‘Novo líder supremo foi escolhido para guerra e sobrevivência’

Bombardeios israelo-americanos em Teerã, capital do Irã

Bombardeios israelo-americanos em Teerã, capital do Irã

Mojtaba Khamenei, filho do ex-líder morto Ali Khamenei, foi anunciado no domingo (8) como o novo líder supremo  do Irã, de acordo com a imprensa estatal iraniana. A escolha ocorre um dia após o conflito, iniciado pelos Estados Unidos e Israel contra o país, completar uma semana no sábado (7).

A estratégia de retaliação iraniana foi dividir os custos com aliados americanos no Oriente Médio, regionalizando a guerra, para que os outros países pressionassem o governo americano. Pelo menos 1.500 pessoas já morreram. No mesmo dia do anúncio de Mojtaba,  Israel realizou novos ataques na capital Teerã – a fumaça das explosões e incêndios fez o “dia virar noite” e  deteriorou a qualidade do ar na cidade. Autoridades alertaram para risco de chuva ácida. 

Nos últimos dias, autoridades americanas divergiram sobre os objetivos reais da guerra, enquanto Benjamin Netanyahu quer acabar com o regime iraniano há tempos. Não há, por ora, perspectiva para o fim do conflito.

Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e líder do Grupo de Pesquisa Oriente Médio e Magreb, avaliou que Donald Trump quer retomar a liderança americana perdida nas últimas décadas. Para ele, “o Irã está em modo de sobrevivência”, o que deixa a situação “mais perigosa”. 

“A ideia principal [do Irã] é convencer os países do Oriente Médio e o mundo de que [a situação] pode chegar a um ponto em que ninguém mais vai ter controle sobre o que vai acontecer depois”, afirmou ao Nexo. “Uma condição sistêmica, econômica e energética, um conflito generalizado cujo resultado nem o Irã, nem os EUA, nem Israel vão conseguir controlar.”

Nesta entrevista ao Nexo, Zahreddine avalia  a escolha de Mojtaba e os desdobramentos da primeira semana do conflito entre EUA, Israel e Irã, analisando objetivos, reação e possíveis desfechos.

Quais as suas impressões sobre o conflito entre EUA, Israel e Irã nesta primeira semana de conflito?

DANNY ZAHREDDINE É um conflito com objetivos muito diferentes. De um lado, há o objetivo de busca de hegemonia regional, que é o de Israel, o mais interessado nesta guerra. Desde a Guerra dos 12 Dias, Israel conseguiu avanços notáveis na região e consegue dar as cartas em vários cenários. Mas isso se mistura com o objetivo pessoal do [primeiro-ministro Benjamin] Netanyahu de ser o novo Ben-Gurion [fundador do Estado de Israel], ser um herói nacional, aquele que consegue destruir todos os inimigos de Israel. Isso faz com que ele tome a decisão de convencer os EUA a entrar na guerra.

Os EUA escolheram participar desta guerra. Não tinham necessidade. Vejo que isso foi em razão do círculo mais próximo de Trump, que é muito pró-Israel, e da própria presença de Netanyahu, não permitindo que uma via diplomática desse certo. Mas os prováveis ganhos desse trade-off [termo para se referir à situação em que é necessário fazer uma escolha entre opções mutuamente exclusivas] são difíceis de ser mensurados. Os EUA vão ter midterms [eleições de meio de mandato] no fim do ano, há uma crise inflacionária e migratória forte lá dentro, e é contraditório que Trump tenha prometido ao Maga [“Make America Great Again” ou “Torne a América Grande Novamente”, slogan de campanha que se tornou o movimento trumpista] acabar com conflitos e, ao mesmo tempo, começar outros conflitos. Uma série de analistas internacionais nos EUA critica o presidente porque não há clareza sobre o que ele quer fazer.

O Irã aprendeu muita coisa com a Guerra dos 12 Dias. Aprendeu, por exemplo, que assumir o custo sozinho de uma guerra é inútil, e a estratégia de tentar espalhar um pouco mais de incerteza, compartilhando o custo com os vizinhos amigos dos EUA, pode ser uma forma de pressão. Vejo que o Irã não queria esta guerra, mas sabia que ela iria acontecer, porque sabia que dificilmente os EUA aceitariam uma proposta que não envolvesse os mísseis balísticos iranianos. Depois de uma semana, mesmo com toda a guerra de informação, psicológica e de propaganda, o Irã demonstrou que pode resistir por um tempinho. E isso é revelador de como o país se preparou para esta guerra — e de como, claramente, os chineses e russos auxiliaram o Irã a se preparar melhor.

Agora, ficamos sob suspensão, e existem várias perguntas: o arsenal de mísseis balísticos e drones do Irã vai suportar quanto mais tempo de campanha? Os mísseis terra-ar dos EUA e de seus aliados vão aguentar quanto mais tempo de drones e mísseis balísticos? É difícil saber, porque essas informações são de vida ou morte para os países, que não vão socializá-las.

Mas esta é uma guerra diferente da de 2025, porque compartilha o custo de maneira sistêmica. Passada uma semana, ficamos pensando em como será mais uma semana de crise para o preço do petróleo, o frete internacional e a circulação de bens e serviços. Não é uma situação simples.

Na sua percepção, qual é o real objetivo de Trump e de Netanyahu nesta guerra? Acha que é factível alcançá-lo?

DANNY ZAHREDDINE O objetivo do governo israelense é permitir um jogo de soma zero e liquidar a fatura daquilo que foi iniciado em 2025. Pela resposta que o Irã deu aos EUA no ano passado, eles avaliaram que há condição de resolver a situação neste ano. E vão fazer de tudo para liquidar a fatura.

Terminar com o Irã, para os israelenses, significa um passo a mais na busca de hegemonia regional, o que os liberaria para lidar com outro problema sério: a Turquia. Para Israel, a Turquia é um elemento complicador nessa busca, porque está presente na Síria, no Qatar e na Palestina, além de ser membro da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e aliada dos EUA. Vejo que ele [Netanyahu] quer liberar essa agenda para poder buscar, de fato, tornar Israel uma força autônoma na região. Hoje, Israel é uma força associada aos EUA. A fala de Netanyahu deixa claro que eles desejam autonomia. Isso é muito difícil por conta do tamanho do país, da demografia e da dependência externa, mas entendo que o objetivo de Israel é a hegemonia regional — algo que, dessa forma, dificilmente será alcançado. É uma aposta complicada para Netanyahu.

Para Trump, é ainda mais complicado, porque não está claro o que ele quer. A cada momento ele diz uma coisa. O que se vê é a tentativa de construir alguma narrativa capaz de obter apoio da opinião pública americana, apoio que hoje ele não tem. Isso revela a dificuldade que vai enfrentar, ainda mais se o conflito se prolongar. O que ele busca é um modelo de intervenção parecido com o que utilizou na Venezuela. Só que a Venezuela é um Estado falido; o Irã, não. O Irã tem equipamentos militares de ponta, tecnologia própria, capacidade de produzir armamentos, além de muitos recursos que sabe utilizar. Extrair petróleo iraniano, por exemplo, é mais barato do que extrair petróleo venezuelano.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu após reunião em Mar-a-Lago, na Florida

Donald Trump e Benjamin Netanyahu após reunião em Mar-a-Lago, na Florida

A preocupação de Trump, na verdade, é retomar a autoridade e a liderança que os EUA vêm perdendo ao longo das últimas décadas, num processo associado à ascensão da China, ao reposicionamento da Rússia e ao fortalecimento dos Brics. É um movimento normal de perda de força — não significa que os EUA deixarão de ser a maior potência econômica nos próximos dez anos, nem a maior potência militar —, mas as decisões internacionais já não passam apenas por Washington. Trump quer que a balança de poder volte a ser unipolar. Ele busca recuperar a autoridade de lançar um olhar e, com isso, fazer os outros recuarem — que apenas a ameaça, como dizia Thomas Schelling [economista americano, laureado com o prêmio Nobel de Economia de 2005], seja suficiente para que o outro lado retroceda.

Só que isso não está acontecendo. Basta olhar para a Ucrânia, para a Rússia, para Gaza e para o Irã. O que ele tenta é retomar essa autoridade e essa liderança. O Irã, combinado com esse projeto israelense, seria uma forma de tentar também se reposicionar no Oriente Médio. Mas acho esse movimento muito perigoso. E agora é ainda mais perigoso porque o objetivo do Irã passou a ser sobreviver. O regime está em modo de sobrevivência. E, quando não se tem nada a perder, o cálculo muda: pode-se atingir o Bahrein, o Qatar, a Aramco [estatal petrolífera saudita], na Arábia Saudita. Isso revela o tamanho da luta pela própria existência que esse regime trava hoje. O objetivo do Irã é a sobrevivência.

O que está por trás da estratégia iraniana de expandir o conflito para outros países do Oriente Médio?

DANNY ZAHREDDINE  É compartilhar os custos da guerra com quem sofre com ela. Imagine o impacto de uma situação dessas para Qatar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein e Arábia Saudita. Estamos falando de cerca de 20 milhões de barris de petróleo que passam diariamente pelo Golfo [Pérsico]. Quase 20% do gás liquefeito do mundo também passa por ali. É algo duríssimo. A estratégia é muito perigosa, mas é acertada: impor pressão sobre esses países.

Mas não adianta apenas atingir bases militares. É preciso também algum tipo de retaliação que provoque paralisação nessas economias e afete a normalidade da vida nesses lugares. Por isso, de vez em quando aparece um drone atingindo um prédio ou caindo em um ponto que não é propriamente um alvo militar.

Há um cálculo de como compartilhar esse custo e de como pressionar países que são fundamentais para a rede mundial de distribuição de energia. E não só isso: Dubai é um hub global de conexão comercial e de passageiros. Essa tática força os vizinhos a pressionarem os americanos. Agora, imagine Trump voltar atrás nesse momento. Não vai voltar. O Irã vai recuar? Também não. Vai esperar. Enquanto isso, a inflação aumenta, a opinião pública nos EUA fica mais tensa e Kamala Harris [ex-senadora e ex-candidata presidencial democrata] segue dizendo que o sangue de americanos não deve ser derramado ali. Vejo aí uma estratégia parecida com o que Thomas Schelling chama de “brinkmanship”, que é dividir os custos da ameaça com quem ameaça.

É uma ameaça tão perigosa que até quem a faz fica exposto aos seus desdobramentos. É isso que o Irã está fazendo: avançando até a beira do abismo, num terreno muito pedregoso, no qual não consegue controlar completamente o que pode acontecer depois. A ideia central, me parece, é convencer os países do Oriente Médio e o mundo de que [a situação] pode chegar a um ponto em que ninguém mais vai ter controle sobre o que vai acontecer depois. Uma condição sistêmica, econômica e energética, um conflito generalizado cujo resultado nem Irã, nem EUA, nem Israel vão conseguir controlar.

Como o sr. avalia a possibilidade de países europeus entrarem no conflito?

DANNY ZAHREDDINE Os europeus estão preocupados com a Rússia. Claro que também há preocupação com o Oriente Médio, mas o temor maior é a possibilidade de expansão russa na Europa. A questão principal para eles continua sendo a Ucrânia. Isso fica claro quando observamos as falas do primeiro-ministro britânico [Keir Starmer] e do primeiro-ministro espanhol [Pedro Sánchez], que afirmam que esta não é uma guerra autorizada pelo Conselho de Segurança [da ONU], que extrapola os limites do direito internacional e que a atenção deveria estar voltada para outros temas mais importantes.

Só que existe uma forte chantagem por parte dos Estados Unidos e de Israel. É isso que leva os europeus a assumir, ao menos, uma responsabilidade defensiva, digamos assim. Eles acabam usando seus estoques de foguetes, aviões de caça e navios de guerra antidrones para auxiliar no esforço de defesa de aliados no Chipre e no Golfo. Mas, objetivamente, esta não é uma guerra que os europeus queiram travar.

Qual é a possibilidade de um cessar-fogo num curto prazo?

DANNY ZAHREDDINE A guerra pode chegar a um mês. Depois disso, existe a possibilidade de um cessar-fogo. Já há atores regionais pressionando os EUA a repensar a viabilidade de uma suspensão das hostilidades. A própria fala diária do presidente Trump, feita ao lado do seu secretário de Guerra [Pete Hegseth], parece uma tentativa de construir a ideia de uma vitória antecipada: “já destruímos mais de 60% dos lançadores [de mísseis]”, “já acabamos com a Força Naval”. Isso me parece uma tentativa de criar a percepção de vitória, sem a vitória — uma vitória discursiva que permita uma saída para o comprometimento na guerra.

Mas um cessar-fogo em menos de 12 dias acho muito difícil. Talvez em 20 ou 30 dias algo possa surgir, mas ainda assim é complicado. Há muita reputação em jogo. E, quando observamos a resistência dos iranianos, [fica claro que] apenas as forças aéreas de Israel e dos EUA não derrubam esse governo. Esse regime suportou oito anos de guerra contra o Iraque, que era alimentado pelos EUA com bilhões de dólares. Foram oito anos, em condições muito piores. Por isso, acho que se trata de uma sociedade e de um regime muito resilientes — mesmo com a possibilidade de os curdos serem alimentados, o que também pode se tornar um problema sério para eles.

Qual desfecho interno no Irã o senhor vislumbra como o mais provável: um líder mais linha-dura, uma queda de regime ou uma guerra civil?

DANNY ZAHREDDINE Do ponto de vista da unidade do Estado, nem os curdos, nem os azeris, nem qualquer outra minoria iraniana possuem uma liderança capaz de substituir as estruturas já consolidadas pelo governo iraniano. Não existe, dentro desses grupos étnicos, uma força capaz de manter o Estado funcional. Fala-se muito de Reza Pahlevi [filho do xá Reza Pahlevi, deposto pela Revolução Islâmica de 1979], que está nos EUA, mas é uma brincadeira. Ele não tem a menor condição [de assumir o poder].

Quais outras lideranças existem? Eu penso que talvez os iranianos não queiram o fim da República Islâmica, mas sim a sua reforma. A ideia seria manter uma República Islâmica, porém diferente. Dentro do próprio regime há políticos e autoridades que travam uma disputa interna, tensionados entre um grupo mais reacionário e outro mais progressista [no padrão iraniano]. Ou seja, há alternativas dentro do próprio sistema.

O problema é que essas alternativas não vão funcionar agora. Este é um momento de tudo ou nada, uma guerra existencial. Quem vai assumir é [uma liderança] linha dura. No futuro, pode haver uma reforma do próprio regime, com a intenção de reduzir essa faceta mais moralista e atrasada. Mas, no momento, não há espaço para isso.

Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, assumiu como líder do Irã, com suporte da Guarda Revolucionária Iraniana. O que isso sinaliza para o futuro do regime e para a relação com os vizinhos?

DANNY ZAHREDDINE Sinaliza que eles escolheram um líder supremo para a guerra, para a sobrevivência. Nem aiatolá Mojtaba Khamenei é, e se tem uma coisa que incomoda os aiatolás da República Islâmica, é justamente a ideia de que o poder se torne hereditário. Nesse caso, [o país] deixaria de ser uma república e passaria a ser uma monarquia — o que é um problema, já que eles derrubaram uma monarquia.

Mas você citou um ponto essencial: ele tem muita ascendência sobre a Guarda Revolucionária. Esse apoio é fundamental para que o Irã continue lutando contra seus vizinhos. Portanto, a escolha dele não seria uma escolha de harmonização com o entorno. Seria uma escolha para dizer: “vamos continuar lutando pela nossa sobrevivência”.

Numa linguagem cinematográfica, seria como escolher um consigliere de guerra [um conselheiro estratégico], e não um consigliere de paz, como no filme “O poderoso chefão 1”. E vale lembrar que ele nem é o mais linha-dura entre todos, mas é uma figura combativa. A entrada dele é uma sinalização de que o Irã pode encontrar a paz, mas uma paz armada. Uma paz dura, não uma paz de rendição.

Como avalia a declaração de Trump de que os EUA teriam papel na escolha do futuro líder iraniano [algo que acabou não se confirmando]? Quão factível é essa possibilidade?

DANNY ZAHREDDINE Esse é o metaverso de Trump. É o domínio da vontade, do desejo aliado a uma narrativa. É como se ele lançasse palavras ao vento para ver se alguém as pega [e faz algo]. “Veja como a Venezuela hoje é nossa amiga”, “eu queria tanto que fosse assim com o Irã também”. Mas o Irã não é a Venezuela.

O Irã não está no Caribe. Ele representa um eixo de resistência russo-chinês contra a hegemonia americana. É um elemento essencial de contraponto aos EUA [no Oriente Médio]. E não são apenas os iranianos que não querem ser como a Venezuela: China e Rússia também não vão deixar que isso aconteça. Elas não vão entrar diretamente no confronto, mas estão auxiliando diretamente os iranianos na defesa dos seus interesses e das suas ações.

Por isso, a fala de Trump é muito infantil. Não vejo nenhuma aderência ao caso iraniano. É completamente fora de propósito imaginar que os iranianos vão ceder como ocorreu na Venezuela. É uma fala muito performática para ver se alguém pega, e acho muito difícil alguém pegar.