‘Moscou feliz’: a ascensão e queda da esperança soviética

Todas as manhãs, ao acordar, Moscou Tchestnova contemplava longamente a luz do sol pela janela e dizia para si mesma: “É o futuro que está chegando”, e levantava com alegria despreocupada, fruto provavelmente não da consciência, mas da força do coração e da saúde. Depois se lavava, maravilhada com a química da natureza, que transformava o alimento banal e escasso (quantas impurezas Moscou não comera em toda a sua vida!) na pureza rosada, nos espaços florescentes de seu corpo. Apesar de ser ela mesma, Moscou Tchestnova conseguia olhar para si como se para uma estranha e admirar seu corpo durante o banho. Sabia, é claro, que isso não era nenhum mérito seu, mas sim do trabalho preciso dos tempos passados e da natureza — e mais tarde, mastigando o café da manhã, Moscou sonhava algo sobre a natureza, a água corrente, o vento soprando, revirando sem cessar, como em doentio delírio, sua imensa matéria paciente… Com certeza era preciso ter compaixão da natureza — ela se esforçara tanto para criar o ser humano! —, como por uma pobre mulher, que pariu muito e já vacila de cansaço…

Ao terminar o curso de aviação, Moscou foi nomeada instrutora júnior na mesma escola. Agora ensinava a um grupo de paraquedistas o método do salto impassível do avião e como manter a calma na descida pelo espaço retumbante. 

Ela mesma voava sem sentir nenhuma tensão especial ou coragem: como na infância, apenas calculava onde estava o “limite”, ou seja, o fim da técnica e o início da catástrofe, e não o desafiava. Mas o “limite” estava muito mais longe do que se pensava, e Moscou o esticava o tempo todo.

Um dia, ela participou de um teste de novos paraquedas impregnados de um verniz que repelia a umidade da atmosfera e permitia saltar até na chuva. Tchestnova recebeu dois equipamentos — o segundo era reserva. Ergueram-na a dois mil metros e de lá pediram que se soltasse rumo à superfície da Terra através da névoa noturna formada depois das chuvas.

Moscou abriu a porta do aeroplano e deu um passo no vazio; um forte turbilhão a atingiu de baixo, como se a terra fosse a bocarra de um poderoso soprador, no qual o ar é comprimido até endurecer e se erguer — sólido como um pilar. Ela se sentiu como num tubo, soprada de cima a baixo, e manteve a boca aberta o tempo todo para poder expirar o vento selvagem que a trespassava à queima-roupa.

Tudo em volta se afigurava vago pela névoa, a terra ainda estava distante. Moscou começou a balançar, invisível a todos por causa da neblina, solitária e livre. Em seguida, pegou um cigarro e fósforos e quis acender o fogo para dar uma tragada, mas o palito apagou. Então ela se contorceu para criar um espaço cômodo e calmo junto ao peito, e rápido riscou todos os fósforos da caixa — o fogo, capturado pela força do vórtice, num instante incendiou o verniz inflamável que impregnava as alças de seda e ligavam o corpo à cápsula do paraquedas. As alças queimaram num ínfimo átimo, apenas o tempo de esquentar e se desfazer em cinzas — Moscou não viu onde foi parar a cápsula, pois o vento começou a queimar a pele do seu rosto devido à velocidade intensa e cada vez mais explosiva de sua queda. Ela voava com as rubras bochechas fervendo, o ar agressivo lhe rasgava o corpo, como se não fosse vento do espaço celestial, mas matéria pesada e morta — não dava para imaginar que a terra seria ainda mais dura e impiedosa. “Assim é você, mundo, na realidade!”, Moscou Tchestnova pensava inconscientemente, desaparecendo na penumbra da bruma. “É suave só quando não te tocam!” Puxou a argola do paraquedas reserva, visualizou no solo o aeródromo pelas luzes de sinalização e gritou de súbita dor — o paraquedas que se abria puxou seu corpo para cima com tamanha força que ela sentiu seus ossos exatamente como dentes doloridos. Dois minutos depois, estava sentada na grama, coberta pelo equipamento, começando a rastejar de lá, enxugando as lágrimas arrancadas pelo vento.  

Moscou feliz

Andrei Platónov
Trad. Letícia Mei
Ubu
192 páginas