
Ilustração da capa brasileira de “Graça infinita”, de David Foster Wallace
A escrita do autor americano David Foster Wallace é frequentemente apontada como difícil, intrincada e experimental. Em grande parte, por causa de sua maior obra (em tamanho e repercussão): “Graça infinita”, romance de mais de 1.000 páginas que completa 30 anos de publicação em 2026.
Ao mesmo tempo, o autor foi capaz de estabelecer uma conexão muito íntima com seus leitores, tratando de temas sensíveis referentes ao modo de vida americano no fim do século 20, como a cultura de massa, a solidão e os anseios existencialistas de toda uma geração.
Foster Wallace se suicidou em 2008, aos 46 anos, deixando a internet “inundada por depoimentos emocionados de leitores que pareciam ter perdido um amigo próximo ou mesmo um parente”, segundo escreveu Daniel Galera no prefácio do livro de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”.
Neste texto, o Nexo apresenta os principais temas e inovações literárias de “Graça infinita” e discute de que maneira o livro se relaciona com questões ainda mais relevantes na atualidade.
“Graça infinita” é um livro repleto de histórias e personagens, com narrativas intercaladas contadas de forma não linear. Os dois núcleos centrais são a Academia de Tênis Enfield, uma espécie de internato, escola e academia de formação de atletas de alto rendimento, e a Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool, uma moradia temporária com regras estritas destinada à reintegração de ex-dependentes à sociedade.
Segundo Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná e tradutor do livro no Brasil, “Graça infinita” é uma obra “profundamente interessada em investigar a condição humana no final do século 20, de um jeito que se tornou profético do que seria o cidadão urbano médio hoje no século 21”.
Para ele, o escritor faz isso explorando questões sobre a nossa constante necessidade de entretenimento e sobre “o quanto parecemos dispostos a entregar um pedaço muito grande da nossa alma em troca de diversão”.
“Só que ele acaba levando isso muito mais longe. [O romance é] uma grande investigação dos mecanismos de adição, de vício, de dependência, em todos os sentidos possíveis. Drogas, álcool, sexo, televisão, sistemas filosóficos, esporte, desempenho, tudo”, disse em entrevista ao Nexo.
A maioria das personagens está imersa em algum tipo de jornada relacionada ao vício. Hal Incandenza, um dos protagonistas, interno da Academia de Tênis, lida com questões com a maconha e, como outros alunos da instituição, com a pressão do desempenho nas quadras. Já a casa de reabilitação funciona como um limbo na vida de inúmeros pacientes que estão tentando lidar com a vida depois do vício, com rememorações de histórias angustiantes envolvendo condições desumanas e com cenas em reuniões terapêuticas como as dos Alcoólicos Anônimos.
A crítica literária Camila von Holdefer chama a atenção para como a trama dos vícios e da tentativa de superá-los tensiona as ideias de autoesquecimento e autoconfrontamento, temas recorrentes nos trabalhos de ficção e não ficção do autor.
O autoesquecimento seria o modo automático com o qual se pode navegar na vida, movido pela satisfação dos desejos imediatos. Já o autoconfrontamento vem do ato de prestar atenção e se treinar a tomar decisões conscientes, num movimento que é o primeiro passo para se desvincular de visões de mundo individualistas.
“[O] tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes”
David Foster Wallace
no discurso “Isto é água”, traduzido para o português no livro de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”
David Foster Wallace é frequentemente apontado como referência da New Sincerity, ou Nova Sinceridade, tendência cultural da virada do século 20 para o século 21.
O movimento — que se espalhou por artes como a música, o cinema e a literatura — valorizava temas como a empatia e a conexão, e surgiu como uma resposta à ironia e ao pessimismo que caracterizavam grande parte da arte pós-moderna.
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Especialmente para Foster Wallace, a tendência ao distanciamento pós-moderno estava fortemente atrelada à evolução da televisão e à sua influência em modos de vida cada vez mais centrados na experiência do indivíduo. Ele criticava a capacidade da mídia televisiva de transformar tudo em propaganda, até mesmo a opinião crítica e depreciativa do público em relação a ela — aglutinada a programas, filmes e comerciais através do uso da ironia e do cinismo.
Muito influenciado pela literatura do escritor russo Fiódor Dostoiévski, Foster Wallace trabalhou para resgatar elementos da escrita ética do século 19, que carregava paixões, convicções e preocupações com profundos problemas morais de sua época.
Para que esse retorno à sinceridade não fosse ingênuo, o escritor buscou se guiar pelo estudo de rupturas linguísticas, de transgressões temáticas e morais da ficção pós-moderna e dos efeitos da mídia contemporânea na psiquê social.
O escritor “não estava interessado em repetir o que tinha sido feito antes, e nem em voltar a modelos que tenham sido questionados pelo pós-modernismo”, disse o tradutor Caetano Galindo.
Segundo ele, Wallace descrevia a geração de escritores anterior à sua como “filhos adolescentes que, quando os pais viajam, dão uma super festa e passam a noite fumando maconha, bebendo, dançando, trepando como loucos”. Enquanto a sua geração seria a da primeira pessoa que acorda, vê a bagunça, “as cortinas rasgadas, o sofá sujo, uma mesa virada, gente dormindo pelada para todo lado” e sabe que não pode esperar que os pais voltem para botar tudo em ordem, que precisa “encontrar uma maneira de colocar as coisas no lugar sem voltar aos padrões de autoridade, uma nova maneira de ser responsável”.
Em 2008, o crítico do New York Times A. O. Scott definiu a voz literária de David Foster Wallace como “hiperarticulada, lamuriosa, autodepreciativa, hesitante, autoritária, carente, irônica, quase patologicamente autoconsciente”. E completa: “Algo que você instantaneamente reconhece, mesmo ouvindo pela primeira vez — a voz da sua própria cabeça”.

David Foster Wallace em uma leitura para o público em 2006
Usando um estilo literário que muitas vezes evoca uma mistura de fluxo de consciência com estilo indireto livre, a narrativa mistura a realidade de fora e de dentro de diversos personagens. O autor simula movimentos de pensamento que vão e voltam, espiralam em ideias, o que faz com que a comunicação muitas vezes não saia do lugar.
“É uma voz contínua de frases muito longas que fala coisas extremamente complicadas, misturando oralidade com registros eruditos, com coisas filosóficas complexas, com referências pop”, disse Caetano Galindo.
O tradutor explica que o livro é cheio de tramas e pequenas histórias, anedotas, microcontos, e repleto de personagens, que podem aparecer brevemente e ter narrativas de grande impacto. E é carregado de ironia e humor, “de quinta série, muito bobo e muito infantil às vezes”, intercalados com narrativas que vão fundo em temas extremamente pesados e dolorosos, disse Galindo.
Além disso, “Graça infinita” conta com centenas de notas de rodapé, às vezes da extensão de algumas páginas, uma marca recorrente na prosa do autor. Na versão física, elas ficam ao final do livro, de forma que o leitor tem que ir e voltar continuamente nas páginas — num movimento semelhante ao de observar uma partida de tênis, um grande tema do texto.
A trama se passa em um futuro não definido, em que Canadá, México e Estados Unidos se fundem em uma organização transnacional. A época é marcada por diversas instabilidades políticas, econômicas e sociais.
O Canadá é forçado a abrigar um grande território para onde são destinados dejetos nocivos. Movidos pela crise que decorre dessa catástrofe ambiental, se estabelece um sistema de grupos terroristas canadenses, o mais emblemático do livro sendo o Grupo dos Assassinos Cadeirantes, que luta pela emancipação do Quebec.
Essa organização utiliza como arma uma fita de vídeo contendo o filme “Graça infinita”, do falecido cineasta experimental James O. Incandenza, pai de Hal e fundador da Academia de Tênis Enfield. A produção é enviada anonimamente para diferentes autoridades, e seu potencial letal está no fato de que a fita entretém tanto que quem começa a assisti-la não consegue mais parar, sequer para cumprir necessidades biológicas básicas, e morre de inanição.
Na década de 1990, a televisão estava no auge da popularidade, enquanto a internet começava a dar os primeiros passos para o alcance de um público amplo. A Netflix foi fundada em 1997, começando como uma empresa de aluguel de DVDs pelo correio e investindo, cerca de uma década depois, no formato de streaming, que transformou profundamente a nossa forma de consumir filmes e séries, não mais restritos aos horários na programação da TV.
Em 2004, surgiu o Facebook — e seu feed de notícias —, que se tornou nos anos seguintes a rede social mais popular do mundo. Em 2010, o Instagram, focado no compartilhamento de imagens. Em 2016, o TikTok, plataforma de vídeos curtos e reprodução ininterrupta de conteúdo. A partir de smartphones, hoje o mundo inteiro está exposto aos riscos do uso sem moderação de redes que incentivam que os usuários permaneçam conectados para veicular propagandas.
Caetano Galindo explica que Foster Wallace “parecia muito consciente do tamanho do buraco em que a gente podia se meter com essas [tecnologias]. Eu tenho a impressão de que se ele conhecesse a pessoa que desenhou o mecanismo de scroll infinito, do Instagram hoje, por exemplo, ele diria que encontrou o Anticristo.”
“Quando você sente que o propósito da sua vida é se gratificar o tempo todo, há essa parte sua — uma parte quase faminta por silêncio e quietude, e por pensar seriamente sobre a mesma coisa por mais de 30 minutos, ao invés de 30 segundos — que não é alimentada. Isso se faz sentir no corpo, e causa uma espécie de pavor”
David Foster Wallace
em entrevista à rede de televisão alemã ZDF, em 2003
Além disso, o livro explora temas como a infiltração das lógicas de mercado no cotidiano — os anos, por exemplo, são nomeados através de subsídios de empresas, como o “Ano da Fralda Geriátrica Depend”, em que se passa grande parte da trama — e o populismo político.
Para Galindo, “a morte de David Foster Wallace nos privou de um interlocutor fundamental”. “Eu me pego o tempo todo olhando para o nosso mundo, para as guerras, o caos da política, a guinada da extrema direita, a inércia da esquerda, para o tipo de literatura que estamos fazendo hoje, o tipo de entretenimento, e eu fico pensando ‘o que é que o Wallace teria a dizer sobre isso?’”, diz o tradutor.