Como o cinema destacou as mulheres em ‘Frankenstein’

Cena de "A noiva!" (2026)

Cena de “A noiva!” (2026)

“A noiva!” (2026), longa-metragem dirigido por Maggie Gyllenhaal, estreou nos cinemas na quinta-feira (5). O filme é mais uma adição ao rol de adaptações recentes do livro “Frankenstein” (1818), escrito por Mary Shelley, mas ele difere de seus pares por dar enfoque à noiva do monstro.

A personagem, que não chega a viver no livro, apareceu nos cinemas pela primeira vez em 1935, no filme “A noiva de Frankenstein”, continuação de “Frankenstein” (1931). A noiva aparece durante poucos minutos no filme, apesar de nomeá-lo. Além de “A noiva!”, outras produções baseadas na obra de Shelley tentam mudar essa situação, dando mais destaque a ela.

Neste texto, o Nexo apresenta de que maneira acadêmicos fizeram leituras feministas de “Frankenstein”, como adaptações deram destaque às mulheres, praticamente ausentes no livro, e como a noiva aparece no novo filme.

A história de ‘Frankenstein’

Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797. Sua mãe era Mary Wollstonecraft, autora de “Reivindicação dos direitos da mulher”. O texto é considerado um dos documentos fundadores do feminismo e discute a condição da mulher na sociedade inglesa do século 18. 

Shelley não chegou a conhecer sua mãe. Wollstonecraft morreu cerca de 11 dias após o nascimento da filha, por conta de complicações no parto. A autora foi criada por seu pai, o filósofo político William Godwin. 

Aos 17 anos, após conhecer o escritor Percy Bysshe Shelley, a inglesa fugiu com ele, apesar de Shelley ser casado. Eles só puderam se casar em 1816, após o suicídio da esposa do autor.

O casal passou as férias em Genebra, na Suíça, a convite do escritor Lord Byron. Presos em casa devido ao mau tempo, os visitantes decidiram escrever contos de terror. A história de Shelley foi baseada em um pesadelo que tivera, no qual “o fantasma horrendo de um homem estendido era trazido à vida por um estudante pálido das artes profanas”.

O conto foi expandido para um romance completo e publicado sob anonimato, com o título “Frankenstein, ou o Prometeu moderno”. Foi na segunda edição, de 1823, que a obra veio acompanhada do nome de Mary Shelley.

Assim como no pesadelo da autora, o cientista Victor Frankenstein dá à luz uma nova vida, formada a partir das partes dos corpos de diferentes pessoas. Frankenstein se arrepende, e a criatura rejeitada vira um monstro em busca de vingança.

A obra recebeu críticas variadas na época do lançamento, por conta de passagens consideradas indecorosas aos valores da sociedade inglesa do século 19.

‘Frankenstein’ e feminismo

“Frankenstein” gerou diversas análises acadêmicas sobre seu conteúdo ao longo das décadas, inclusive a partir de uma perspectiva feminista, apesar de ser uma história protagonizada principalmente por homens.

36.300

é o número aproximado de teses, artigos e ensaios relacionando “Frankenstein” e feminismo, de acordo com o Google Acadêmico

Para Deborah Williams, professora do programa de estudos liberais da NYU (Universidade de Nova York), essa ausência é intencional. Ela permite que os leitores a questionem e pensem de que maneira a pouca presença feminina afeta as relações no ambiente. 

Um dos exemplos apontados por Williams é a sede de vingança que o monstro sente após sua parceira ser destruída. No livro, Frankenstein começa a criá-la após o pedido de sua criatura, mas teme que a mulher rejeite o monstro, ou que os dois tenham filhos. 

“A ausência da figura feminina monstruosa, e a cadeia de eventos desencadeada por essa ausência, me ajuda a conversar com meus alunos sobre a importância dessa ausência. O que acontece quando se tenta ignorar a parte feminina? O que acontece quando se marginaliza as mulheres, quando se tenta mantê-las à margem da história?”, escreveu a professora em seu blog.

Outros autores se dedicaram a traçar paralelos entre a criação do monstro no livro e os medos relacionados ao nascimento e à criação de uma nova vida.

A crítica literária Ellen Moers, em seu ensaio “Gótico feminino” (1974), foi uma das primeiras a olhar para o romance sob uma perspectiva feminista. De acordo com ela, “Frankenstein” evoluiu da própria experiência de Shelley como mãe jovem de um bebê que viveu apenas algumas semanas.

Assim, o romance seria, na perspectiva de Moers, uma chance para Shelley manifestar a culpa que sentia por ter causado a morte da mãe e pela perda de seu próprio filho, sendo um dos poucos romances góticos do século 19 que dão enfoque aos temores relacionados ao parto.

As adaptações cinematográficas

“A noiva de Frankenstein” (1935), dirigido por James Whale, começa com Lord Byron (Gavin Gordon), Mary (Elsa Lanchester) e Percy Shelley (Douglas Walton) discutindo a história de Frankenstein (Colin Clive). A continuação do primeiro filme de 1931 imagina o que teria acontecido caso a parceira pedida pela criatura (Boris Karloff) tivesse sido construída.

US$ 950 mil

foi o lucro de “A noiva de Frankenstein”

A criatura feminina, também interpretada por Elsa Lanchester, só chega à vida nos minutos finais do filme e rejeita seu par. Como consequência, o monstro decide que os dois devem morrer no local em que estão.

“A noiva” (1985) traz a personagem novamente, nomeada Eva (Jennifer Beals), mas imaginando como seria se ela tivesse sido o alvo da paixão de Victor Frankenstein (Sting). Eva foge de Frankenstein após descobrir como foi criada e escapa com o monstro (Clancy Brown).

Já em “Frankenstein de Mary Shelley” (1994), é a noiva de Frankenstein, Elizabeth – que também aparece no livro, mas poucas vezes –, que vira uma criatura após ter sido morta pelo monstro. A cabeça de Elizabeth (interpretada por Helena Bonham Carter) é colocada no corpo de uma serva, e tanto o criador (Kenneth Branagh) como o monstro (Robert De Niro) a desejam. Chocada com sua transformação, Elizabeth os rejeita e comete suicídio.

“Pobres criaturas” (2023) também dá destaque à figura feminina, ausente na obra original, ao transformar o monstro em uma mulher. 

No filme, indicado a 11 Oscars, Bella Baxter (Emma Stone) é trazida de volta à vida com o corpo de uma mulher adulta, mas com o cérebro de um feto extraído de seu corpo.

Em “Lisa Frankenstein” (2024), é a jovem Lisa (Kathryn Newton) a cientista responsável por dar vida à criatura (Cole Sprouse), revivendo um cadáver da era vitoriana falecido em 1837.

Além dos cinemas, o seriado “Penny Dreadful” traz à tona o protagonismo feminino ausente na história de “Frankenstein”. Na série, a noiva é a prostituta Brona Croft (Billie Piper), que morre de tuberculose e é ressuscitada pelo Dr. Frankenstein (Harry John Newman Treadaway) para torná-la companheira de sua criatura. 

Lily Frankenstein, novo nome de Brona, conhece desde o início suas origens, mas mantém esse fato em segredo de Frankenstein, ao mesmo tempo que sonha em ser imortal e ter poder sobre todos os homens.

O novo ‘A noiva!’

Maggie Gyllenhaal – que, além de dirigir, roteirizou “A noiva!” – afirmou em entrevista a jornalistas que a ausência da noiva e o fato de ter sido trazida de volta dos mortos sem seu consentimento para ser esposa de uma pessoa que nunca conheceu inspiraram o longa.

“A noiva!” começa com um diálogo pós-morte de Mary Shelley (Jessie Buckley), em que a autora se ressente de não ter feito uma continuação de “Frankenstein” antes de falecer. 

Ela descobre que pode voltar à vida no corpo de Ida (também interpretada por Jessie Buckley), uma prostituta na cidade de Chicago dos anos 1930, e forçar sua morte por gângsters locais – o que daria início à sua própria continuação da história.

A situação acontece ao mesmo tempo que o monstro Frank (Christian Bale) chega a Chicago para pedir à Dra. Euphronius (Annette Bening) uma companheira para si. Ida ressuscita, e ela e Frank se tornam um casal de criminosos procurados após assassinatos cometidos pela criatura.

59%

é a avaliação do filme no site Rotten Tomatoes, que agrega críticas publicadas por veículos de imprensa

Para a crítica Hoai-Tran Bui, ao site Inverse, o filme tenta ser provocativo e apresentar uma nova visão à história, mas falha em fornecer substância a ela.

“O filme ‘A noiva!’ chega em um momento estranho. A criação de Mary Shelley nunca foi tão popular, com filmes como ‘Pobres criaturas’, de Yorgos Lanthimos, com sua atmosfera à la Frankenstein, e o ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro, fielmente original, lançados em rápida sucessão. Na esteira desses dois filmes aclamados, ‘A noiva!’ já parece batido e banal”, escreveu Hoai-Tran Bui.

Já Richard Brody, crítico da revista americana New Yorker, apontou que o filme de Gyllenhaal forneceu uma correção ao longa original de 1935, ao enfatizar as realidades sociais enfrentadas pelas mulheres na época em que a produção foi lançada.

“Mas, em última análise, o filme tem a forma de peças desconexas costuradas e trazidas à vida de forma mais arbitrária do que coerente”, escreveu Brody.