
Pré-candidato a presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso, encerrou na terça-feira (10) um giro por Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Israel e França.
O senador já havia ido a El Salvador em novembro de 2025. Ele pretende ir à posse presidencial de José Antonio Kast no Chile, em março. Um novo périplo no exterior nos próximos meses, ainda durante a pré-campanha, está no radar.
Neste texto, o Nexo fala sobre o giro de Flávio Bolsonaro, relembra as conexões da família com a extrema direita mundial e analisa os sinais desse périplo.
Flávio Bolsonaro se lançou candidato presidencial em 5 de dezembro de 2025, com o aval do pai. Ele e o irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que teve o mandato de deputado federal cassado, viajaram em 19 de dezembro para Israel.
No Estado judeu, os irmãos participaram da Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo e encontraram-se com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Na conferência em 27 de janeiro, o senador afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu adversário na eleição presidencial, é antissemita.
O senador também fez agendas simbólicas. O senador tomou banho nas águas do rio Jordão, num gesto semelhante ao que fez seu pai em 2016 como parte da estratégia visando à campanha vitoriosa de 2018. Além disso, Flávio esteve no Muro das Lamentações, monumento sagrado situado em Jerusalém, que o seu pai visitou em 2019 ao lado de Netanyahu. Ele registrou os momentos nas redes sociais.
“Não é coincidência. É propósito. É missão dada por Deus”, escreveu Flávio numa publicação em que compartilha a imagem dele e de Jair Bolsonaro no Muro das Lamentações.
Em seguida, o senador viajou para o Bahrein e para os Emirados Árabes. Numa publicação de 31 de janeiro, ele aparece ao lado do primeiro-ministro e príncipe herdeiro do Bahrein, Sheik Salman bin Hamad Al Khalifa, e do príncipe Khaled bin Hamad Al Khalifa, numa corrida de cavalos no país.

Flávio Bolsonaro e Marion Maréchal se reúnem em Paris
O pré-candidato bolsonarista terminou o giro na França, onde se reuniu com Marion Maréchal, neta de Jean-Marie Le Pen e sobrinha de Marine Le Pen, e com François-Xavier Bellamy, vice-presidente do partido conservador Os Republicanos.
Ele também foi convidado a participar de um programa no canal francês TV CNews na segunda-feira (9), quando disse que o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), era “um grande violador de direitos humanos”. E afirmou que o Brasil “não vive uma democracia plena”.
“O presidente Bolsonaro foi condenado por seus próprios inimigos. Ele foi alvo de uma grande farsa montada ao longo dos anos para tirá-lo de competição e perseguir pessoas de direita”, disse Flávio Bolsonaro.
Em novembro de 2025, Flávio esteve em El Salvador, onde visitou o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo). Ele não conseguiu se encontrar com o presidente salvadorenho Nayib Bukele, que se tornou inspiração para a extrema direita mundial por sua política linha dura na segurança, repleta de violações a direitos humanos e civis.
No final de 2025, o filho zero um de Bolsonaro também esteve nos Estados Unidos, onde tentou um encontro com Marco Rubio, secretário de Estado americano, que não se concretizou. A invasão americana da Venezuela e a captura do então presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro atrapalharam os planos dos bolsonaristas, segundo o jornal O Globo.
O giro foi organizado por Eduardo Bolsonaro, que vive desde fevereiro de 2025 nos EUA, onde articulou junto ao governo Donald Trump retaliações ao Brasil e a autoridades brasileiras para tentar barrar a condenação do pai na trama golpista.
O objetivo do périplo de Flávio é se aproximar de líderes da direita no mundo, segundo aliados disseram ao jornal Folha de S.Paulo.
A família Bolsonaro estabeleceu conexões com a extrema direita mundial desde a campanha presidencial de Jair Bolsonaro de 2018.
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Eduardo viajou aos EUA em 2017 para discutir a campanha do pai com Steve Bannon, ex-estrategista de Trump e um dos articuladores da extrema direita mundial. Em 2019, Eduardo chegou a ser anunciado por Bannon como líder sul-americano de uma iniciativa que reúne lideranças da direita populista no mundo todo.
Após a eleição de Jair, as articulações da família se intensificaram. O ex-presidente brasileiro viajou diversas vezes aos EUA, onde se reuniu com Trump durante o primeiro mandato do americano. Houve encontros com Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e Netanyahu.
Desde então, Eduardo seguiu por outras frentes: ele se reuniu com organizações e think tank conservadores e políticos de extrema direita mundo afora, como o deputado espanhol Santiago Abascal, do Vox, com o ministro italiano Matteo Salvini, da Liga, e o presidente argentino Javier Milei, do A Liberdade Avança, além de integrantes do português Chega, do francês Reagrupamento Nacional, do polonês PiS (Lei e Justiça), do alemão AfD (Alternativa para Alemanha) e da ala mais radical do americano Partido Republicano.
David Magalhães, coordenador do Observatório da Extrema Direita, avaliou ao Nexo que o giro de Flávio é uma tentativa de se tornar uma espécie de herdeiro e dar sequência a uma articulação internacional iniciada pelo irmão, Eduardo Bolsonaro.
“Há uma ascensão da direita radical no mundo, que não é de agora, e o bolsonarismo tenta se vincular a essa onda. Fora dela, o bolsonarismo é visto como um pária. Então, a ideia é se vincular aos congêneres ideológicos”, disse.
Nos últimos anos, a política internacional tem estado cada vez mais vinculada à política doméstica e impactado nas eleições. “Essa interface internacional e doméstica é cada vez maior e não há como dissociar uma coisa da outra”, afirmou.
Magalhães explicou que, diante disso, Flávio tenta se fortalecer perante o eleitorado fiel ao bolsonarismo, apresentando-se como alguém que transita entre políticos e lideranças da extrema direita mundial. Ele acrescentou que, também por isso, o senador buscou associar Lula ao antissemitismo. “A política internacional invadiu com força a política interna”, disse.