Os significados do título do beisebol venezuelano nos EUA

Seleção da Venezuela comemorando o título da WBC 2026. Homens estão com os braços erguidos, enquanto levantam um troféu. Ao redor, confetes em amarelo, azul e vermelho

Seleção da Venezuela comemorando o título da WBC 2026

A Venezuela venceu os Estados Unidos por 3 a 2 e se sagrou campeã do WBC (World Baseball Classic) de 2026, a Copa do Mundo da modalidade, na terça-feira (17). A equipe americana era considerada favorita pelo seu Dream Team com nomes estrelados da MLB, a liga de americana de beisebol. 

A final do torneio ocorreu em Miami, na Flórida, cidade com muitos imigrantes venezuelanos. A conquista do WBC em território americano aconteceu dois meses após a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, com bombardeios e a captura de Nicolás Maduro. 

Neste texto, o Nexo explica a tradição do beisebol na Venezuela e a imigração venezuelana para os Estados Unidos, relembra o momento geopolítico entre os dois países e mostra os principais destaques da World Baseball Classic de 2026. 

A tradição do beisebol venezuelano 

Apesar de o futebol ter sido o primeiro esporte a se popularizar na Venezuela, o beisebol se tornou a modalidade mais popular do país a partir do fim do século 19. A partida inaugural ocorreu em Caracas, capital venezuelana, em 1895. No mesmo ano, teve início o campeonato nacional. 

“O beisebol entrou na Venezuela por venezuelanos que estudavam nos Estados Unidos e pela influência da intervenção imperialista estadunidense, que vem desde o início do século 19”, afirmou Flávio de Campos, professor do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas), ao Nexo

Quase meio século depois, os venezuelanos surpreenderam ao conquistar o Campeonato Mundial Amador de Beisebol de 1941. “Os heróis de 41”, como a equipe ficou conhecida, também venceram os donos da casa na final:  Cuba foi a adversária, em Havana. 

A conquista do primeiro torneio internacional consolidou o beisebol como paixão nacional. A seleção ainda conquistaria os Mundiais de 1944 e 1945. No ano seguinte, a LVBP, primeira liga profissional de beisebol da Venezuela, foi fundada. Ela segue na ativa, com oito times profissionais. 

A presença dos venezuelanos no beisebol não se limitou ao território nacional. Luís Aparício, por exemplo, é o único representante do país no Hall da Fama da MLB, com carreira entre 1956 e 1973 nos Estados Unidos. David Concepción, entre 1970 e 1988, e Miguel Cabrera, entre 2000 e 2023, também tiveram uma carreira vitoriosa no beisebol americano. 

Atualmente, os grandes nomes do elenco venezuelano são Ronald Acuña Jr., do Atlanta Braves, e Maikel García, do Kansas City Royals. García foi considerado o melhor jogador da edição de 2026 da WBC. 

De acordo com Ubiratan Leal, comentarista dos canais ESPN, o título da World Baseball Classic é a maior conquista da história do esporte venezuelano. “Equivale um pouco a quando o Brasil foi campeão do mundo de futebol, em 1958, porque também era um torneio relativamente novo. Eles têm uma nação fanática pelo beisebol, mas que nunca tinham conquistado o título”, afirmou ao Nexo

A imigração venezuelana 

Todas as partidas da Venezuela no WBC, incluindo a final contra os EUA, aconteceram no estádio LoanDepot Park, em Miami. De acordo com os dados mais recentes do Censo americano, 254 mil venezuelanos moravam na região metropolitana da cidade em 2024. Além disso, cerca de 40% dos imigrantes venezuelanos vivem no estado da Flórida. 

“Jogar [como se estivesse] em casa foi muito importante para o time se soltar, se sentir natural e reforçar aquele sentimento de que eles defendem um país. Porque a maioria das estrelas latino-americanas saem de seu país ainda adolescentes e são contratadas pelos times americanos. É uma oportunidade de jogar diante da família e do povo deles”, afirmou Leal. 

1,2 milhão 

é o número de imigrantes venezuelanos que viviam nos Estados Unidos em 2024

O aumento da emissão de green cards – documento legal de moradia e trabalho permanente nos Estados Unidos – para venezuelanos começou com a entrada de Hugo Chávez na presidência da Venezuela, em 1999. O número passou de menos de 3.000 para mais de 18,4 mil por ano em 2023. 

Desde 2019, a imigração venezuelana para os Estados Unidos foi a maior entre países hispânicos. A população em território americano cresceu 113% em cinco anos. Os equatorianos foram o segundo grupo com maior aumento, com 47%. 

O período coincide com o segundo mandato presidencial de Nícolas Maduro na Venezuela. A crise política e social no país se aprofundou, com acusações de fraude no resultado das eleições de 2018 e 2024. Em ambas, o sucessor de Chávez se manteve no poder. 

Apesar do crescimento venezuelano, o grupo é apenas o nono maior entre as populações hispânicas nos EUA. Os líderes são imigrantes mexicanos e porto-riquenhos

O momento político 

Na segunda-feira (16), após a vitória da Venezuela contra a Itália pela semifinal do WBC, Donald Trump fez uma publicação em que cogitava o país latino-americano como o 51º estado dos EUA. O presidente dos Estados Unidos reafirmou o possível status de “statehood” venezuelano após a final. 

“Eles estão jogando muito bem. Coisas boas estão acontecendo com a Venezuela ultimamente! Eu me pergunto que tipo de mágica é essa” 

Donald Trump 

presidente dos Estados Unidos, em publicação no Truth Social na segunda-feira (16)

A deposição de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, quando os EUA invadiram o país e capturaram o então presidente e sua esposa, Cilia Flores, foi o estopim de uma relação conflituosa com Trump. Os EUA e a Venezuela romperam relações diplomáticas bilaterais em 2019, no primeiro mandato do republicano. Os americanos impuseram diversas sanções ao país andino, que foram mantidas no governo Joe Biden. 

Com a volta à Casa Branca, Trump designou facções criminosas venezuelanas como terroristas e autorizou o uso de força militar contra elas. Uma dessas organizações é o Cartel de los Soles, cuja liderança o governo americano atribuiu a Maduro, sem apresentar provas. 

O discurso oficial tem sido o de combate ao narcotráfico, o que não encontra amparo na realidade, visto que a Venezuela não é o país de origem da maior parte das drogas exportadas para os EUA.

A prioridade estratégica americana na empreitada é, na verdade, o acesso a reservas petrolíferas venezuelanas, sobretudo num cenário de reconfiguração do mercado global de energia, segundo o jornal americano The New York Times. Trump rejeita a transição energética e, ao retornar à Casa Branca, defendeu o aumento da produção do petróleo como prioridade.

Um torcedor que mora na região metropolitana de Miami disse ao jornal El País que a conquista é um alívio para os venezuelanos após um início conturbado de 2026. “Apesar das situações que ocorreram na Venezuela e abalaram o ânimo das pessoas, esta vitória é um sinal de esperança”, afirmou. 

De acordo com Bernardo Buarque de Hollanda, professor da Escola de Ciências Sociais da FGV CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, vinculado à Fundação Getulio Vargas), a conquista representa a paridade esportiva, em comparação à dominação político-militar. “A vitória acaba sendo o coroamento simbólico dessa capacidade do esporte de inverter uma lógica de dominação, que tem um vetor, que tem um sentido, mas que pode ser dramatizado às avessas”, disse ao Nexo

Para Flávio de Campos, o beisebol é um jogo que representa os avanços da área de influência política dos EUA, iniciada com a Doutrina Monroe, no fim do século 19. O professor da USP destacou que a expansão do esporte americano aconteceu não só na Venezuela, mas em Cuba e no Japão, países tradicionais na modalidade. 

“A Venezuela responde de uma maneira tremenda com essa vitória. É uma significação histórica em um momento de intervenção dos Estados Unidos num país soberano”, disse De Campos. 

Na opinião de Ubiratan Leal, no entanto, a situação política conturbada não impulsionou o desempenho da seleção. “O público que estava no estádio, e mesmo a imprensa venezuelana que cobre beisebol nos Estados Unidos, geralmente são contra o chavismo. Talvez para o torcedor vendo o jogo em casa houvesse um clima diferente, de querer se vingar dos Estados Unidos, mas não foi algo que chegou até o jogo”, disse o comentarista da ESPN. 

Reflexos esportivos americanos 

Apesar de ter a principal liga de beisebol do mundo, os Estados Unidos têm apenas um título da World Baseball Classic, conquistado em 2017 – o torneio começou em 2006. Além da Venezuela, a seleção do Japão venceu em três ocasiões (2006, 2009 e 2023), enquanto a República Dominicana conquistou em 2013. 

Parte da população dos Estados Unidos coloca os atletas locais de todos os esportes americanos em um alto patamar – o velocista Noah Lyles viralizou em 2023 ao criticar a seleção de basquete dos EUA com a frase “world champions of what?” (“campeões mundiais de quê?”). Por isso, o desempenho da equipe de beisebol está sendo contestado pela imprensa especializada. 

“O que está mais incomodando é a sensação de arrogância que as seleções americanas estão passando. Mas você tem que chegar lá e ganhar, tem que se provar”, disse Leal. 

Estrelas da MLB fizeram parte do elenco americano vice-campeão do WBC. Quatro deles – Aaron Judge, Bryce Harper, Paul Goldschmidt e Clayton Kershaw – foram MVP (Most Valuable Player, o melhor jogador da liga) em temporadas recentes. 

O Brasil participou da edição de 2026 do WBC, mas perdeu todas as partidas que disputou na fase de grupos. O país tem pouca tradição no esporte, e essa foi apenas a segunda participação da seleção no torneio mundial – a primeira foi em 2013. Os brasileiros foram medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de 2023, em Santiago.