
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu na quarta-feira (11) o papel da indústria nuclear brasileira como recurso de defesa da soberania nacional. A fala, que ocorreu na Câmara dos Deputados, se deu um dia após o Brasil aderir a um acordo global para triplicar a produção dessa fonte energética até 2050.
Para Silveira, o potencial nuclear do país precisa ir além da geração de eletricidade — como prevê a Constituição de 1988 — e ser aplicado também para a proteção do país. Já para ambientalistas, a alternativa é descartável devido a seu alto custo e a possíveis riscos ambientais para sua exploração.
Neste texto, o Nexo explica por que o Brasil quer triplicar a energia nuclear e quais as críticas de pesquisadores ao plano.
Assim como o Brasil, a China, a Itália e a Bélgica aderiram à meta internacional de triplicar a energia nuclear até 2050. O acordo, assinado na segunda-feira (10) durante a Cúpula de Energia Nuclear de 2026 em Paris, foi lançado na COP28 (realizada em Dubai, em 2023).
Naquela ocasião, 25 países apoiaram a criação do documento e comprometeram-se a aumentar seu potencial nuclear como alternativa limpa de energia para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e manter o aquecimento global em 1,5ºC.
10%
da geração mundial de eletricidade é nuclear, segundo a IEA (sigla em inglês para Agência Internacional de Energia)
Além de querer responder às pressões pela descarbonização, esses governos veem a fonte energética como alternativa para o fortalecimento da soberania nacional em meio aos conflitos em torno do petróleo.
Dentre as medidas previstas para alcançar a meta, estão:
No início de março, o governo da África do Sul também assinou a declaração. O país, que tem cerca de 80% de sua eletricidade abastecida com carvão e uma parte considerável das reservas mundiais de urânio, vê na energia nuclear uma forma de diversificar sua matriz energética e cumprir metas climáticas.
38
países, ao todo, aderiram à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear até 2050
Ambientalistas sul-africanos questionaram as pretensões do país, que, segundo eles, não considera outras opções de energia limpa, como as movidas por sol e vento. Grupos como o Earthlife Africa apontam problemas na construção da usina nuclear no Cabo Ocidental, por exemplo. Para eles, o empreendimento não leva em conta dados atualizados para estimar possíveis riscos ambientais.
Outro país alvo de críticas de organizações é a França, onde dezenas de reatores são responsáveis pela produção de 70% da eletricidade nacional. Ainda na segunda (10), durante a realização do evento na capital francesa, integrantes do Greenpeace protestaram contra o presidente Emmanuel Macron e a importação de urânio da Rússia.
“[A cúpula é] um evento completamente fora de contato com a realidade e com as lições a serem aprendidas com as situações trágicas da agressão russa na Ucrânia”, disseram os ativistas a jornalistas.
Apenas 2% da energia elétrica produzida no Brasil vem de fontes nucleares, sob operação das usinas de Angra 1 (desde 1985) e Angra 2 (2001) pela estatal Eletronuclear. O índice seria maior, se não fosse a construção paralisada de Angra 3 por falta de financiamento — as obras começaram em 1986 e dependem de cerca de R$ 24 bilhões para finalização.
Apesar da baixa produção, o Brasil tem a oitava maior reserva de urânio do mundo, o que coloca seu potencial nuclear no radar do Planalto. Um dos motivos é o possível crescimento da demanda energética nacional, já que o país espera se tornar um polo global de data centers sustentáveis nos próximos anos. Para abrir margem ao plano, o governo tem articulado uma série de medidas.
Uma delas, defendida por Silveira em 2024, sugere a troca de termelétricas movidas a óleo diesel na Amazônia por pequenos reatores nucleares. “Tenho feito algumas discussões para que a gente avance nessa matriz energética tão importante, para que a gente possa descarbonizar os nossos sistemas isolados com esses pequenos reatores, utilizando o grande patrimônio de urânio que nós temos no Brasil”, disse na época.

Usina nuclear de Angra
Outra possibilidade, mais remota, mas aventada nos últimos meses, é o uso de energia nuclear em setores de defesa. A Constituição de 1988 prevê que toda atividade nuclear deve atender a fins pacíficos, seja na produção de eletricidade ou em outras áreas, como a medicina.
Mas o ministro de Minas e Energia tem defendido ajustes no dispositivo. “Países que têm riquezas como o Brasil não podem ficar sujeitos a colocar em risco sua soberania. Temos que ter coragem de discutir como vamos nos defender”, disse durante audiência no Congresso na quarta (11).
Essa foi a segunda declaração de Silveira sobre o tema. Em setembro de 2025, após um evento na Agência Nacional de Petróleo e Gás Natural, o ministro relativizou um possível uso de energia nuclear como instrumento de defesa militar do país. “Pode ser”, respondeu a jornalistas na ocasião.
Em resposta à repercussão de ambas as falas, o ministério defendeu o uso pacífico da energia nuclear. “Em um futuro, [o ministro] espera, longínquo, o povo e seus representantes num país democrático têm o legítimo direito de debater como preservar sua absoluta soberania”, disse a pasta.
No anúncio da assinatura da declaração na segunda (10), o Ministério de Minas e Energia disse que “busca acelerar a transição energética por meio de fontes de baixa emissão de carbono, contribuindo para o cumprimento das metas climáticas globais”.
A defesa da energia nuclear como opção ideal para descarbonização é controversa. Embora sua produção seja considerada como de baixa emissão de carbono, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) a define como fonte não renovável — já que depende da mineração de recursos finitos.
Além disso, parte da comunidade científica diverge em relação ao custo-benefício da fonte energética, já que a energia nuclear pode ser até três vezes mais cara que outras fontes limpas, como a eólica e a solar.
Em abril de 2024, o climatologista Carlos Nobre, doutor em meteorologia pelo MIT (sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachusetts), e o mestre em engenharia pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) Flaminio Levy Neto citaram ainda os potenciais riscos à saúde causados pela exploração da energia nuclear.
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“O risco à saúde está presente já na obtenção do combustível das centrais nucleares. A produção de uma mistura gasosa de alta periculosidade se inicia na mineração e refino do urânio. A partir de sua extração, é liberado o radônio 222, gás radioativo que provoca câncer do pulmão”, disseram os dois ao site UOL.
Para eles, o Brasil não precisa apostar na fonte. “O Brasil é um país privilegiado para produção de energia renovável. Não precisamos correr os riscos da energia nuclear.”
Em janeiro, a rede de entidades Observatório do Clima sugeriu que o Brasil encerre as atividades de suas usinas como uma das estratégias para alcançar uma transição energética justa.
“O Brasil deve adotar o entendimento de que a energia nuclear não se justifica, tendo em vista o alto custo para os consumidores e os riscos de segurança no armazenamento dos resíduos”, defendeu a rede ao fazer sugestões ao mapa do caminho (roadmap, em inglês) proposto pelo Brasil durante a COP30 para frear o uso de combustíveis fósseis.