A falta de cultura filantrópica à agenda ambiental do Brasil

O debate sobre financiamento ambiental no Brasil costuma recorrer a atalhos. Em geral, está associado a campanhas pontuais, projetos emergenciais ou narrativas de impacto rápido, e raramente é tratado de forma estrutural. Quem atua no setor de captação de recursos para projetos ambientais no país enfrenta a ausência de uma cultura madura de doação em larga escala, especialmente entre grandes empresas, famílias de alta renda e detentores de grandes patrimônios, como acontece em boa parte do mundo. Também se observa a falta de políticas públicas capazes de estimular a filantropia nesse segmento, comprometendo a sustentabilidade de projetos de conservação e restauração ambiental.

O Brasil é um país abundante em recursos naturais. Integra o grupo das maiores economias do mundo, concentra indivíduos de alto patrimônio e grandes grupos empresariais com atuação nacional e internacional. Ainda assim, o volume de recursos privados destinados de forma estruturada à filantropia ambiental permanece reduzido. Não se trata de escassez de causas, nem de ausência de organizações qualificadas, mas, sobretudo, de um entrave cultural.

Levantamentos ajudam a explicar esse paradoxo. O World Giving Index – um estudo global da CAF (Charities Aid Foundation) – indica que o Brasil apresenta altos índices de solidariedade informal, como doações pontuais, ajuda direta e voluntariado, mas desempenho modesto em doações institucionalizadas e periódicas. A Pesquisa Doação Brasil reforça que a maior parte das contribuições ocorre de forma esporádica, muitas vezes reativa a crises, e apenas uma pequena parcela dos doadores adota estratégias filantrópicas de longo prazo.

Quem atua no setor de captação de recursos para projetos ambientais no país enfrenta a ausência de uma cultura madura de doação em larga escala

Esse padrão se torna ainda mais evidente quando o foco recai sobre grandes patrimônios. Em países onde a filantropia privada está mais consolidada, famílias de alta renda e family offices operam com estruturas dedicadas à doação estratégica, com planejamento plurianual, definição de causas prioritárias, métricas de impacto e diálogo contínuo com organizações da sociedade civil. No Brasil, esse movimento começa a tratar a filantropia de forma mais estratégica e planejada, mas ainda é exceção.

No campo ambiental, o cenário é ainda mais desafiador. Pesquisas indicam que, diferentemente de áreas como saúde, educação ou assistência social, a agenda ambiental está entre as menos priorizadas, mesmo em um país cuja economia, segurança hídrica e estabilidade climática dependem diretamente da integridade de seus ecossistemas.

Parte dessa dificuldade é cultural; parte, regulatória. O Brasil não dispõe de um arcabouço robusto de incentivos fiscais para a filantropia ambiental, como ocorre em países como os EUA, onde mecanismos como o Conservation Easements permitem deduções fiscais significativas para a preservação de terras privadas. Em 2024, as doações ambientais naquele país alcançaram US$ 21,57 bilhões. Chama a atenção também a filantropia ambiental nos Países Baixos, cuja movimentação correspondeu a 11% do setor filantrópico total, representando cerca de € 600 milhões anuais. 

No Brasil, os mecanismos existentes são limitados, pouco conhecidos e insuficientes para induzir uma mudança de escala. Incentivos ajudam, mas não substituem cultura. Onde não há entendimento claro do valor público da conservação, não existe engajamento.

Experiências concretas mostram que o país já dispõe de organizações capazes de executar projetos ambientais complexos, com governança e visão de longo prazo, que também levem em conta os impactos sociais e econômicos nas comunidades locais. O Instituto Black Jaguar, a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Terra são apenas alguns exemplos de iniciativas consolidadas. Projetos e capacidade técnica não nos faltam, e sim a consolidação de uma cultura de doação compatível com a ambição ambiental que o Brasil afirma ter.

Na prática, a sustentabilidade financeira desses projetos ainda depende de editais competitivos e parcerias corporativas e governamentais. Editais são relevantes, afinal, elevam padrões de gestão, transparência e prestação de contas; entretanto, não substituem uma base estável de apoio filantrópico comprometido.

No ambiente corporativo, a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) ampliou o espaço para o tema ambiental, mas também evidenciou a dificuldade de converter compromissos declaratórios em investimentos capazes de produzir mudanças duradouras, especialmente quando o apoio é avaliado apenas pelo retorno reputacional imediato.

Ainda persistem desafios relevantes de percepção. Entre eles, a ideia de que empresas ou setores que aportam recursos financeiros seriam, por isso, mais capacitados para definir estratégias, desconsiderando o conhecimento técnico, político e territorial das organizações sociais. Soma-se a isso a expectativa por resultados imediatos, incompatível com a natureza dos processos de conservação e restauração, que exigem planejamento técnico, monitoramento contínuo, governança rigorosa e presença permanente no território.

O Brasil é referência mundial em biodiversidade e serviços ecossistêmicos, no entanto, enfrenta desafios ambientais de escala continental. Enfrentá-los sem uma filantropia privada à altura dessa escala é contraditório. O gargalo é a construção dessa cultura, que exige transparência, educação do mercado doador e comprometimento com uma visão ampliada de futuro entre aqueles com maior capacidade de gerar real impacto.

Contribuições pontuais são importantes, mas insuficientes para que o país cumpra seus compromissos internacionais. Trata-se de engajar grandes patrimônios e empresas em uma reflexão sobre responsabilidade, legado e impacto. O desafio colocado aos filantropos brasileiros é claro: sem eles, não será possível transformar capacidade financeira em compromissos consistentes que contribuam para a estabilidade ecológica, social e econômica do Brasil. 

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Diogo Ferraz e Castro é chefe de captação de recursos e parcerias corporativas no Brasil do Instituto Black Jaguar.

Carol Sacramento é captadora de recursos e gestora de projetos do Instituto Black Jaguar.