticas. Em 2024, a temperatura média global ficou mais de 1,5ºC superior em relação aos níveis pré-industriais. As temperaturas na superfície onde habitamos e cultivamos nossos alimentos ficaram, em média, muitos graus acima disso. A energia adicional retida na atmosfera e nos oceanos, agora mais quentes, acabou produzindo eventos extremos em todas as partes do planeta. O clima na Terra tornou-se mais hostil para a espécie humana.
As inundações que ocorreram no Sul do Brasil em abril e maio de 2024 deixaram centenas de milhares de pessoas desabrigadas, obrigando a evacuação de cidades inteiras, com inúmeros atingidos e a marca trágica de 169 pessoas mortas. O maior desastre climático do país até o momento foi o resultado de um fenômeno El Niño, impulsionado pelo aquecimento global cujas origens estão nas ações humanas; segundo os especialistas, eventos extremos como esse se tornaram duas vezes mais prováveis e cerca de 10% mais intensos.
Também em 2024, a estiagem prolongada e o calor extremo causaram incêndios em mais de 760 mil hectares da Amazônia e em mais de 1,3 milhão de hectares no Pantanal. Incêndios florestais no país têm se tornado cada vez mais frequentes, intensos e destrutivos. Esses eventos extremos no Brasil de incêndios, enchentes, secas e ondas de calor, refletem um fenômeno global.
Enquanto escrevo estas linhas, em janeiro de 2025, a região mais valiosa do país mais rico do mundo está em chamas; áreas enormes de Los Angeles queimam na Califórnia. Entre as cenas apocalípticas de devastação que ocupam minha tela, vejo cidadãos desnorteados sendo evacuados às pressas, com suas vidas em risco. Entre eles, estão os refugiados climáticos mais ricos do mundo: estrelas de Hollywood obrigadas a migrar para um lugar seguro, enquanto suas casas são consumidas pelo fogo. É um cenário completamente diferente do campo de refugiados de Dadaab, no deserto do Quênia, que se assemelha mais a uma prisão a céu aberto, abrigando centenas de milhares de refugiados climáticos somalis, forçados a viver apátridas, devido à seca crônica.
A crise climática já está desenraizando pessoas em todos os lugares, mas de forma desigual. Mesmo que você ainda não tenha sido afetado diretamente, todos nós sentiremos os efeitos dessa convulsão climática. Na Europa, em 2024, as ruas da Sicília, marcada por secas recorrentes, foram transformadas em rios caudalosos, com vilarejos inteiros submersos, pontes intransitáveis e rodovias bloqueadas por deslizamentos de terra. Carros flutuavam como brinquedos em uma banheira, impotentes diante da força das enchentes. Outros lugares na Itália, como Bolonha, ficaram parecendo Veneza; em toda a região da Emilia-Romagna, casas foram arrastadas pela água e plantações ficaram submersas.
Cenas semelhantes ocorreram em regiões da França, da Bósnia, do México, do Japão, da China e do Nepal. Paisagens submersas se misturavam em meu feed de notícias com as imagens de incêndios devastando o Canadá, consumindo florestas em Angola e na bacia do Congo. Na Europa, incêndios em Portugal destruíam florestas, cidades e vilarejos, não muito distante dos incêndios letais em partes do Mediterrâneo até as Canárias.
O calor dos últimos dois anos, em terra e no mar, não tem precedentes na história da humanidade. Ondas de calor marinhas transformaram o Mar do Caribe em uma banheira aquecida, eliminando ecossistemas de recifes de coral. Ondas de calor fizeram com que as temperaturas chegassem a 50ºC nas Américas, na Europa e Ásia, matando milhares de pessoas e arruinando colheitas. Enquanto isso, a seca fez os preços dos alimentos dispararem, agravando a fome e os conflitos.
As inúmeras imagens de devastação, ignoradas ou difundidas mundo afora, mostram paisagens que foram historicamente moldadas pela atividade humana (casas, escolas, prédios, estradas, pontes, plantações) mas agora transformadas pela força violenta de um clima intensificado pela mesma atividade humana. Vemos pessoas atônitas, confusas, destruídas pelos eventos extremos, pelas perdas pessoais que decorrem deles. Elas ficam deslocadas, não só literalmente, mas também emocionalmente: ficam deslocadas do mundo e de um clima no qual podiam antes confiar.
Hoje não há mais lugar intocável na Terra. Onde quer que você esteja, as condições estão mudando, e todos já sentem os impactos, seja no corpo, no bolso ou no convívio social. Para quem nasce hoje e para os que nascerão amanhã, tempestades mais frequentes e severas, ondas de calor extremo e secas prolongadas parecerão normais, mesmo à medida que se agravam. O Brasil é um país imenso e extraordinário, com paisagens, pessoas e culturas diversas, que vivenciarão as mudanças climáticas de modos diferentes.
Ainda estamos construindo este século juntos e podemos decidir como ele será. Encontraremos novas formas de produzir energia, alimentos e moradia, e de tornar os lugares habitáveis. Uma grande convulsão se aproxima. Precisamos compreendê-la e nos planejar para ela. A escala planetária nos obriga a pensar além de nossas fronteiras políticas instituídas, para reconhecer os limites reais impostos pela geografia e pelos sistemas da Terra.
As tempestades não se importam se sua casa está localizada a leste, oeste, norte ou sul de uma demarcação territorial específica. O que importa é quão bem protegida ela está. Nossa segurança não depende da construção de muros, de proteções de uns contra os outros, mas do enfrentamento conjunto dessas ameaças comuns, como enchentes violentas, secas devastadoras e incêndios letais. Precisaremos reconhecer o que temos em comum e o poder que temos de agir coletivamente. Existe apenas uma Terra, existe apenas uma espécie humana.

O século nômade: Como a migração climática transformará o mundo
Gaia Vince
Trad. Lívia Bueloni Gonçalves
Quina
320 páginas