Minha primeira professora se chamava Dona Júlia, e todos os alunos a tratavam por “senhora”. Dois anos depois, as coisas começaram a mudar: professoras se transformaram em “tias” e passaram a ser tratadas por “você”. A não ser nas esparsas ocasiões em que o “tu” vinha à tona, como nas expressões “vai te catar”, “vai te danar” e correlatas.
Achei ótimo o novo sistema, claro: tudo era mais afetuoso e revelava uma real intenção de tornar a escola menos autoritária e amedrontadora.
Mas continuo sem me acostumar a uma inovação mais recente, e parecida. Hoje em dia, cachorros e gatos não têm mais “dono”. A palavra, hoje, é “tutor”. Pelo menos, é assim que se preenchem as fichas no veterinário.
Não sei por quanto tempo ainda chamaremos nossos pets de “gato” ou “cachorro”. A denominação vai ficando, como direi, um tanto animalizante. A ideia de que uma pessoa não pode mais se considerar “dona” do cachorro ou do gato vai na mesma direção. Como “tutores”, reduziram-se nossos direitos sobre Johnny, Penélope ou Blik (se quisermos um nome sem diferenciação de gênero).
Ainda que o “vet” entenda a palavra “castrar” (castrate), em inglês o bom tom recomenda que se fale em “neutralizar” (neutralize) sua gata (ou gate, para ser mais preciso).
Mas que direito temos de castrar um bichinho? Antecipo com facilidade o momento em que isso será proibido, ou considerado uma violência equivalente a matar o cachorro e servi-lo assado num almoço de domingo.
Não sei por quanto tempo ainda chamaremos nossos pets de ‘gato’ ou ‘cachorro’. A denominação vai ficando, como direi, um tanto animalizante
E, se a palavra “dono” começa a causar vergonha, o coerente seria banir qualquer tipo de comércio de animais. Negócio horrível, de fato, ver aqueles filhotinhos em gaiolas mínimas, abanando o rabo e fazendo graça para potenciais clientes, que talvez os rejeitem em função do preço ou de uma imperfeição estética qualquer.
Se bem que, depois dos salões de beleza animais, nada impede que prospere a cirurgia plástica para os bichos mais feinhos. Não sei, mas já devem existir aparelhos de dentes para aqueles cachorros que, com o tempo, ficam prognatas e nos encaram com os olhos quase que pulando fora da cabeça.
Acho que, nos últimos 20 anos, diminuiu enormemente o número de bufês infantis, e cresceu, em alguma proporção, o número dos pet centers.
Nesse processo, há algum empresário dormindo no ponto: eu tentaria inaugurar, por que não, um bufê pet, para comemorar aniversários, quem sabe casamentos, de gatos e cachorros.
Conheço restaurantes que, não contentes com o “menu kids”, providenciam um “menu pet”, imagino que com receitas criadas especialmente pelo chef.
Tudo isso se resume, claro, à invenção de novas maneiras para tirar dinheiro do consumidor. Mas as roupinhas de inverno, as latinhas de fígado gourmet, as colônias, esmaltes de unhas (que sei?), batons e cílios postiços para animais domésticos não são nada perto do grande negócio desse campo, que são os planos de saúde.
Acompanhe-se, por exemplo, o drama da jornalista britânica Lebby Eyres, tutora da gata Venus e de Leonard, filho desta última. Há cerca de sete anos, achou razoável pagar cerca de 20 libras por mês (R$ 140) no seguro saúde dos gatinhos. Passa o tempo. Surgem problemas de saúde. O plano cobre alguma coisa, mas não tudo. Num tratamento extra para Venus, Lebby teve de tirar 1.400 libras do próprio bolso, porque o seguro não pagava.
Num artigo para o jornal Daily Telegraph, a jornalista lembra os velhos tempos. Casos de saúde complicados se resolviam, com alguma tristeza mas com sólido senso prático, pela iniciativa de “sacrificar” o bichinho. Uma injeção, uma morte indolor, e vamos em frente.
Prevejo que isso será logo proibido, ao contrário da eutanásia humana, que vai sendo aceita sem problemas. É perfeitamente possível (e humano, acho) ter mais pena de um bichinho do que de uma pessoa.
Lebby Eyres tira curiosas conclusões morais do caso da gatinha. Dar uma injeção em Venus faria a articulista se sentir culpada, o que não era o caso antigamente. Por que tanto escrúpulo hoje em dia? Lebby acusa a própria clínica veterinária: são os médicos que manipulam, agora, nossos sentimentos! Para ganhar dinheiro!
O mecanismo desse raciocínio não poderia ser mais típico da mentalidade hipersensível dos países avançados. Tenho culpa, mas não é culpa minha se eu tenho culpa. A culpa é dos outros, que produziram culpa em mim!
Como sair desse dilema? Lebby não sabe o que fazer. Enquanto isso, Venus e Leonard a observam, com grandes olhos verdes, lambem as patas e, sem dizer palavra, sugerem que ela poderia muito bem ir se catar por conta própria.