Do Cariri para o mundo: a identidade como projeto

Joaquín Torres García defendia que nosso Norte está no Sul. Inverter o mapa é inverter hierarquias, recusar a ideia de que o reconhecimento só vem quando nos aproximamos do eixo dominante — seja ele nacional ou global. É afirmar pertencimento antes de pedir validação.

Esse gesto ajuda a compreender o Nordeste de hoje. Um território que mudou não por concessão simbólica, mas por transformação material. Investimentos federais em infraestrutura, segurança alimentar e acesso à água alteraram a base da vida cotidiana. A permanência deixou de ser exceção. O deslocamento deixou de ser destino único.

Isso não significa que a desigualdade tenha sido superada. A distância entre PIB e renda per capita em relação ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste permanece evidente. O preconceito também. O nordestino ainda é frequentemente lido como atraso, como exceção, como problema a ser corrigido. Mas o Nordeste já não cabe apenas na narrativa da falta.

Orgulhar-se de quem fomos e de quem somos e projetar quem podemos ser a partir dessa consciência é a base para imaginar outros futuros possíveis

É nesse ponto que a literatura retorna — não como definição do presente, mas como memória crítica. Autores como João Cabral de Melo Neto já traçaram a imagem de força e resistência que emana da figura do sertanejo — um território marcado pela escassez, pelo trabalho árduo e pela tentativa persistente de extrair vida de uma paisagem adversa. “Morte e vida severina permanece fundamental porque nos lembra de onde viemos. Mas não pode ser a única lente para ler o agora. O Nordeste contemporâneo carrega contradições, disputas e avanços que escapam à imagem fixa da escassez.

Em outras esferas da cultura, esse deslocamento já é visível. Na gastronomia, o reconhecimento não veio por adaptação, mas por afirmação. O Mocotó, fundado por um nordestino na Vila Medeiros, bairro popular da zona norte paulistana, foi por décadas um restaurante de bairro. Seu filho, Rodrigo Oliveira, deu continuidade a esse legado e fez algo decisivo: não traduziu a culinária nordestina para agradar a elite; levou a elite até ela. O que antes era visto como comida “menor” tornou-se referência cultural. O preconceito foi rompido prato a prato. 

Na música, o piseiro deixou de ocupar um lugar periférico para disputar o centro da cena cultural brasileira. Artistas como João Gomes não pedem tradução: afirmam repertórios, afetos e linguagens que passam a ser compartilhados nacionalmente.

Na arquitetura, entretanto, esse reconhecimento ainda é mais lento.
Por isso, é necessário defender nossa identidade, afirmando que nossa arquitetura nunca será uma resposta formal para atender o olhar de fora, mas uma expressão genuína desse amálgama cultural que chamamos de Nordeste.

Talvez porque a arquitetura brasileira siga excessivamente orientada por referências externas. Talvez porque ainda se espere que a produção do Nordeste se legitime quando se aproxima do repertório consagrado do eixo Rio–São Paulo ou do Norte global. Talvez porque identidade ainda seja confundida com ornamento, e não com estrutura. O elemento vazado, recorrente na arquitetura produzida no Nordeste, costuma ser lido como insistência formal. Mas isso é um equívoco. O elemento vazado não é linguagem. É resposta. 

Na música e na tradição oral nordestina, o sertão aparece como território de espera, resistência e adaptação. Já no início do século 20, Euclides da Cunha consolidou a imagem do sertanejo como figura de força e resistência, moldada por um território adverso e por sucessivas camadas de abandono histórico. O tempo é regulado pela chuva e pela escassez, e onde cantar, plantar ou construir depende da inteligência de ler o clima. A arquitetura também. Ventilação cruzada, filtragem da luz, criação de sombra e redução da dependência energética não são escolhas estéticas — são decisões de sobrevivência, inteligência e permanência. 

Durante o século 20, o concreto simbolizou um tempo de energia barata e abundante. Sistemas mecânicos de climatização se tornaram regra. Hoje pagamos esse preço. Vivemos uma crise energética, climática e ambiental. Territórios do Sul global são ocupados por monoculturas, por latifúndios de painéis solares e por infraestruturas destinadas a alimentar centros de processamento de dados e inteligência artificial, enquanto populações locais seguem privadas de acesso pleno a esses recursos.

O cinema brasileiro já expôs esse conflito de forma contundente. Em “Terra em transe”, um país entra em colapso ao tentar se reconhecer entre projetos importados e realidades negadas. Décadas depois, “Bacurau” retoma esse impasse: um Brasil que não se reconhece e, por isso, se torna território disponível à exploração.

Talvez seja hora de revisitar experiências como o Movimento Armorial, que reivindicou uma cultura erudita enraizada no popular, sem hierarquias impostas. A força desse gesto está no reconhecimento dos próprios códigos culturais como base para projetar novos caminhos.

A arquitetura que responde ao lugar, utiliza recursos locais, valoriza técnicas disponíveis e reduz a dependência energética aponta para uma ideia de futuro baseada em inteligência territorial e responsabilidade ambiental.

Assumir o Sul é reconhecer a própria identidade — a origem, o território, os saberes que nos formaram. É compreender-se como diferente não como deficiência, mas como posição. Essa autocompreensão é, em si, uma atitude anticolonial: recusa a hierarquia implícita que transforma alguns modos de existir em modelo universal e outros em desvio. Orgulhar-se de quem fomos e de quem somos e projetar quem podemos ser a partir dessa consciência é a base para imaginar outros futuros possíveis.

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George Lins é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Ceará (2006), com especialização em Tecnologia do Ambiente Construído pelo CENTEC/CE (2010).

Cintia Lins é arquiteta e urbanista formada pela Universidade de Fortaleza (2008) e especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade de Juazeiro do Norte (2017).

Ambos têm experiência docente em cursos de Arquitetura e Urbanismo. Desde 2011, são sócios-diretores do escritório Lins Arquitetos Associados.