
O atleta Lucas Pinheiro Braathen, em entrevista para jornalistas durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina
O Brasil vive a expectativa de conquistar sua primeira medalha na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. O brasilo-norueguês Lucas Pinheiro Braathen é um dos favoritos ao pódio no esqui alpino em Milão-Cortina, na Itália. Atualmente, ele é o segundo colocado no ranking geral da Copa do Mundo da modalidade.
Desde o início das disputas em Milão-Cortina, em 6 de fevereiro, atletas brasileiros conquistaram marcos inéditos. Essa é a maior delegação do país nos Jogos Olímpicos de Inverno desde sua primeira participação na competição, em 1992. A atual edição do campeonato vai até o dia 20 de fevereiro.
14
é o número de atletas na delegação brasileira dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina; há também um reserva, na equipe de bobsled
Neste texto, o Nexo apresenta a carreira de Lucas Pinheiro Braathen, mostra o desempenho da delegação brasileira em Milão-Cortina e fala do histórico do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Lucas Pinheiro Braathen nasceu na capital norueguesa, Oslo, em 2000. Ele é filho de Bjørn Braathen e da paulista Alessandra Pinheiro de Castro, que ensinou português a ele desde a infância. O atleta costumava passar as férias entre São Paulo e Campinas (SP), cidade de sua família materna.
Apaixonado pelo futebol brasileiro – em entrevista ao portal UOL, em 2024, ele afirmou torcer pelo São Paulo –, Pinheiro começou a praticar esqui alpino por incentivo de seu pai, aos 9 anos. Destacou-se no esporte desde então.
O esqui alpino é uma modalidade contra o relógio. Os atletas descem a montanha um por vez, tendo que passar por marcações, e aquele que o fizer em menor tempo vence a competição. As provas de slalom e slalom gigante, com menores velocidades de descida e percursos estreitos, são as especialidades de Pinheiro.
Na temporada de 2018/2019, o atleta foi campeão norueguês e conquistou duas medalhas no Mundial Júnior de Esqui Alpino, em Val Di Fassa, na Itália. Ainda em 2019, ficou na quarta colocação da Copa Europeia de adultos.
Uma lesão no ligamento do joelho em 2020 fez com que Pinheiro retomasse as atividades somente na temporada de 2021/2022. Em 2023, ele se tornou campeão da Copa do Mundo de Esqui Alpino na categoria slalom, vencendo três etapas e subindo ao pódio sete vezes.
Antes do início da temporada 2023/2024, Pinheiro anunciou a aposentadoria do esporte. Ele estava descontente com a Federação Norueguesa de Esqui por disputas de direitos de imagem – ele foi multado após participar de uma campanha publicitária de uma marca de roupas concorrente à patrocinadora da entidade.
“Sempre segui meus próprios sonhos e o que me faz mais feliz. Pela primeira vez em pelo menos seis meses, estou feliz depois de tomar esta decisão. Pela primeira vez em anos, me sinto livre”
Lucas Pinheiro Braathen
atleta, em entrevista a jornalistas em outubro de 2023
O atleta anunciou a volta ao esqui alpino em março de 2024 para defender o Brasil em competições internacionais. Por ser filho de brasileira, ele não teve de pausar a carreira – procedimento comum para esportistas de dupla nacionalidade.
“O objetivo mais importante para mim é trazer a cultura, a dança e o sentimento do brasileiro para o esporte na neve. Para mim, é importante mostrar à comunidade do esporte que você pode ser uma pessoa diferente e ainda assim ser um dos melhores”, afirmou ao site Globo Esporte antes do anúncio.
Ele começou a competir com a bandeira brasileira em julho de 2024. Ao longo da temporada, subiu ao pódio em cinco oportunidades – três pratas e dois bronzes – na Copa do Mundo, entre provas de slalom e slalom gigante. Ele foi o quinto colocado na segunda categoria.
As conquistas o tornaram o primeiro atleta de um país do Hemisfério Sul – com exceção da Austrália e da Nova Zelândia – a subir ao pódio da Copa do Mundo.
Na atual temporada da Copa, o brasileiro já teve cinco pódios, sendo uma medalha de ouro e quatro pratas. Sua disputa mais recente ocorreu em 27 de janeiro, em Schladming, na Áustria. Ele ficou na segunda colocação no slalom gigante.
O COB (Comitê Olímpico Brasileiro) escolheu Pinheiro para ser o porta-bandeira – junto de Nicole Silveira, do skeleton – na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, no Estádio San Siro, em Milão. Pela Noruega, ele participou das Olimpíadas de 2022, em Pequim, mas não chegou às finais.
Em entrevista a jornalistas no sábado (7), o atleta disse que era um sonho representar o país. “Sou muito grato por todo mundo torcendo por mim, torcendo pelo Brasil, por estar acompanhando nossa jornada. Vou fazer tudo para trazer a medalha para nossa casa”, afirmou.

Lucas Pinheiro Braathen na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026
As provas de slalom e slalom gigante, que Pinheiro disputa nos Jogos de Inverno, ocorrem no sábado (14) e na segunda-feira (16). Os atletas Christian Oliveira Soevik (também nascido na Noruega) e Giovanni Ongaro (nascido na Itália) também disputam as provas. Entre as mulheres, Alice Padilha é a representante brasileira.
O esqui alpino não é a única modalidade em que o Brasil se classificou para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026.
A delegação brasileira estreou na neve italiana no esqui cross-country na terça-feira (10). O acreano Manex Silva ficou na 48ª colocação no sprint clássico, a melhor do país na história da modalidade. Já as paulistas Duda Ribeira e Bruna Moura terminaram em 72º e 74º, respectivamente.
Moura também ficou na 99ª colocação na prova de esqui cross-country de 10 km feminina, realizada com 111 atletas na quinta-feira (12). Já Ribeira não conseguiu terminar a disputa.
O suíço Patrick Burgener – sexto colocado do ranking mundial – e o argentino Augustinho Teixeira representaram o Brasil no snowboard halfpipe na quarta-feira (11). Ambos não conseguiram passar para as finais.
Além de Pinheiro, outra esperança de medalha para o Brasil é Nicole Silveira, que o acompanhou como porta-bandeira. A gaúcha acumula resultados positivos no skeleton, modalidade em que o atleta desce uma pista de gelo em cima de um trenó.
Desde 2024, Silveira ficou em terceiro lugar em quatro etapas da Copa do Mundo de Skeleton, sendo a primeira brasileira a conquistar medalhas no torneio. A atleta também ficou com a medalha de ouro no Pan-Americano da modalidade em janeiro de 2025. Atualmente, ela é a nona do ranking mundial.
Essa será a segunda vez que Silveira competirá nos Jogos Olímpicos de Inverno. Em Pequim, em 2022, ela ficou em 13º lugar – a melhor colocação do Brasil no skeleton até hoje. As descidas da modalidade em 2026 acontecem entre sexta (13) e sábado (14).
A primeira edição dos Jogos Olímpicos de Inverno ocorreu em Chamonix, nos Alpes Franceses, em 1924. Inicialmente, o torneio foi considerado uma extensão das Olimpíadas de Paris daquele ano, mas, depois, passou a ser rotulado como a estreia de uma nova competição.
A primeira participação brasileira nos Jogos de Inverno foi em 1992, em Albertville, na França. Todos os atletas nacionais na competição até 1998 eram de esqui alpino.
50
é o número de atletas que já defenderam o Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno, contando os da edição de Milão-Cortina
A atleta de snowboard carioca Isabel Clark havia registrado melhor resultado brasileiro nos Jogos de Inverno até a edição de Milão-Cortina. Ela ficou na nona colocação do snowboard cross em 2006, nas Olimpíadas de Turim, também na Itália.
Apesar da falta de medalhas a nível profissional, o Brasil já subiu ao pódio nos Jogos Olímpicos da Juventude. O catarinense Zion Bethonico levou o bronze no snowboard cross em 2024, em Gangwon, na Coreia do Sul.
Pelo clima tropical no Brasil e a baixa incidência de neve, muitos brasileiros migram para países do Hemisfério Norte – onde também há melhor infraestrutura – para treinar. Em alguns casos, os treinamentos são adaptados para o verão. Atletas do esqui cross-country, por exemplo, praticam a modalidade no asfalto, com aparelhos de rollerski – semelhantes aos da neve, mas com rodas.