
Navio petroleiro russo considerado pelos EUA como parte da frota fantasma
Os Estados Unidos suspenderam na quinta-feira (12), temporariamente, as sanções ao petróleo da Rússia em resposta à subida de preços da commodity por causa do conflito no Irã.
Essa é a primeira flexibilização das sanções desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. A princípio, a licença emitida pelo Departamento de Tesouro dos EUA vale até 11 de abril. Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, afirmou no X que a medida visa a “promover a estabilidade do mercado energético global”.
US$ 100,46
foi em quanto o barril de brent, referência internacional, fechou na quinta-feira (12)
Neste texto, o Nexo relembra as sanções à Rússia e fala sobre os benefícios que o Kremlin tem tido no conflito no Oriente Médio.
Após a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, os EUA e a União Europeia impuseram diversas sanções à Rússia, incluindo controles de exportação, bloqueio de ativos, teto para o preço pago pelo barril de petróleo e outras pressões econômicas restritivas para minar a capacidade do Kremlin de financiar a guerra.
Um dos setores penalizados foi o energético. A Rússia é uma importante produtora e exportadora de petróleo e gás natural.
Desde março de 2022, os EUA proibiram empresas americanas de comprar óleo e gás russos. A União Europeia impôs um teto ao preço pago pelo barril de petróleo russo e, depois, passou a restringir a importação desses produtos, reduzindo substancialmente as aquisições.
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Em outubro de 2025, os EUA e a UE impuseram novas sanções às empresas energéticas estatais, como a Rosneft e a Gazprom Neft, e à privada Lukoil também.
Com essas medidas, o objetivo dos EUA e de países europeus era gerar impactos significativos sobre a economia russa, visto que o setor energético é central na balança comercial do país euroasiático.
Sancionada, a Rússia passou a exportar sua produção a partir de frotas fantasmas, como são conhecidos os navios envolvidos em práticas ilegais para burlar sanções, evitar o cumprimento de normas de segurança, afastar os custos de seguros ou realizar outras atividades ilícitas. Normalmente, eles operam com bandeiras falsas ou sem bandeiras e ocultam sua atividade.
O impacto das sanções foi amenizado pela estratégia russa de vender petróleo e derivados mais baratos para a China e para a Índia.
Em resposta, os EUA impuseram tarifas sobre a Índia em agosto de 2025. Em outubro, o país governado por Narendra Modi disse que suspenderia a compra do óleo russo, mas não o havia feito completamente. Ainda assim, o governo Trump reduziu a sobretaxa sobre a importação de produtos indianos.
Em 6 de março, Bessent anunciou isenção temporária de 30 dias para permitir que refinarias indianas comprem petróleo russo para evitar pressionar ainda mais o setor energético diante do conflito no Irã.
A flexibilização da sanção sobre o petróleo russo, ainda que temporária — como disse Bessent —, representa uma vitória para o Kremlin.
Kirill Dmitriev, enviado econômico da Rússia, afirmou na sexta-feira (13), em mensagem compartilhada no Telegram e reproduzida pela imprensa internacional, que era “cada vez mais inevitável” que os EUA suspendessem mais sanções.

Vladimir Putin e Donald Trump durante reunião no Alaska
O ataque israelo-americano ao Irã em 28 de fevereiro e a retaliação iraniana expandindo o conflito para outros países do Oriente Médio impactaram o setor energético, com o aumento dos preços do petróleo e do gás. Isso provocou efeito positivo para a Rússia.
“Tensões envolvendo o Golfo Pérsico tendem a pressionar os preços do petróleo. Como grande exportadora de energia, a Rússia pode se beneficiar de um cenário de preços mais elevados, especialmente em um momento em que ainda enfrenta restrições comerciais impostas pelo Ocidente”, disse ao Nexo Alexandre Coelho, professor de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e cochair do Comitê de Pesquisas Asiáticas da IPSA (Associação Internacional de Ciência Política), em 4 de março.
A Rússia tem arrecadado cerca de US$ 150 milhões por dia em receitas extras com a venda de petróleo bruto desde o início do conflito no Oriente Médio, segundo levantamento do jornal britânico Financial Times.
A medida gerou críticas de líderes europeus. Friedrich Merz, chanceler federal alemão, afirmou na sexta-feira (13) a jornalistas que a decisão dos EUA de aliviar as sanções ao petróleo russo foi “errada”. Ele destacou que, embora haja um problema com o preço, não há problema de escassez de combustível. “Queremos garantir que a Rússia não explore a guerra no Irã para enfraquecer a Ucrânia”, acrescentou.
A Rússia não ganha apenas economicamente. O conflito no Oriente Médio desloca as atenções americanas e europeias da Ucrânia para a região do Golfo, com capital diplomático e recursos bélicos militares.
A Ucrânia já enfrentava uma escassez dos sistemas de defesa aérea americanos Patriot usados para abater mísseis balísticos e drones russos. Agora, os EUA estão consumindo esses mesmos mísseis para defender as bases militares americanas nos países do Oriente Médio dos ataques iranianos, segundo a revista americana Time.
Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), afirmou ao Nexo que esse desvio de foco da guerra na Ucrânia explica em parte a resistência europeia em entrar no conflito no Irã ou fornecer bases militares.
Para Uebel, o conflito no Irã pode enfraquecer a União Europeia pelo impacto econômico ligado às questões energéticas, pela falta de coordenação entre os diferentes países-membros e por haver mais um conflito relativamente próximo às suas fronteiras — o que beneficia a Rússia. “Depois do Irã, o maior impactado pode ser a Europa, que pode ser arrastada para uma guerra da qual não quer participar”, disse.