
Darren Beattie participando do evento da extrema direita americana AmericaFest 2022, no Arizona
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou na terça-feira (10) a visita do americano Darren Beattie a Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha, no complexo da Papuda. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Moraes disse na decisão que a visita poderá ser feita na quarta-feira (18), data em que Beattie tem a participação prevista num evento sobre minerais críticos em São Paulo. O americano também vai se reunir com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e pré-candidato presidencial. Não há previsão de encontro com autoridades do governo brasileiro.
Neste texto, o Nexo fala quem é Beattie e o que sinaliza essa visita aos Bolsonaro.
Beattie foi nomeado em fevereiro como assessor sênior para política em relação ao Brasil do Departamento de Estado americano. Embora não esteja claro o escopo de atuação do cargo, que é recém-criado, ele será responsável por propor e supervisionar as políticas e ações de Washington em relação a Brasília.
Antes de assumir essa função, ele já integrava o governo Trump desde fevereiro de 2025, como subsecretário de Estado para diplomacia pública e assuntos públicos e subsecretário de Estado para assuntos educacionais e culturais.
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Anteriormente, o assessor atuou como empresário da mídia e estrategista político. Ele é formado em matemática e tem doutorado em teoria política.
Beattie é um político de extrema direita, ligado à ala mais radical do trumpismo. A revista americana The Atlantic o descreve como um nacionalista branco e adepto de teorias conspiratórias.
Ele é ligado ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, que vive nos EUA desde fevereiro de 2025.
Beattie é um crítico do ministro Alexandre de Moraes. Numa publicação no X em julho de 2025, ele defendeu a imposição da Lei Global Magnitsky contra o ministro do STF, relator do julgamento da trama golpista.
À época, ele usou o perfil oficial da Subsecretaria de Diplomacia Pública do Departamento de Estado dos EUA para fazer a crítica, compartilhando a publicação do secretário de Estado, Marco Rubio. O perfil hoje está sob comando de Sarah Rogers, mas a publicação permanece.
Eduardo Bolsonaro, que articulou sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras, agradeceu a Beattie os esforços também numa publicação no X.
Posteriormente, em agosto de 2025, Beattie afirmou no X que “Moraes é o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição dirigido contra Bolsonaro e seus apoiadores”.
Na ocasião, o Itamaraty convocou o encarregado de negócios da Embaixada americana em Brasília, Gabriel Escobar, para dar explicações.
Beattie atuou no primeiro governo Trump como redator de discursos da Casa Branca. Em 2018, ele foi demitido após o canal americano CNN noticiar que ele discursou num evento com nacionalistas brancos integrantes da alt-right (direita alternativa), facção da extrema direita americana.
A participação nesse evento não foi um caso isolado. Ele tem um longo histórico de disseminação de teorias conspiratórias e declarações machistas e racistas.
Beattie lançou o Revolver News, site que propaga teorias conspiratórias ligadas à extrema direita americana. Entre outras coisas, ele defende a deportação em massa, ataca críticos do governo — normalmente do Partido Democrata — e dissemina a ideia de superioridade racial.
Em setembro de 2024, durante a corrida presidencial americana, Beattie sugeriu que o serviço de inteligência dos EUA estaria por trás de tentativas de assassinar Trump. Também disseminou reiteradas vezes teorias da conspiração sobre a invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, associando-a ao governo Joe Biden e ao Partido Democrata.
Em outubro do mesmo ano, Beattie afirmou no X que “homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”.
“Infelizmente, toda a nossa ideologia nacional se baseia em proteger os sentimentos das mulheres e das minorias, e em desmoralizar os homens brancos competentes”, acrescentou.
Beattie viaja ao Brasil para um evento sobre minerais críticos em São Paulo. Esse é um tema estratégico para o governo Trump. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo de minerais de terras raras, atrás apenas da China, que domina toda a cadeia produtiva.
Aliado dos bolsonaristas, o assessor americano também vai tentar entender o funcionamento do processo eleitoral brasileiro e deve se reunir com Flávio Bolsonaro, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Não há previsão de encontro com autoridades do governo brasileiro, cujo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disputará a reeleição.
O governo Lula tem encarado a visita de Beattie como uma tentativa de interferência de uma ala da gestão Trump no cenário político brasileiro, segundo a Folha. Além disso, o encontro fortalece o discurso bolsonarista de que mantém conexões com o governo Trump.
Outra movimentação que entrou no radar e acendeu o alerta do Palácio do Planalto é a intenção dos EUA de designar facções criminosas, como o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital), como organizações terroristas, o que poderia abrir margem para sanções econômicas e a intervenção americana no país, como explicou o Nexo.
Na visão do governo Lula, essa ideia atende à agenda que Eduardo e Flávio Bolsonaro têm buscado construir junto às autoridades estrangeiras, em especial a americana.
Desde o fim de 2025, eles têm realizado viagens internacionais para se encontrar com políticos da extrema direita mundial, numa ideia de estabelecer relações nesse círculo e fortalecer a imagem perante o eleitorado.
Flávio participa nesta quarta-feira (11) da posse de José Antonio Kast como presidente do Chile. Lula desistiu de ir à cerimônia. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira.
A reunião entre Lula e Trump que seria em Washington em março foi adiada por causa do conflito no Irã. A expectativa do governo brasileiro é que o encontro ocorra ainda em abril. Não há, por enquanto, data definida.