Quem é responsável por validar a verdade na era da pós-verdade

Quem decide o que é verdade? Não no sentido filosófico, mas no operacional. Vídeos manipulados viralizam antes de qualquer checagem. Algoritmos definem o que é “relevante” para cada usuário com base em métricas de engajamento, não de precisão. Governos propõem leis sobre “informação verdadeira” sem critérios transparentes. No Brasil, o debate sobre regulação de plataformas digitais trouxe à tona essa tensão: quem arbitra a veracidade de um conteúdo, e segundo quais parâmetros? A questão não é abstrata. É um problema de governança, de infraestrutura e de modelo de negócio.

A expressão “pós-verdade” se consolidou no debate público como rótulo genérico que mistura fenômenos distintos: fake news, teorias conspiratórias, propaganda computacional e perda de confiança institucional. Essa generalização mais atrapalha do que ajuda. O ponto central não é que as pessoas “não querem saber a verdade”. O ponto é que o ecossistema digital em que circula a maior parte da informação contemporânea foi construído para monetizar atenção, não para distribuir conhecimento. Plataformas otimizam engajamento emocional e velocidade de circulação. Precisão factual não é uma métrica relevante nesse sistema. Uma manchete alarmista ou um áudio falso compartilhado em grupos de WhatsApp geram mais interação do que uma apuração rigorosa de três semanas. A arquitetura é essa.

Surgiram respostas. Fact-checking, alfabetização midiática, regulamentação de conteúdo, inteligência artificial aplicada à moderação. Todas têm valor, mas compartilham uma premissa frágil: assumem que o problema é essencialmente informacional e que se resolve com mais ou melhor informação. Na prática, a desconfiança nas instituições não nasceu de um déficit cognitivo da população. Nasceu de falhas reais e repetidas dessas mesmas instituições — da cobertura enviesada de crises políticas a escândalos envolvendo órgãos de controle. Nenhum selo de “fato verificado” conserta, sozinho, uma relação de credibilidade que foi corroída ao longo de décadas.

David Buckingham, em “The End of Information” (Polity, 2026), problematiza esse ponto com precisão. As respostas dominantes ao ecossistema da desinformação tratam sintomas, não causas. Ao focar em “alfabetizar” o indivíduo, transferimos para ele uma responsabilidade que deveria recair sobre as estruturas que permitem e lucram com a circulação de conteúdo falso. A lógica é análoga à que se observa no debate ambiental, quando a responsabilidade pela crise climática é deslocada para escolhas individuais de consumo e não para cadeias produtivas e marcos regulatórios. O cidadão é convocado a ser mais crítico, mais atento, mais preparado, enquanto as condições estruturais que alimentam o problema seguem intactas.

No Brasil, o debate sobre regulação de plataformas digitais trouxe à tona essa tensão: quem arbitra a veracidade de um conteúdo, e segundo quais parâmetros?

Aparece aqui um paradoxo operacional que merece atenção. Para combater a pós-verdade, criamos validadores da verdade: checadores, reguladores, comitês de ética digital, sistemas automatizados de moderação. Mas quem audita esses validadores? Toda instância de validação está inserida em relações de poder e de incentivo econômico. Os próprios projetos de checagem dependem, em boa medida, de financiamento das mesmas plataformas cujos efeitos pretendem mitigar. Isso não invalida o trabalho feito, mas impõe um limite estrutural à sua independência e ao seu alcance.

Nas plataformas, a autoridade editorial migrou dos jornais para os algoritmos. O resultado não foi a democratização da informação, como se prometeu nos primeiros anos das redes sociais. Foi a privatização da curadoria sem prestação de contas. Quando Meta, X ou TikTok decidem o que amplificar e o que suprimir, exercem poder editorial enorme, sem nenhuma das obrigações que historicamente acompanharam esse papel no jornalismo tradicional. A decisão recente da Meta de encerrar parcerias com checadores de fatos nos Estados Unidos exemplifica essa dinâmica. A empresa reorganiza sua política de moderação segundo interesses corporativos e conjunturais, e o ecossistema informacional inteiro se reconfigura de acordo.

A educação midiática aparece como solução recorrente. É necessária, sem dúvida. Mas pensamento crítico ensinado como checklist, “verifique a fonte”, “procure em dois sites”, “desconfie de títulos sensacionalistas”, é insuficiente diante da sofisticação crescente dos mecanismos de desinformação. Deepfakes gerados por inteligência artificial, campanhas coordenadas de manipulação narrativa e bots que simulam consenso social são desafios que não se resolvem com letramento individual. Esse tipo de abordagem, quando desacompanhada de medidas estruturais, funciona mais como álibi institucional do que como política efetiva.

O caminho mais realista passa por tratar a verdade como o que ela de fato é na prática: uma construção coletiva que depende de infraestrutura, incentivos e governança. Enfrentar a pós-verdade exige mexer nos modelos de negócio da economia da atenção, criar mecanismos reais de responsabilização para plataformas, financiar jornalismo independente de forma sustentável e investir em educação que vá além da técnica e alcance a formação política e a compreensão sistêmica dos fluxos de informação.

A pergunta “quem valida a verdade?” não tem resposta simples. E é exatamente por isso que ela importa. Não como convite ao relativismo, mas como alerta: a verdade, para funcionar numa democracia, precisa de mais do que boas intenções. Precisa de design institucional.

Assine nossa newsletter diária

Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você

Pedro Teberga é professor universitário e especialista em desenvolvimento de negócios digitais. Como empresário, esteve envolvido em diversos projetos de tecnologia e educação em empresas de médio e grande porte (Banco do Brasil, Procter & Gamble, VTEX, Azul, Locaweb, Bayer, entre outros). Graduado, mestre e doutor pela FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), coordena e ministra cursos em instituições prestigiadas, incluindo Faculdade Einstein, Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), FGV (Fundação Getulio Vargas), FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), Centro Universitário Belas Artes e FIA (Fundação Instituto de Administração), além de atuar como professor visitante na NOVA SBE (Nova School of Business & Economics), em Portugal. É especializado em temas relacionados a marketing, tecnologia, inovação, empreendedorismo e desenvolvimento de produtos.