Qual é o real impacto climático das rotinas dentro de casa

Pessoa tomando banho

Dentro das residências, ações rotineiras como tomar banho quente, cozinhar, conservar alimentos na geladeira ou ligar o ar-condicionado têm peso direto na conta climática global, emitindo gases de efeito estufa e compondo um setor que responde por cerca de 30% da demanda de energia no mundo. 

No Brasil, uma das áreas que mais demandam atenção é o setor de climatização, fortemente impactado pelas recentes ondas de calor. Segundo a Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento), o país tem registrado uma rápida expansão tanto no consumo quanto na fabricação de aparelhos de ar-condicionado. Em 2024, a produção nacional atingiu um recorde de 5,9 milhões de unidades, um crescimento de 38% em relação a 2023. A tendência de alta se manteve em 2025, registrando mais um aumento de 8%.

Neste texto, o Nexo explora as emissões de gases de efeito estufa geradas pelas rotinas das famílias brasileiras dentro de casa, discute possíveis mudanças nos padrões de consumo e apresenta soluções tecnológicas que podem ser adotadas nos próximos anos para garantir conforto térmico, aquecimento e resfriamento de forma mais sustentável.

Quando o gás escapa

Dentro dos aparelhos de ar-condicionado e das geladeiras circula um fluido refrigerante responsável pela troca de calor que permite resfriar ambientes e conservar alimentos em baixas temperaturas. No Brasil, os gases mais comuns ainda em uso nesses equipamentos, tanto em sistemas residenciais quanto nos industriais e em grandes espaços comerciais, são os HFCs (hidrofluorcarbonetos). Eles passaram a ser adotados a partir da década de 1990 como alternativa aos CFCs (clorofluorcarbonetos), substâncias que provocavam a destruição da camada de ozônio, fundamental para proteger o planeta da radiação ultravioleta.

O que surgiu como solução para um problema ambiental acabou criando outro desafio. Os HFCs são hoje potentes gases de efeito estufa, com potencial de aquecimento global, conhecido pela sigla GWP (Global Warming Potential), milhares de vezes superior ao do CO2. Na prática, essas emissões ocorrem principalmente quando o fluido refrigerante escapa durante vazamentos nos equipamentos ou quando os aparelhos são descartados de forma inadequada.

O professor Roberto de Aguiar Peixoto, do Instituto Mauá de Tecnologia e consultor do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), afirma que as emissões diretas dos fluidos refrigerantes já se tornaram uma preocupação global. Tanto que o Protocolo de Montreal, tratado criado para proteger a camada de ozônio e eliminar a produção de CFCs, foi atualizado com a Emenda de Kigali, que estabelece metas para reduzir o uso de HFCs nas próximas décadas.

O Brasil aderiu ao acordo em 2022 e, como outros países do Sul Global, terá prazos mais longos para implementar as medidas. O documento que detalha a primeira etapa do Programa Brasileiro de Redução do Consumo de HFCs esteve em consulta pública até dezembro de 2025. A proposta prevê reduzir 10% do consumo até 2029 e 80% até 2045.

Segundo o professor Peixoto, a redução do uso de HFCs exigirá atuação em diferentes frentes, desde a conversão de processos industriais para novos fluidos refrigerantes até o treinamento e a certificação de mecânicos e técnicos para reduzir vazamentos e adotar boas práticas de manutenção. Essa última frente, afirma, é um dos principais gargalos no Brasil, devido à alta informalidade no setor de instalação e manutenção de equipamentos de refrigeração e às dificuldades logísticas para o descarte adequado desses aparelhos.

“Hoje existem no Brasil cinco centros de regeneração de fluidos refrigerantes. Nesses centros, o gás recuperado passa por um processo de purificação para voltar a ter características semelhantes às de um fluido novo. O desafio é que esse processo envolve uma logística complexa”, explica.

Alternativas tecnológicas

Especialistas apontam que um dos caminhos mais promissores para substituir os HFCs são os chamados fluidos naturais, como a amônia, ou hidrocarbonetos como isobutano e propano. Embora essas substâncias também tenham impacto climático, seu GWP é muito menor. O isobutano, por exemplo, tem GWP de 3, enquanto os HFCs mais comuns em sistemas de refrigeração e ar-condicionado podem atingir valores entre 1.500 e 4.000 vezes maiores do que o CO2.

Assine nossa newsletter diária

Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você

Uma segunda opção são os HFOs (hidrofluorolefinas), substâncias sintéticas compostas por hidrogênio, flúor e carbono, que apresentam GWP muito baixo, próximo de zero. Outra alternativa em desenvolvimento é o uso de CO2 como fluido refrigerante, aproveitando o dióxido de carbono capturado em processos industriais.

Apesar do potencial, os hidrocarbonetos são inflamáveis e a amônia é tóxica, o que exige adaptações técnicas e normas de segurança mais rigorosas para o uso. No Brasil, as geladeiras domésticas já utilizam majoritariamente o isobutano (R600a) como fluido refrigerante. Nesse caso, o risco é considerado baixo porque a carga de gás é pequena. Já no ar-condicionado residencial, a adoção de propano, por exemplo, ainda avança com cautela.

A maior dificuldade dessa transição aparece justamente nas aplicações que demandam maiores volumes de refrigerante, como sistemas industriais, freezers e grandes instalações comerciais. Nesses casos, é necessário lidar com desafios técnicos relacionados à toxicidade, à inflamabilidade ou à alta pressão.

“Hoje, a tendência é que equipamentos menores migrem mais rapidamente para fluidos naturais, enquanto sistemas maiores ainda passam por uma etapa intermediária”, afirma Thiago Pietrobon, diretor de meio ambiente da Abrava.

De acordo com ele, parte dessas mudanças é impulsionada por exigências regulatórias de mercados internacionais. Em muitos casos, empresas que atuam no comércio exterior precisam adaptar equipamentos e processos para atender a normas ambientais mais rigorosas, especialmente em mercados como o europeu. Essa adequação é particularmente relevante para o Brasil — um dos maiores exportadores de carnes bovina, suína e de frango do mundo, cujas cadeias produtivas dependem fortemente de sistemas de refrigeração —, ainda que a China seja hoje o principal destino dessas exportações.

“O que encontramos no Brasil é basicamente a mesma tecnologia disponível na Europa, na China ou no Japão. Existe pesquisa e desenvolvimento no país, mas nossa cadeia produtiva tem uma ligação muito forte com o mercado chinês, porque grande parte dos equipamentos e das tecnologias é desenvolvida lá e depois montada aqui. Em alguns casos, as mudanças vêm também por exigências externas. Já houve situações em que contêineres refrigerados com HFCs de alto GWP não puderam desembarcar na Europa. Algumas empresas tiveram que fazer retrofit nesses equipamentos e trocar o fluido refrigerante por outro de menor impacto climático para conseguir operar nesses mercados”, declara.

Planejamento e eficiência 

O professor Alberto Hernandez Neto, da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), ressalta que esse debate não se limita ao desenvolvimento de novas tecnologias de ar-condicionado, mas também envolve a forma como esses equipamentos são instalados e utilizados, o que leva a uma reflexão mais ampla sobre o próprio projeto dos edifícios e residências.

Na avaliação do professor, a transformação necessária passa por repensar os próprios edifícios. Construções com baixo desempenho térmico exigem mais climatização artificial, o que eleva o consumo de energia e, em muitos casos, aumenta as emissões associadas ao setor elétrico. Entre as medidas estruturais que poderiam reduzir essa dependência, estão estratégias conhecidas da arquitetura bioclimática, como brises para sombreamento, ventilação cruzada, orientação adequada das fachadas e melhor isolamento térmico.

O professor da Poli-USP observa que o uso crescente de ar-condicionado no Brasil tem sido acompanhado por instalações inadequadas em edifícios, especialmente onde condomínios proíbem condensadoras na fachada. Nesses casos, moradores acabam instalando os equipamentos em ambientes fechados, o que faz o sistema rejeitar calor dentro do próprio apartamento, reduzindo a eficiência e podendo causar danos estruturais. Ele também alerta para riscos elétricos, quando aparelhos são ligados em fiações ou tomadas inadequadas.

Ar-condicionado

“O que estamos percebendo agora é a necessidade de uma abordagem mais integrada, em que o edifício seja pensado como um sistema único. Um prédio tem uma vida útil de 50 a 80 anos, às vezes até mais, então precisamos projetar já pensando nas adaptações que podem ser necessárias ao longo desse tempo, seja prevendo espaços para novos equipamentos, seja facilitando retrofits que melhorem o isolamento ou a eficiência energética”, analisa Hernandez Neto.

O professor também defende que é preciso olhar para o entorno das construções. A incorporação de áreas verdes, por exemplo, pode ajudar a reduzir ilhas de calor nas cidades, melhorar o conforto térmico e diminuir a necessidade de ar-condicionado.

No nível doméstico, escolhas feitas pelos consumidores também têm impacto no consumo de energia. “Uma medida importante é optar por equipamentos mais eficientes quando for comprar uma geladeira ou um ar-condicionado. No Brasil, o Procel [Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica] já oferece há muitos anos o selo de eficiência energética, que indica o desempenho dos aparelhos. O ideal é sempre buscar produtos com classificação A”, indica.

Aquecimento

Por ser um país tropical, poucas regiões do Brasil precisam de sistemas de calefação para aquecer ambientes. Em muitos países do Hemisfério Norte, esse aquecimento é feito principalmente com gás natural, um combustível fóssil que emite CO2. No contexto brasileiro, porém, a principal questão energética relacionada ao aquecimento está no banho quente.

Durante décadas, o chuveiro elétrico foi a solução predominante nas residências brasileiras. Mais recentemente, no entanto, parte desse cenário tem mudado. Em novos empreendimentos, muitas incorporadoras passaram a investir em sistemas de aquecimento a gás, o que levanta questionamentos do ponto de vista da descarbonização. Tanto para a calefação, principalmente no Sul do país, quanto para o aquecimento de água, a eletrificação aparece como uma possível alternativa para reduzir emissões.      

O pesquisador Márcio Vilela, da Poli-USP, argumenta que o debate entre chuveiro elétrico e aquecimento a gás não pode ser tratado de forma simplista e precisa considerar o funcionamento do sistema energético brasileiro. Em momentos em que a geração elétrica não é suficiente para atender à demanda, entram em operação as termelétricas. Nesse cenário, explica o pesquisador, é preciso avaliar onde o gás está sendo queimado e quais perdas ocorrem ao longo do caminho. Se o combustível é usado em uma termelétrica distante para gerar eletricidade — que, depois, percorre longas distâncias até chegar ao chuveiro elétrico —, parte da energia se perde na transmissão. Em alguns casos, portanto, pode ser mais eficiente queimar o gás diretamente no aquecimento da água do que utilizá-lo para gerar eletricidade longe do consumidor.

Uma alternativa apontada pelo pesquisador é o uso do sistema solar térmico, que aquece a água diretamente com a energia do sol e armazena o calor em um reservatório. Quando bem isolado, esse reservatório pode manter a água quente por até quatro dias, dependendo do nível de consumo da residência.

“O caminho mais razoável, nesse caso, costuma ser adotar um sistema híbrido. Um exemplo é combinar o aquecimento solar com outra fonte de energia para complementar o sistema. Nas áreas urbanas, o mais comum é usar eletricidade. Você tem um reservatório térmico que armazena a água aquecida pelo sistema solar e, conforme essa água é consumida e entra água fria no reservatório, um complemento elétrico pode ser acionado para garantir que a pessoa não fique sem água quente. Outra possibilidade é usar um sistema híbrido de aquecimento solar com gás, em que o gás entra como complemento em vez da eletricidade”, aponta Vilela.

Outra alternativa é o uso das bombas de calor, que transferem calor de um lugar para outro. No caso do aquecimento de água, o processo é adaptado para captar calor do ar ao redor e transferi-lo para um reservatório de água. Assim, em vez de gerar calor diretamente a partir da eletricidade, como ocorre nas resistências elétricas, a bomba de calor usa a eletricidade apenas para mover essa energia térmica do ambiente para a água. O principal uso das bombas de calor ainda está na indústria, onde a demanda por calor em processos produtivos é muito maior do que no ambiente doméstico. O professor Rogério Oliveira, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explica que sistemas mais avançados podem aproveitar calor de baixa temperatura e elevá-lo para níveis muito mais altos. Atualmente, o professor está na Shanghai Jiao Tong University, na China, onde realiza experimentos para avaliar o desempenho de um protótipo de sistema de bombas de calor e acumulador de calor projetados e financiados pela própria universidade chinesa.

Segundo ele, a tecnologia pode substituir resistências elétricas ou caldeiras a combustíveis fósseis com maior eficiência energética. “Esse equipamento é um protótipo pensado principalmente para aplicações industriais, porque consegue fornecer calor em temperaturas elevadas, chegando a cerca de 110°C, o que permite inclusive a produção de vapor, um insumo muito utilizado na indústria. Nesse contexto, o acumulador de calor também se torna mais vantajoso para o setor industrial do que para o residencial, porque muitas indústrias já trabalham com tarifas de eletricidade diferenciadas por horário de consumo. Em termos de funcionamento, o equipamento realiza basicamente o mesmo papel de uma resistência elétrica, porém com maior eficiência energética, chegando a consumir cerca de 37% menos energia para aquecer a água”, explica Oliveira.

Na cozinha

O ato de aquecer nas residências também se estende ao preparo de alimentos. Embora, no longo prazo, o Brasil possa discutir a redução do uso de GLP (gás liquefeito de petróleo, o conhecido gás de cozinha) e do gás natural, o debate atual ainda está em um estágio anterior dessa transição.

Boca de fogão acesa

De acordo com estimativas da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre os 17,8 milhões de domicílios de baixa renda no país, cerca de 4,5 milhões ainda utilizam algum tipo de biomassa, como lenha, para cozinhar. Desse total, 376 mil cozinham exclusivamente com lenha ou carvão vegetal.

“Ainda existe muita lenha sendo queimada de forma improvisada, em fogões também improvisados. Uma pequena parte dessa lenha até vem de fontes renováveis, mas uma parcela grande, principalmente entre a população de baixa renda, não”, ressalta a professora Adriana Gioda, da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

A professora reconhece que houve um avanço social significativo com a substituição, ainda que parcial, do uso da lenha pelo GLP, trazendo ganhos imediatos em dignidade e saúde pública. No entanto, no horizonte da descarbonização, ela ressalta que tanto o GLP quanto o gás natural continuam sendo combustíveis derivados do petróleo, portanto, não podem ser considerados soluções permanentes.

Ainda assim, ela aponta que o GLP é hoje o combustível mais adequado no curto prazo para o Brasil, principalmente pela infraestrutura e capilaridade. “O GLP tem uma vantagem importante porque já existe uma rede de distribuição muito bem estabelecida. Em princípio, ele poderia ser considerado um combustível adequado para essa transição. Mas o Brasil é muito diverso. Em regiões como a Amazônia, por exemplo, é muito mais complicado comprar GLP. Então existem muitas nuances regionais que mostram que o GLP, sozinho, não resolveria toda a transição energética no país. Ainda assim, ele pode ser mais adequado que o gás natural em muitos casos, porque o gás natural depende de redes de canalização, que são caras e normalmente ficam concentradas nas grandes cidades e muitas vezes nem chegam às periferias”, avalia Gioda.

Uma alternativa discutida é o uso de fogões elétricos, incluindo os de indução, mas a professora aponta algumas barreiras para essa transição. Entre elas estão o custo de aquisição para famílias de baixa renda, que muitas vezes não conseguem substituir o fogão sem subsídios, e a necessidade de panelas específicas no caso da indução, já que em muitos lares periféricos o uso de panelas de alumínio é o padrão cultural e econômico. Mesmo soluções mais simples, como fogões elétricos de resistência que aceitam qualquer panela, tendem a aumentar custos, o que pode dificultar sua adoção.

Em horizontes mais longínquos, é possível pensar em outras infraestruturas energéticas, mas que exigirão investimentos significativos. “Outra alternativa é o uso de biogás ou bio-GLP, que são gases obtidos a partir de dejetos orgânicos. Nesse caso, não estaríamos falando de um combustível derivado do petróleo, mas de um gás produzido a partir de resíduos, o que representa uma forma de aproveitamento desses materiais. O Brasil tem potencial para isso, mas hoje ainda não seria possível atender toda a população dessa maneira. A tecnologia ainda é cara e precisa de mais estudos e investimentos para ganhar escala. Em algumas situações, como em áreas rurais, já é possível fazer sistemas pequenos, em que os dejetos de animais, como porcos ou vacas, são usados em biodigestores para produzir gás para a própria casa. Em escala urbana, já existem algumas experiências usando resíduos orgânicos ou lixo para gerar biometano e abastecer parte de uma cidade, mas ainda são iniciativas limitadas”, explica Gioda.

Emanuel Galdino é bolsista Fapesp na modalidade Mídia Ciência