A ação civil movida para a reparação pela Guerra de Canudos

Ruínas de Canudos, na Bahia. Uma grande estrutura de pedra às margens de um rio

Ruínas de Canudos, na Bahia

O município de Canudos, na Bahia, busca uma reparação histórica: desde agosto de 2025, uma ação civil tenta fazer a União reconhecer a Guerra de Canudos (1896-1897) como um massacre. Com a medida, a população poderia receber uma indenização por danos causados no fim do século 19. O prefeito Jilson Cardoso de Macedo (PSD) é um dos moradores que protocolaram o pedido. 

R$ 300 milhões

é o valor pedido pelo município de Canudos contra a União 

A Guerra de Canudos foi um dos principais levantes que ocorreram no Brasil após a instauração da Primeira República (1889-1930). O Exército brasileiro fez quatro expedições ao Arraial de Belo Monte, onde sertanejos se organizaram em torno de Antônio Conselheiro, visto como uma messias. Cerca de 25 mil pessoas foram mortas, além de o arraial ter sido incendiado. 

Neste texto, o Nexo mostra como foi a Guerra de Canudos, explica as reivindicações do município e apresenta processos semelhantes contra a União. 

A Guerra de Canudos 

A história da Guerra de Canudos começou anos antes dos conflitos. Entre 1877 e 1879, o Nordeste passou pela chamada Grande Seca, quando a região ficou anos sem chuva. A intensa estiagem resultou em 500 mil mortos por sede, fome e doenças como varíola

“As catadupas do céu parecem ter-se fechado. Um sol ardente dardeja seus raios sobre o país. As árvores e tudo quanto tem vida desaparecem. A horrorosa seca inutilizou todas as esperanças de que a Providência Divina mandasse em tempo chuvas suficientes para a alimentação do gado e as plantações”

Figueira de Melo 

senador cearense, em discurso no Senado em 1877

Após ser abandonado pela esposa, Antônio Vicente Mendes Maciel peregrinou pelo interior de Alagoas e da Bahia nesse período. Ele dava sermões — chamados de “conselhos”, por isso o apelido de Conselheiro — às populações locais. Um grupo fiel de sertanejos começou a segui-lo, em meio à desilusão com a miséria e a vida precária.  

Em 1893, o grupo de Conselheiro fez protestos contra o aumento de impostos da nova República. No mesmo ano, ele estabeleceu a comunidade que se tornaria Canudos, chamada inicialmente de Arraial de Belo Monte. Os milhares de fiéis viviam numa lógica de subsistência, sem propriedade de terras e com produção comunitária. 

O crescimento da comunidade chamou a atenção da Igreja Católica. Em 1895, o então arcebispo da Bahia, dom Jerônimo Tomé da Silva, enviou uma missão para investigar a atividade religiosa em Belo Monte e convencer os sertanejos a retornarem a seus lares. Os enviados sugeriram uma intervenção estatal pela recusa do grupo em pagar impostos e obedecer à Igreja. 

Ao todo, o Exército brasileiro fez quatro campanhas militares contra o grupo de Conselheiro entre o fim de 1896 e a maior parte de 1897. As autoridades entenderam que a resistência dos sertanejos — que venceram os três primeiros conflitos — tinha como objetivo a retomada da monarquia no país. 

Em junho de 1897, o então presidente Prudente de Morais enviou 10 mil soldados para o Arraial de Belo Monte. Os militares cercaram o povoado com canhões e atiraram contra a comunidade, dizimando a maioria das pessoas. O arraial também foi incendiado. 

O conflito durou até outubro, quando Conselheiro foi encontrado morto. As causas da morte do líder religioso são incertas, e as versões vão desde ferimentos por bomba a tuberculose e disenteria. 

Sobreviventes da Guerra de Canudos, em 1897. Foto em preto e branco de uma multidão

Sobreviventes da Guerra de Canudos, em 1897

As campanhas militares e a situação da população de Canudos foram registradas no livro “Os sertões” (1902), de Euclides da Cunha. Ele era correspondente do jornal Estado de S. Paulo durante o conflito.   

O pós-guerra de Canudos

Os poucos sobreviventes do conflito fundaram o novo município de Canudos. Getúlio Vargas visitou a região em 1940, durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), e propôs que ali se construísse um açude para abastecer a população. 

Após uma série de atrasos, o açude de Cocorobó foi concluído em 1968, durante a ditadura militar (1964-1985). Os antigos moradores precisaram se mudar, indo para a fazenda Cocorobó, ao lado da estrutura, e refundando Canudos. 

245 milhões 

foi a capacidade máxima de metros cúbicos de água que o açude de Cocorobó já atingiu, em 1969

O povoado ganhou o status de município em 1985, quando se desvinculou da cidade vizinha de Euclides da Cunha. 

Na visão de historiadores, a construção serviu como um apagamento dos vestígios da Guerra de Canudos. Mas, nos períodos de seca do açude, as ruínas do antigo Arraial de Belo Monte ficam à mostra. 

“Desde o fechamento da barragem de Cocorobó, pode-se constatar que o açude, apesar de ter destruído Canudos, não alcançou os objetivos idealizados”

Eldon Canário

escritor, no prefácio do livro “Canudos: Sob as águas da ilusão” (2002) 

De acordo com o Censo de 2022, Canudos tem cerca de 16,5 mil habitantes. O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) de 2010 da cidade era de 0,562, um dos piores do Brasil. A produção de bananas, por meio de agricultura irrigada, é a principal atividade econômica da região. 

5.002ª

era a posição de Canudos no ranking de IDHM brasileiro, de acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil; o país tem 5.569 municípios 

A ação que pede reparação

Os autos da ação civil movida em 2025 pelos moradores de Canudos contra a União descreve a guerra do fim do século 19 como um genocídio planejado, com a morte de mulheres, crianças e idosos. 

O Brasil é signatário de convenções humanitárias como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto de San Jose. Ambas preveem reparações em caso de ferimentos aos direitos humanos. Na visão dos envolvidos, a União se enquadraria nesse caso. 

Em entrevista ao portal Bahia Notícias em 1º de agosto de 2025, o prefeito Jilson Cardoso afirmou que a reparação a Canudos é uma tentativa de “resgatar nossa dignidade”.

Além da reparação financeira de R$ 300 milhões, a ação civil pede políticas públicas para reparar os danos materiais e morais causados pelas campanhas militares. Dentre os pedidos, estão cotas universitárias para descendentes de sobreviventes da guerra e salário mínimo para estudantes locais. 

Também se pede um incentivo para que se criem museus e programas educacionais voltados ao resgate da memória do conflito, assim como iniciativas turísticas.  

Em 2 de outubro de 2025, houve uma audiência de conciliação no município para buscar uma resolução amigável entre Canudos e a União. O evento ocorreu em meio a uma série de serviços de cidadania que chegaram à cidade na data, como previdenciários, de assistência social e rural. 

O desembargador Flávio Jardim, do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), afirmou na audiência que a ação civil busca obrigar que a União apresente os documentos que justificaram a ofensiva militar. 

“De fato, é necessário que a história seja investigada, que tudo o que se apurar seja publicamente revelado, e que a memória do ocorrido seja sempre lembrada para que nunca mais um episódio desses se repita”

Flávio Jardim

desembargador do TRF-1, em entrevista ao site BNews em outubro de 2025

O TRF-1 e o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia vão firmar um termo de cooperação técnica inédito para ajudar na ação civil de Canudos. A previsão é que a assinatura aconteça durante o 2º Encontro Nacional de Mulheres na Justiça Restaurativa, em Salvador, entre os dias 18 e 20 de março. 

Para a desembargadora Joanice Maria Guimarães de Jesus, do TJ-BA, a ação é uma forma de restaurar o isolamento acarretado pela guerra. “Nunca mais conseguiu se inserir na sociedade como uma simples cidade, porque sempre é Canudos. Todo mundo acha que quem estava lá eram jagunços, que viviam atrás de Antônio Conselheiro, que eram malucos. E isso pesou na população”, disse ao Bahia Notícias em fevereiro de 2026.

No fim do século 19, Conselheiro era visto por muitos como um fanático religioso que, supostamente, promovia ideais monárquicos. Esse entendimento perdurou por décadas. 

A reparação histórica a Canudos também está em tramitação no Congresso Nacional. O projeto de lei nº 3.167/24, do deputado federal Bacelar (PV-BA), prevê a formulação de políticas públicas para o município por diferentes pastas ministeriais. O PL ainda deve passar por diferentes comissões da Câmara.