Por volta dos quarenta anos, percebi que eu estava em um momento muito escuro da minha vida. Qualquer coisa que fizesse, na “Selva” da realidade de 1963, ano em que cheguei absurdamente despreparado para a exclusão da vida dos outros, que é a repetição da própria, havia uma sensação de escuridão. Não diria de náusea ou de angústia; para dizer a verdade, naquela escuridão, havia algo de terrivelmente luminoso: a luz da velha verdade, se quisermos, aquela diante da qual não há mais nada a dizer.
Escuridão igual luz. A luz daquela manhã de abril (ou maio, não me lembro bem: os meses nessa “Selva” passam sem motivo e, portanto, sem nome), quando cheguei (que o leitor não fique escandalizado) em frente ao cinema Splendid (ou Esplendor? ou Esmeraldo? Tenho certeza de que já se chamou Plinius, e isso foi em uma daquelas épocas maravilhosas — e eu não sabia — quando os meses eram verdadeiros, longos meses, e em cada ato meu — fosse arbitrário, pueril ou culpado — ficava claro que eu estava ganhando experiência sobre uma forma de vida com o intuito de expressá-la). Uma luz que os homens conhecem bem, na primavera, quando surgem os primeiros — os mais alegres, os mais queridos — de seus filhos com malhas leves, sem casaco; e pela Aurélia Nova vão discretos e leves — com os focinhos baixos como ratos atraídos por estupendos odores distantes —, os Fiats 600 das famílias burguesas de Roma, em direção aos primeiros lanches nos gramados, em direção às eiras com cercas de cana e glicínias, descendo em direção ao nebuloso, manchado Apenino…
Uma luz feliz e má: entre os dois portais do cinema, eis lá longe, acabando de virar, meu carro vindo de uma longa avenida a que a Aurélia se reduzia — Avenida Gregório 7º, acho –, entre um grupo de frentistas dispersos ao sol e o mercadinho coberto, ao fundo, com pequenos tetos verdes – eis lá longe algo vermelho, muito vermelho, um pequeno altar de rosas, como aqueles que mãos fiéis de velhas mulheres enfeitam, nos pobres vilarejos umbros ou friulanos ou abruzeses, velhas como foram velhas suas velhas, dispostas a se repetirem por séculos. Um pequeno altar desajeitado, mas a seu modo festivo, um maço de rosas vermelhas que eu não saberia descrever. E quando me aproximei, no meio daquelas rosas vermelhas, vislumbrei o retrato duplamente fúnebre, porque era de um homem morto há dois dias, de um herói deles, de um herói nosso. Os olhos à flor da pele, sob a testa calva (uma calvície cheia da doçura de um adolescente amadurecido pelo bem da vida). A luz estava ali, iluminando rosas e retrato, e bandeiras ao redor, talvez amontoadas, na humilde solenidade popular (obra das esposas dos inscritos na seção do Forte Boccea? ou dos próprios inscritos, motoristas ou pedreiros, com suas mãos grossas intimidadas, mas inspiradas pela obra daquelas rosas?).
Tudo isso entre os portais deste cinema Splendid: cintilantes à noite, agora empobrecidos pela luz, por essa luz. Míseros portais de vidro e metal: e eis o milésimo, o bilionésimo aperto no coração, o enternecimento, o desfalecimento, a lágrima. Até mesmo a constatação da miséria do pouco luxo tinha o poder de me dilacerar.
E eles estavam lá, à minha espera, com um velho senador, com um novo candidato à Câmara; pretos e escuros como os camponeses que vêm à cidade a negócio, e se reúnem todos na praça, que anoitece, da sua solenidade, naquele vazio ofuscante que o verão iminente está preparando entre prédios e becos. E os cumprimentos, os apertos de mão, os olhares de compreensão e pretensão.
E agora eles estavam ali reunidos, nas fileiras da plateia, que também apertava o coração, naquela luz da manhã (a luz dos depósitos, dos sótãos, das avenidas, não dos cinemas) naquela sala com um nome esplêndido – e que era o esplêndido ponto de encontro na esquina do bairro deles, na longa série de noites em que marcha, sem bandeiras, a vida.
Enquanto isso, dava alegria a todos eles, a todos nós, o fato de dezoito novos rapazes terem se inscrito, após um comício do partido governista, no nosso partido: aquela alegria que é como a das bebedeiras compartilhadas, uma alusão à confirmação, fatal, de certos fatos cujo acontecimento havia sido ao mesmo tempo esperado e acompanhado, e agora saudado como um sucesso, e esse sucesso apertava meu coração.
O círculo estava virado para o centro de si mesmo, excluía o mundo.
(Que estava lá fora, como demonstrava com clareza evidente a cúpula semiaberta do teto do Splendid: um azul de seda, apenínico, com ar de mar.)
O palco dos anos quarenta; as bandeiras dos anos quarenta; o microfone dos anos quarenta: tudo tremulante, de madeira velha, de armazém, pregado com quatro batidas de martelo, e coberto por um pobre tecido vermelho. Que apertava o coração!
Escuridão sobre escuridão. Eu estava ali, de frente para os operários, vestidos para uma festa, os pais de roupa escura, os filhos com camisetas claras – vermelho romã, amarelo canário, laranja dourado, que estavam na moda naquele ano. Lá estava o rosto do desdentado, designado às certezas como um torcedor com seu mascote, a nota humorística que torna cotidiana a fé: o seu lugar está no centro da plateia, e sua cadeira parece a mais alta de todas. Quando bate palmas, com a boca desdentada se abrindo em um tradicional sorriso, é sinal de que é preciso bater palmas: e com alegria. O círculo está virado para aquele centro cheio de certeza: o mundo está fora, radiante e indiferente. E o coração está dilacerado.
Estou aqui, portanto, elencando isso como o único dado bom do mundo em que historicamente experimento o fato de viver – a existência desses operários (que aperta o coração).

A divina mimesis
Pier Paolo Pasolini
Trad. Cláudia Tavares Alves
Jabuticaba
108 páginas