O que manuais e estudos dizem sobre IA no jornalismo

Pessoa lendo jornal. Foto de uma mão segurando uma página de jornal

Pessoa lendo jornal

A empresária Natália Martins, conhecida como Natália Beauty, admitiu usar ferramentas de inteligência artificial para escrever suas colunas no jornal Folha de S.Paulo. Em texto publicado na segunda-feira (9), ela disse que dita seus pensamentos para a IA organizá-los e transformá-los em texto, como forma de otimizar seu tempo. 

“Meus textos são escritos com inteligência artificial, sim, mas são guiados por inteligência pessoal e isso não diminui autoria, não dilui responsabilidade e não deslegitima opinião. Apenas revela que eu escolhi usar as ferramentas disponíveis para proteger o que é mais precioso que qualquer debate moral vazio: o meu tempo”

Natália Beauty

empresária, em coluna publicada na Folha de S.Paulo

O uso de inteligência artificial no jornalismo ainda é objeto de discussão, e não há um código de ética comum entre as empresas. Apesar de ferramentas de compilação de dados e de tradução serem valorizadas, a falta de transparência sobre o uso de IA pode descredibilizar a profissão. 

Neste texto, o Nexo explica o caso de Natália Beauty, mostra o que os manuais de redação dizem sobre ferramentas de IA e conversa com pesquisadores sobre seu uso no jornalismo. 

As colunas feitas com IA 

O caso de Natália Beauty começou com a publicação, no sábado (7), de um texto de Alexandra Moraes, ombudsman da Folha – profissional responsável por criticar o conteúdo do jornal. Nele, a jornalista disse que recebeu uma queixa de um leitor que questionava a autoria das colunas da empresária e o possível uso de inteligência artificial. 

Ao submeter os textos das colunas em ferramentas de detecção de IA, Moraes afirmou que a maioria apresentava “taxas de 100% [de uso de inteligência artificial] ou quase isso”. A jornalista questionou Beauty, que confirmou o uso de IA “como apoio operacional no meu trabalho, assim como utilizo outras tecnologias no dia a dia profissional”. 

A empresária afirmou que, na produção de um texto, conversa com a inteligência artificial, expondo seus argumentos sobre o tema. “A ferramenta apenas organiza esse material, respeitando rigorosamente o que foi dito, sem acrescentar dados, interpretações ou opiniões que não sejam minhas”, disse. Segundo ela, a própria resposta à ombudsman foi redigida com auxílio da IA. 

Moraes afirmou que a Folha não proíbe textos com inteligência artificial, mas que o jornal também não informa ao leitor quando há uso desse tipo de ferramenta. 

Em nova coluna para o jornal, publicada na segunda-feira (9), Beauty afirmou que o uso da inteligência artificial serve para otimizar o período gasto na escrita. “Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado”, disse. 

A empresária afirmou que é ela quem desenvolve seus raciocínios, não a ferramenta. “Uma IA não tem vivência, não tem contexto emocional e não tem responsabilidade jurídica ou moral. Quem tem sou eu”, disse. 

Beauty se tornou referência no ramo da beleza no Brasil com a criação de novas técnicas para sobrancelhas. Ela tem mais de 11,1 milhões de seguidores em seu perfil no Instagram

“Converso diariamente com a minha IA sobre trabalho, decisões, dilemas pessoais, filosofia, psicologia e estratégia. Uso como ferramenta de reflexão, organização e produtividade, e faço questão de tratar bem”, afirmou. 

O que dizem os manuais de redação

O manual de redação é um documento com as diretrizes que os profissionais de determinado jornal devem seguir em seu trabalho. Um exemplo são os padrões editoriais do Nexo, com explicações sobre entrevistas, direitos de uso e política de ética. 

O Nexo tem orientações internas sobre o uso de IA na redação. Profissionais do jornal usam inteligência artificial para pensar na estrutura de textos, transcrever entrevistas, aprimorar códigos de programação, processar dados para gráficos e melhorar a experiência do leitor no site e em newsletters. Também usam essas ferramentas como apoio para traduções e para a produção de algumas ilustrações – casos em que o recurso é indicado. 

O uso de IA no Nexo sempre passa por revisão e edição humanas. O jornal disponibilizará em breve ao público um documento sistematizando as suas diretrizes sobre o assunto.

A primeira organização a ter esses parâmetros abertos foi o Núcleo Jornalismo, em maio de 2023. 

O documento diz que os jornalistas do Núcleo podem usar ferramentas de transcrição de áudio e vídeo, tradução, pesquisa e criação de sumários, desde que o uso de IA seja explícito. Parágrafos podem ser reduzidos pela inteligência artificial, mas nunca um texto inteiro e sem supervisão humana. Em casos urgentes e excepcionais, os profissionais da empresa podem gerar imagens com IA, mas deve-se preferir o trabalho de artistas reais.  

Já a Folha de S.Paulo atualizou seu manual de redação com uma inserção sobre o uso de IA em março de 2024. Segundo o documento, os profissionais podem utilizar ferramentas de inteligência artificial “desde a concepção de uma pauta até a apresentação final da apuração, passando pela escrita de mensagens para fontes e pela coleta e/ou análise de grandes volumes de dados, entre outras possibilidades”. 

A revisão humana é recomendada em todas as situações e obrigatória para conteúdos publicados na Folha, para evitar erros, plágios e vieses da máquina. A responsabilidade pelos textos é dos jornalistas que os fizeram. O jornal não obriga que se informe aos leitores que os conteúdos contaram com o uso de ferramentas de inteligência artificial. 

A discussão sobre o uso ou não da IA generativa no jornalismo não é exclusividade do Brasil. Os repórteres e editores do jornal americano The New York Times, por exemplo, podem analisar grandes volumes de dados a partir de machine learning (aprendizado de máquina) e recorrer à tecnologia para criar manchetes e traduções. 

“Devemos explicar aos leitores como nosso trabalho foi produzido e, caso façamos uso substancial de IA generativa, esclarecer como mitigamos riscos, como viés ou imprecisão, com supervisão humana”, afirma o manual da empresa. 

O uso por jornalistas

Apesar dos diferentes entendimentos de uso de IA nas redações, essas ferramentas são uma realidade no cotidiano de jornalistas. A pesquisa “Inteligência artificial para jornalistas brasileiros”, publicada em 2024 pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e pelo portal Jornalistas&Cia, mostrou que 56% dos respondentes utilizavam tecnologias de inteligência artificial no trabalho. 

423 

foi o número de jornalistas que responderam à pesquisa “Inteligência artificial para jornalistas brasileiros” 

Também em 2024, a Momentum, iniciativa brasileira que estuda as relações entre jornalismo e tecnologia, lançou um estudo reafirmando o uso de inteligência artificial nas principais redações brasileiras. Treze representantes de empresas e associações jornalísticas foram entrevistados para falar sobre o uso da IA em suas organizações. 

Mesmo que as discussões estejam em diferentes estágios em cada empresa, os entrevistados afirmaram que as ferramentas de inteligência artificial podem aumentar a produtividade do jornalismo. A possibilidade de substituição da força de trabalho por máquinas e o uso dos dados jornalísticos para treinamento da IA, no entanto, são preocupações. 

Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, da Microsoft e da Pangram, plataforma de detecção de conteúdos de IA, publicaram um estudo em 2025 identificando que 9,1% dos artigos publicados pela imprensa americana entre junho e setembro daquele ano – um total de 186 mil – foram parcialmente ou inteiramente escritos com ferramentas de IA. 

A maioria era de jornais locais, não nacionais. Apesar disso, o relatório identificou que 4,5% dos artigos de opinião publicados no The New York Times, no Washington Post e no Wall Street Journal tinham trechos de IA. A maior parte vinha de colunistas convidados. 

0,71% 

foi a porcentagem de notícias publicadas por The New York Times, Washington Post e Wall Street Journal com trechos de IA no período

A avaliação de pesquisadores 

O Nexo conversou com três pesquisadores para entender mais sobre o uso de inteligência artificial no jornalismo. As avaliações foram convergentes: as ferramentas de IA fazem parte do cotidiano da redação jornalística. 

Consultor em inteligência artificial e professor do Insper, Pedro Burgos afirmou que esse uso costuma ocorrer em processos internos, para apoio em apurações. “Na maior parte das vezes é de forma bem simples, para busca, como se fosse um Google melhorado. Muita gente usa ferramentas como o NotebookLM para sumarização de documentos, preparação para entrevistas e traduções”, disse.  

Para Ester Borges, diretora de pesquisas da Momentum, o uso válido da inteligência artificial depende da supervisão humana. “A IA é uma ferramenta, não um analista ou um jornalista. Ela nunca deve ter a palavra final, mas servir de ferramenta para analisar dados ou fazer tarefas repetitivas que serão analisadas por um ser humano competente para a função”, afirmou. 

O uso de IA pode pôr a credibilidade de uma empresa jornalística em xeque, principalmente quando ela não informa ao leitor que usa essas ferramentas, segundo Rogério Christofoletti, professor e pesquisador de ética jornalística na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Para ele, é necessário agir com transparência. 

“O trabalho de editorialistas, colunistas e articulistas, é, sobretudo, um trabalho de organizar ideias e expressá-las. Queremos saber o que a pessoa está dizendo e não o que uma IA fez”, afirmou. 

Burgos afirmou que a edição e a curadoria são aspectos essenciais da credibilidade de um jornal, mesmo que a IA tenha capacidade de produzir bons conteúdos. “A maior parte dos leitores espera que aquele conteúdo tenha sido feito, pensado, ingerido, gestado por humanos. Acho que parte do que os veículos vendem, mesmo que não seja explícito, é essa responsabilização por algo feito por humanos”, disse. 

O uso de inteligência artificial é ainda mais preocupante no caso de reportagens, segundo Christofoletti. “O público não tem acesso aos dados que você apurou, aos procedimentos que você usou, ao contexto com o qual você trabalhou. O público tem acesso ao seu texto”, disse. 

Borges também comentou o problema dos direitos autorais em conteúdos de IA, especialmente artigos de opinião. “Quando usamos inteligência artificial para algo que deveria ser analítico, que deveria ser opinião, corremos o risco de bagunçarmos o que se entende por autoria, o que foi pensado de fato por um ser humano e o que é um mix de várias opiniões”, afirmou.