
Donald Trump e Benjamin Netanyahu após reunião em Mar-a-Lago, na Florida
Donald Trump e Benjamin Netanyahu encabeçaram em conjunto o ataque no sábado (28) ao Irã, que retaliou espalhando o conflito por diversos países do Oriente Médio. A ofensiva ocorreu a despeito da ausência de uma ameaça iminente por parte do país persa, que lidava com crise econômica e manifestações sociais internas.
A escolha pelo confronto parece ter sido motivada por oportunidade política. Tanto Trump quanto Netanyahu registram baixos índices de popularidade em seus países e devem enfrentar eleições em 2026 — embora o americano não dispute diretamente um cargo nas urnas. A ação pode acarretar impactos distintos para cada um deles.
Neste texto, o Nexo explica os contextos do conflito com o Irã e analisa suas possíveis implicações para Trump e Netanyahu.
O Irã lidava com problemas econômicos, agravados após a guerra com Israel em junho de 2025, quando os EUA bombardearam instalações nucleares iranianas. Entre 28 de dezembro e meados de janeiro, a crise econômica desencadeou manifestações reprimidas pelo regime com violência. Pelo menos 7.000 pessoas morreram.
Desde o início de fevereiro, os EUA e o Irã tentavam negociar um novo acordo nuclear, sob desconfiança mútua. Enquanto os americanos exigiam o fim do programa nuclear iraniano — inclusive para fins pacíficos, como produção de energia, pesquisa e uso médico —, os iranianos resistiam a abrir mão dele completamente, reiterando que seus objetivos eram pacíficos — embora enriquecessem urânio em níveis acima do necessário para o uso civil.

Gravação de explosão em Teerã, no Irã
Em meio às negociações, Netanyahu se reuniu com Trump. Ao longo de duas semanas, o primeiro-ministro israelense estimulou o americano a empreender uma ação militar contra o Irã, mas pediu tempo para que Israel preparasse sua defesa, segundo o jornal americano The New York Times.
A ofensiva expôs fissuras na direita americana. O jornalista Tucker Carlson — uma das principais vozes da extrema direita no país — manifestou dissidência dentro da base Maga (Make America Great Again, ou “Torne a América grande novamente”), slogan de campanha que se transformou no movimento político trumpista. Crítico do ataque ao Irã, ele tem dito que se trata de uma guerra de Israel, não dos EUA.
Carlson tentou dissuadir Trump de atacar o Irã, ponderando os riscos para os militares americanos, o possível aumento nos preços de energia e as repercussões junto aos aliados árabes no Oriente Médio, segundo o Times. Ele estimulou o republicano a conter Netanyahu — o que não aconteceu.
Autoridades americanas apresentaram justificativas oscilantes para a ofensiva. Primeiro, disseram que o objetivo da ação era o fim do programa nuclear iraniano. Posteriormente, reivindicaram o fim do regime.
A última rodada de negociações nucleares entre os EUA e o Irã, sob mediação de Omã, ocorreu na quinta-feira (26), na Suíça. Uma nova conversa estava marcada para segunda-feira (2) — que, devido à agressão, não ocorreu.
Após a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, o regime já nomeou um líder interino, o aiatolá Alireza Arafi.
Trump se elegeu em 2016 criticando as aventuras militares americanas. Em seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, não iniciou nenhum conflito. Na campanha de 2024, prometeu que reduziria o envolvimento dos EUA em guerras — compromisso contradito pelas ações recentes.
Como o Irã não atacou os EUA e o próprio Trump havia afirmado, em 2025, que o programa nuclear iraniano havia sido “obliterado” com o ataque daquele ano, a ofensiva atual é lida como uma “guerra de escolha”.
Para Clarissa Forner, professora de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisadora do INCT-Ineu (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos), as recentes operações dos EUA na Venezuela e no Irã podem parecer uma tentativa de Trump de demonstrar força, mas revelam a fraqueza do país e do presidente americano.
“Tudo isso é uma resposta ao declínio dos EUA, que já vem ocorrendo há algum tempo e foi acelerado com Trump”, disse a pesquisadora ao Nexo. Segundo ela, a agressão é uma tentativa do republicano de responder à sua queda de popularidade e aos reveses judiciais sofridos internamente em relação ao tarifaço.
O ataque ao Irã tem reverberado no debate político americano. Congressistas democratas e republicanos questionaram a legalidade da ofensiva contra o Irã, já que Trump não pediu autorização ao Legislativo para a ação, como manda a Constituição dos EUA.
Em resposta à ofensiva, democratas querem aprovar um projeto com base na Lei de Poderes de Guerra de 1973, que limita o uso da força militar sem autorização expressa do Legislativo. A resolução pretende obrigar a Casa Branca a submeter qualquer nova fase da ação militar a votação no Congresso ou encerrar a ação. Também está no radar dos congressistas a restrição do financiamento das operações.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você
As midterms, as eleições de meio de mandato nos EUA, estão previstas para 3 de novembro. O pleito, visto como um termômetro da gestão presidencial, vai renovar as 435 vagas da Câmara e 35 das 100 no Senado. Os republicanos têm maioria nas duas Casas, mas arriscam perdê-las diante da impopularidade de Trump.
Para Forner, a operação militar no Irã tende a ter efeito negativo para Trump, mas seu impacto real vai depender da duração do conflito e dos impactos econômicos e de vidas dos soldados. Ela acrescentou que a inflação já é um dos grandes problemas do governo americano, e a alta do petróleo pode aumentar a pressão nos preços.
Pesquisa do canal americano CNN divulgada na segunda-feira (2) aponta que 59% dos americanos desaprovam os ataques contra o Irã, enquanto 41% apoiam a decisão. O levantamento indica também que cerca de seis em cada 10 entrevistados temem que os EUA se envolvam num conflito prolongado no Oriente Médio.
77%
dos republicanos aprovam a operação militar contra o Irã, segundo pesquisa da CNN
“Pode ser contraditório, mas Trump mantém uma perspectiva militarista de supremacia pela força, de que deve imperar a lei do mais forte”, disse Forner. Ela acrescentou que essa lógica tem apelo em parte do seu eleitorado, mas a manutenção do conflito por um longo período pode reverter esse apoio.
Diferentemente da maioria dos americanos, que não entendem o Irã como uma ameaça, a população israelense considera o país persa o maior e o mais perigoso adversário de Israel.
Para o país, o conflito atual é uma extensão do que ocorreu na Faixa de Gaza — visto que o Irã financia em parte o Hamas —, das trocas de bombardeios que ocorreram entre os países em 2024 e da guerra que durou 12 dias em junho de 2025, segundo Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos.
Essa percepção é alimentada, em parte, por Netanyahu, que adota amplamente o discurso securitário, embora sua gestão tenha sido marcada pela falha de segurança que possibilitou o atentado do Hamas ao território israelense em 2023.
Israel e Hamas estão sob um frágil cessar-fogo desde outubro de 2025 após dois anos de conflito. O atentado da organização extremista palestina em 2023 deixou 1.200 mortos e fez 251 reféns israelenses — todos já foram libertados ou tiveram os corpos devolvidos ou recuperados. A resposta de Netanyahu deixou mais de 70 mil palestinos mortos e um rastro de destruição na Faixa de Gaza. Ao longo dos últimos meses, houve violações da trégua de lado a lado.
As eleições legislativas israelenses devem ocorrer, no máximo, até 27 de outubro, quando termina o mandato da atual legislatura. Pesquisas de intenções de voto divulgadas em meados de fevereiro mostravam que Netanyahu não obteria a maioria dos assentos da Knesset, o Parlamento unicameral israelense, para formar governo.

Gabinete de Netanyahu divulga imagem dele conversando com Trump após ataque contra Irã
Com a popularidade em baixa, Netanyahu não quer correr o risco de perder o cargo. Ele tem feito manobras para postergar seu julgamento por três casos de corrupção diferentes na Justiça israelense, chegando a pedir indulto ao presidente Isaac Herzog, mas sem admitir a culpa — o que é incomum. Ele ainda não obteve resposta.
Para Gherman, o conflito com o Irã é conveniente para Netanyahu, que aproveita o contexto regional favorável e o enfraquecimento do regime iraniano. Ao mesmo tempo, ele desvia o foco do debate sobre a Palestina e tenta melhorar seu desempenho nas pesquisas.
“Netanyahu consegue ganhar com a guerra em várias frentes. Essa guerra é um excelente negócio para ele”, afirmou o professor da UFRJ.
Membros do partido conservador Likud, de Netanyahu, afirmaram, sob condição de anonimato, ao jornal israelense Ynet (Yedioth Ahronoth) que o primeiro-ministro israelense estuda dissolver o Parlamento e convocar as eleições nacionais para 30 de junho, buscando colher uma possível melhora da popularidade após a operação contra o regime persa. Não está claro quanto tempo vai durar o conflito.
Gherman afirmou que a narrativa atual de Netanyahu é que o Irã será destruído, seu regime vai mudar e a vida da população deve melhorar depois do conflito. Ele acrescentou, porém, que, a longo prazo — com bombas iranianas atingindo o território israelense e provocando medo e mortes —, pode haver uma mudança dessa percepção.
Para ele, Netanyahu pode ter um problema grande se os custos políticos para os EUA forem tão altos que Trump decida sair da guerra. “Israel, sozinho, tende a recuar. Se sair da guerra sem que o regime [iraniano] caia, Netanyahu perde”, disse.