
Gravação de explosão em Teerã, no Irã
EUA e Israel fizeram um ataque coordenado contra o Irã neste sábado (28). Em resposta, o governo iraniano bombardeou bases americanas no Oriente Médio e disparou mísseis contra o território israelense. Segundo Donald Trump, o aiatolá Ali Khamenei foi morto – o Irã tem negado a informação, mas ainda não mostrou nenhuma prova de que ele esteja vivo.
“Khamenei, uma das pessoas mais malignas da História, está morto. Isso não é apenas justiça para o povo do Irã, mas para todos os grandes americanos e para pessoas de muitos países ao redor do mundo que foram mortas ou mutiladas por Khamenei e seu bando de capangas sanguinários”
Donald Trump
presidente americano, em publicação na Truth Social neste sábado (28)
Os ataques aconteceram na capital Teerã e diversas outras cidades do Irã. De acordo com o Crescente Vermelho, organização humanitária não governamental no Irã, pelo menos 201 pessoas morreram e 747 ficaram feridas.
O ataque coordenado acontece em meio a negociações entre os EUA e o Irã. Neste texto, o Nexo fala o que se sabe sobre os ataques e explica as negociações que estavam em curso entre os países.
As explosões no Irã começaram na madrugada do sábado (28). Além da capital Teerã, também foram registrados ataques às cidades de Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah, em diferentes regiões do país. De acordo com a Crescente Vermelho, há registros de explosões em pelo menos 20 das 31 províncias do país.
Em uma das investidas, pelo menos 85 estudantes de uma escola no sul do Irã morreram, ainda segundo informações da agência estatal IRNA. O espaço aéreo iraniano foi fechado.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Donald Trump afirmou que o objetivo do ataque foi proteger o povo americano de ameaças e destruir o programa nuclear iraniano, que está no centro das tensões entre os dois países.
“Garantiremos que os representantes terroristas do regime não possam mais desestabilizar a região ou o mundo, e que o Irã não obtenha uma arma nuclear. Este regime aprenderá em breve que ninguém deve desafiar a força e o poder das forças armadas dos Estados Unidos”
Donald Trump
presidente dos EUA, em vídeo publicado nas redes neste sábado (28)
Do lado israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendeu o ataque como uma forma de “eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista do Irã”. Segundo Tel Aviv, “centenas de alvos militares iranianos” foram atingidos.
Em resposta aos ataques, o Irã lançou bombardeios contra Israel e atacou bases militares americanas em outros países do Oriente Médio, como Catar, Bahrein, Kuwait, Iraque, Jordânia e Emirados Árabes. Ainda não se sabe a extensão dos danos a esses locais.
O Ministério das Relações Exteriores iranino afirmou que os ataques dos EUA e de Israel acontecem “no meio de um processo diplomático”. O governo americano e o governo iraniano haviam participado nesta semana da quarta rodada de negociações, que havia sido encerrada sob votos de avanço pelo chanceler iraniano Abbas Araghchi.
Segundo a Agência Reuters, o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour, e o ministro da Defesa do Irã, Amir Nasirzadeh, morreram nos ataques deste sábado (28). A informação ainda não foi confirmada pelo governo iraniano.
A crise recente entre os EUA e o Irã começou na esteira de uma onda de protestos que eclodiram no país persa em dezembro de 2025. Trump ameaçou em 2 de janeiro retaliar o regime caso continuasse reprimindo os manifestantes. Ele disse que seu governo ajudaria os iranianos.
As manifestações acabaram nas últimas semanas, deixando pelo menos 7.000 pessoas mortas. Há organizações de direitos humanos que estimam mais de 30 mil óbitos. A ajuda americana não chegou.
Mas a retórica da Casa Branca serviu para levar o regime do líder supremo Ali Khamenei para a mesa de negociação sobre um novo acordo nuclear, após Trump abandonar, em 2018, o trato fechado entre EUA e Irã em 2015, impondo sanções ao país persa e causando graves problemas econômicos à população.
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O enviado especial do presidente americano, Steve Witkoff, e o genro de Trump, Jared Kushner, realizaram rodadas de negociações indiretas neste mês com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, mas sem avanços.
Em 17 de fevereiro, o chanceler iraniano afirmou, de forma vaga, que os negociadores chegaram a “um acordo geral sobre alguns princípios orientadores”. As negociações ocorriam sob desconfiança mútua.
Para os EUA, um novo acordo teria de eliminar o programa nuclear iraniano. O regime persa rejeita a proposta, mas aceita limitar o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, como energia e medicina.
A partir da pressão de Israel, uma ala do Partido Republicano e do governo americano quer também impor limites ao Irã sobre seu arsenal de mísseis balísticos e sobre a aliança com organizações paramilitares islâmicas da região — o que o país também rechaça.
O Irã lidera uma aliança informal conhecida como Eixo de Resistência, que conta com Hamas, Hezbollah, Houtis, Jihad Islâmica e milícias do Iraque e Afeganistão. A Síria, quando estava sob o governo Bashar al-Assad, também integrava o grupo.
Em meio às negociações diplomáticas, o presidente dos EUA ordenou em janeiro o aumento da presença militar americana no Oriente Médio. Isso ocorreu após a intervenção na Venezuela e a captura do então presidente Nicolás Maduro.
Acompanhado de três navios destroyers, o porta-aviões USS Abraham Lincoln chegou ao Mar Arábico no fim do último mês. Um segundo porta-aviões, o USS Gerald Ford, está a caminho da região. Dezenas de caças F-35, F-22 e F-16 e aviões-tanques de reabastecimento — vitais para uma campanha aérea prolongada — também foram deslocados.
Essa foi a maior mobilização aeronaval dos EUA na região desde a invasão do Iraque em 2003.
Ao jornal americano The New York Times, autoridades do governo e militares americanos afirmaram que reforçaram seus recursos defensivos desde que Trump ameaçou atacar o Irã em janeiro.
Em entrevista ao Nexo em 19 de fevereiro, o cientista político Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, disse que “os canais diplomáticos estão abertos e a pressão militar está entrando como instrumento de coerção”.
“O que os EUA estão exigindo são três grandes demandas que mudariam a política externa desenvolvida pelo Irã desde os anos 1980”, explicou.