
Emma Corrin, interpretando Elizabeth Bennet, em ‘Orgulho e preconceito’ (2026)
A literatura da escritora britânica Jane Austen continua inspirando novas adaptações em 2026. A série da BBC “The Other Bennet Sister”, que reimagina a história de personagens de “Orgulho e preconceito”, estreia no domingo (15). Já o filme “Razão e sensibilidade” e a minissérie da Netflix “Orgulho e preconceito” serão lançados no segundo semestre.
Desde 1940, quando estreou o longa “Orgulho e preconceito” — o primeiro a adaptar uma obra de Austen para os cinemas —, os livros da autora se tornaram fonte de inspiração para produções audiovisuais, que variam desde as mais fiéis às narrativas originais até aquelas que modernizam os enredos.
Neste texto, o Nexo apresenta Jane Austen, mostra como seus livros se tornaram a base para várias adaptações e explica de que maneira sua literatura continua a ressoar no século 21.
Jane Austen nasceu em dezembro de 1775, em Steventon, vila localizada em Hampshire, na Inglaterra.
O pai de Austen, George, era reitor da paróquia anglicana local e a mãe, Cassandra, era conhecida por criar histórias e versos. A família era composta por oito filhos, seis meninos e duas meninas — Jane e sua irmã mais velha, também chamada Cassandra.
O mundo que a autora conheceu, tanto familiar como no vilarejo em que cresceu, formou a base para sua literatura, com obras que fazem comentários irônicos principalmente sobre as expectativas sociais que recaem sobre as mulheres.
“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa”
Jane Austen
escritora, no trecho inicial de “Orgulho e preconceito”
Em seus livros, também há um retrato da Regência Inglesa (entre 1811 e 1820), período em que o príncipe regente tornou-se rei após Jorge 3º ter sido considerado inapto para governar.
Entre 1787 e 1793, Austen escreveu seus primeiros manuscritos. São produções que vão desde contos até peças de teatro. Ela publicou quatro livros, enquanto outros dois foram lançados postumamente:
Os livros alcançaram sucesso na época de Austen, recebendo boas críticas da sociedade britânica. A identidade da autora — que assinava as obras com “por uma senhora” — só foi revelada após sua morte, a partir de reedições.
Austen faleceu em 1817, sem causa conhecida. Antes de morrer, ela apresentava sintomas como febre, reumatismo e lesões na pele. Hoje, médicos supõem que ela tinha doença de Addison (em que o córtex da glândula adrenal não produz os hormônios cortisol e aldosterona suficientes). Outras hipóteses incluem lúpus e doença de Hodgkin.
As traduções dos livros de Austen chegaram ao Brasil em 1940, com “Orgulho e preconceito”. Antes, algumas de suas obras eram lidas com tradução do português de Portugal. Foi o caso de “Persuasão”, encontrado nas livrarias cariocas em 1850 com o título “A família Elliot, ou a inclinação antiga”.
Com o sucesso de “Orgulho e preconceito” no Brasil, a editora José Olympio, responsável pela edição, trouxe outros livros da autora ao país. O último a aportar foi “Emma”, publicado por outra empresa, a Nova Fronteira, em 1996.
Para Adriana Sales, pesquisadora e tradutora de três obras de Austen, a literatura da britânica representou uma ruptura no século 19 ao expor detalhes sobre a vida doméstica feminina.
“Austen não denuncia as questões sociais que as mulheres enfrentam de maneira escancarada, mas por meio de diálogos entre os personagens e de ironias em seu texto”, disse ela — que preside a organização Jane Austen Sociedade do Brasil e é docente de língua inglesa e suas literaturas no curso de letras do Cefet-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais) — em entrevista ao Nexo.
Dirigido por Robert Z. Leonard, “Orgulho e preconceito” (1940) teve inspiração em uma peça de Helen Jerome, que adaptou a obra de Austen para os teatros.
No filme, com roteiro do escritor Aldous Huxley e Jane Murfin, Greer Garson interpreta a heroína Elizabeth Bennet e Laurence Olivier, o pretendente Mr. Darcy. O longa foi bem recebido na época do lançamento.
Uma nova produção adaptando as histórias de Austen com o mesmo sucesso só chegaria cerca de 50 anos depois, com a minissérie da BBC “Orgulho e preconceito” (1995).
Por sua atuação, Jennifer Ehle, que interpretou Elizabeth Bennet, conquistou o prêmio Bafta (da Academia Britânica de Cinema) de melhor atriz de televisão na premiação de 1995. A atuação de Colin Firth, o Mr. Darcy da produção, também foi celebrada, o que fez com que ele conseguisse novos papéis.
No mesmo ano, outras adaptações foram lançadas e fizeram sucesso entre o público: “Razão e sensibilidade”, “Persuasão” e “As patricinhas de Beverly Hills” — uma adaptação moderna de “Emma”.
A partir de então, grandes estúdios passaram a investir em adaptações das histórias da autora inglesa.

Cena de ‘Orgulho e preconceito’ (2005)
“Orgulho e preconceito” (2005) foi a primeira a fazer grande sucesso no início dos anos 2000, trazendo Keira Knightley como Elizabeth e Matthew Macfadyen como Mr. Darcy. O longa foi indicado a quatro categorias no Oscar, incluindo Melhor Atriz para Knightley.
Já a websérie “The Lizzie Bennet Diaries”, disponível no YouTube, conseguiu destaque nos anos 2010.
As aventuras de Lizzie Bennet, sua amiga Charlotte e suas irmãs Lydia e Jane são contadas em vídeos no estilo vlog. A história também apresenta o relacionamento entre Lizzie e Darcy. Alguns dos episódios envolvem interações reais entre os atores e o público.
Lançada entre abril de 2012 e março de 2013, a websérie foi a primeira do gênero a ganhar um Emmy na categoria Melhor Conquista Criativa em Mídia Interativa.
“Orgulho e preconceito e zumbis” (2016) também abordou a história de Austen de uma maneira diferente. No longa, o relacionamento de Bennet e Darcy se desenvolve enquanto eles lutam contra uma praga que transforma pessoas em zumbis canibais.
Já na primeira metade dos anos 2020, estrearam “Emma” (2020), com Anya Taylor-Joy interpretando a personagem que dá nome ao livro, e “Persuasão” (2022), protagonizado por Dakota Johnson.
As histórias de Austen também viajaram para outros países. “Noiva e preconceito” (2004) é uma releitura feita em Bollywood sobre “Orgulho e preconceito”. Já “Nuvem de lágrimas”, adaptação musical brasileira da mesma obra, ambientou o texto da escritora no interior paulista com canções da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó.
“Abadia de Northanger” e “Mansfield Park” não tiveram tantas adaptações em comparação com seus pares. O primeiro nunca recebeu uma versão para os cinemas — apenas uma série em 2007. Já o segundo virou filme pela última vez em 2007.
Para Amy Wilcockson, pesquisadora em literatura inglesa na Universidade Queen Mary de Londres, que escreveu sobre o tema em artigo no site The Conversation, uma das razões por trás da falta de adaptações pode ser o tema abordado em cada obra.
“Abadia de Northanger” satiriza os enredos melodramáticos e cenários taciturnos dos livros góticos do século 19, além de criticar as expectativas da época envolvendo casamento e riqueza. Já “Mansfield Park” aborda infidelidade, vício em jogos e escravidão — já que o tio da protagonista, Fanny Price, é dono de um plantation na Antigua.
“Essas obras representam os trabalhos com mais nuances de Austen, focando não apenas no romance (ainda que as duas heroínas tenham finais felizes), mas em problemas sociais maiores. Especialmente, elas demonstram que a autora não apenas escrevia romances fofos, mas era uma observadora informada de assuntos relacionados à política e à sociedade e das estruturas que as apoiavam”, escreveu Wilcockson.
Em 2025, comemorou-se o 250º aniversário do nascimento de Austen. Diferentes celebrações ocorreram ao redor do mundo, principalmente na Inglaterra, desde encontros de fãs até exposições temáticas.
Para Sales, os filmes e séries que adaptam as histórias da autora ajudam a suscitar interesse por suas obras.
“Os livros podem ser difíceis de chegar ao público brasileiro, já que nem todas as pessoas têm o costume de ler, mas o cinema cria expectativas e suscita o interesse pelas obras”, disse.
Ainda segundo a pesquisadora, a literatura de Austen continua atual, pois os dilemas dos personagens permanecem contemporâneos numa sociedade desigual.
Sales também vê a influência de outras produções de época no aumento do interesse pelos livros de Austen, principalmente entre os mais jovens.
Um dos exemplos é o seriado da Netflix “Bridgerton”, baseado numa série de livros escritos pela autora Julia Quinn, também inspirada na era da Regência Inglesa.
“Muitas pessoas assistem à série e acreditam que foi Quinn quem abriu as portas para esses romances, sem saber que Austen inaugurou o romance de época como gênero literário da maneira como conhecemos hoje”, afirmou.