
Plataforma de extração de petróleo
Donald Trump afirmou na segunda-feira (9) em discursos e à imprensa que a guerra contra o Irã deve acabar em breve e está “praticamente concluída”. “Seguimos em frente, mais determinados do que nunca a alcançar a vitória definitiva que encerrará esse perigo de longa data de uma vez por todas”, disse o republicano.
As declarações após a alta do preço do barril de petróleo, que chegou a ser cotado a US$ 117,50 durante a manhã. Essa foi a primeira vez que a commodity ultrapassou os US$ 100 desde 2022, primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Depois das falas sobre o possível fim da guerra, o valor do combustível começou a cair.
Além do petróleo, os valores dos fertilizantes têm aumentado desde o bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor essencial para o transporte global de produtos energéticos e agrícolas afetado pelo conflito no Oriente Médio.
Neste texto, o Nexo relembra o que é o Estreito de Ormuz e explica o impacto do conflito para os setores energético e de agricultura no mundo e no Brasil.
O Estreito de Ormuz é um corredor marítimo localizado entre Omã e o Irã, ligando o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. A passagem tem 33 km de largura no ponto mais estreito, com uma faixa de navegação de 3 km.

Os países do Golfo Pérsico — como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Kuwait e Qatar — exportam a maior parte do seu petróleo bruto e GNL (gás natural liquefeito) pelo estreito, principalmente para a Ásia, mas também para países da Europa.
Logo após a ação coordenada entre os EUA e Israel contra o Irã, a Guarda Revolucionária do país bloqueou quase totalmente o estreito. Em resposta, empresas suspenderam o tráfego pelo local sob risco de serem alvos do Irã ou de bombas israelo-americanas. Outras companhias optaram por fazer rotas mais longas para evitar a região.
A instabilidade na região eleva os custos de seguro marítimo, frete e risco logístico para as empresas, segundo João Alfredo Nyegray, professor de geopolítica da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Também pode afetar o transporte pelo canal de Suez e pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Arábico ao oceano Índico.
O bloqueio do Estreito de Ormuz pode diminuir a oferta mundial de petróleo e gás, levando ao aumento dos custos de energia — o que pode impactar toda a cadeia de produção, com insumos e logística mais caros. Isso seria eventualmente repassado aos consumidores, pressionando a inflação em diversos países.
20%
do consumo mundial de petróleo passa pelo estreito — ou seja, cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto, condensado e combustíveis são transportados diariamente pelo local, segundo a EIA, agência americana de energia
20%
de toda a produção de gás natural consumido no mundo também passa pelo corredor — o que corresponde a cerca de 11 bilhões de pés cúbicos por dia
Segundo a EIA, 84% do petróleo cru e 83% do gás natural liquefeito transportados pelo Estreito de Ormuz seguem para o mercado asiático, sobretudo para China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
“Se durar pouco tempo, o impacto [no preço] vai ser revertido quando [o bloqueio] for resolvido, mas, se o conflito durar um ou dois meses, os estoques — tanto de produtos derivados do petróleo quanto do próprio óleo — vão acabar, gerando dificuldades tanto de oferta quanto de realocação logística”, disse Nexo João Ricardo Costa Filho, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Além do fechamento do estreito, as trocas de bombardeios israelo-americanos e iranianos provocaram a suspensão da produção energética em diversos países do Golfo.
A Saudi Aramco, estatal petrolífera saudita, fechou sua refinaria de Ras Tanura após ser alvo de um ataque de drone iraniano, por exemplo. Já a Qatar Energy anunciou em 2 de março a interrupção da produção de GNL e produtos relacionados após ataques militares a duas de suas instalações de gás qatari.
Sem condições de exportar e com capacidade limitada de estoque, os demais países diminuíram a produção de energia.
Embora seja mais conhecido pela questão energética, o Estreito de Ormuz também é uma fonte de matéria-prima para a produção de fertilizantes essenciais à agricultura. Países do Oriente Médio — como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Irã e Qatar — são fornecedores desses produtos, sobretudo de fertilizantes nitrogenados.
20% a 30%
das exportações globais de fertilizantes, incluindo ureia, amônia, fosfatos e enxofre, passam pelo estreito, segundo a Argus Media, agência de inteligência de mercado focada em commodities
O Egito também é um grande exportador de fertilizantes. Embora não use o Estreito de Ormuz, suas exportações para a Ásia passam pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que também sofre o efeito da instabilidade do conflito no Oriente Médio. O país é vizinho de Israel.
Nyegray afirmou que o aumento dos curtos de seguro marítimo, frete e risco logístico das empresas durante a guerra gera volatilidade nos mercados agrícolas, podendo pressionar os preços de commodities como trigo, milho e óleo vegetal.
“A agricultura moderna também depende intensamente de combustíveis fósseis para o transporte, a mecanização e a produção de insumos químicos”, disse ao Nexo. “Quando um conflito no Oriente Médio eleva o preço do petróleo, como já vem ocorrendo, os custos do diesel aumentam, pressionando toda a cadeia logística agrícola — do transporte de insumos ao escoamento da produção.”
Além das exportações, o conflito afeta as importações de países da região, podendo provocar crise alimentar. Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, compram cerca de 80% dos alimentos que consomem.
O Oriente Médio é um mercado relevante para o agronegócio brasileiro. A região importou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas do Brasil em 2025, com o Irã respondendo por 23,6% desse total, segundo relatório do centro de pesquisa Insper Agro Global divulgado em 4 de março.
7,4%
foi quanto o Oriente Médio representou das exportações brasileiras em 2025, com a pauta concentrada em carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja
“Dados recentes mostram que os Emirados Árabes Unidos foram o principal destino da carne de frango brasileira em 2025, com quase 480 mil toneladas exportadas. Além disso, países da região importam grandes volumes de grãos brasileiros, especialmente milho e soja, utilizados tanto para alimentação humana quanto para ração animal”, segundo o texto.

Produção brasileira de soja
Nyegray afirmou que se o fornecimento ou o transporte global de fertilizantes for comprometido, os custos de produção agrícola no Brasil tendem a subir, já que o país importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza.
Junto ou separada de outras mudanças — como a alta do preço do petróleo, que pode acarretar aumento no preço dos combustíveis e dos derivados da commodity usados em outros setores, e a volatilidade cambial, que pode aumentar o preço dos insumos importados —, a situação tende a pressionar a inflação.
Segundo Costa, a subida de preços pode levar bancos centrais a alterar as taxas de juros dos países ou, no caso brasileiro, a rever o processo de manutenção ou de corte da Selic.
O Boletim Focus, divulgado na segunda-feira (9) pelo Banco Central, por exemplo, mostra a expectativa de subida na Selic de 12% para 12,13% em 2026, o que reflete a preocupação da instituição com o conflito entre EUA, Israel e Irã.
15%
é o valor atual da Selic; em reunião de janeiro, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) sinalizou o início do ciclo de corte para março, que agora pode ser revisto
A previsão para a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2026 foi mantida em 3,91%, mas a projeção para 2027 subiu de 3,79% para 3,80%.
As taxas de juros são o principal instrumento dos bancos centrais no combate à inflação. A lógica é que juros mais altos encarecem o crédito, desestimulam investimentos e consumo, o que tende a esfriar a economia e tirar a pressão dos preços. De modo oposto, juros mais baixos tendem a impulsionar o crescimento, o que pode pressionar preços. O efeito dos juros a longo prazo impacta direta ou indiretamente o PIB (Produto Interno Bruto).