
Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia de abertura da Caravana Federativa, em São Paulo
Fernando Haddad (PT) deixou na quinta-feira (19) o cargo de ministro da Fazenda e lançou sua pré-candidatura ao governo de São Paulo. Ele é um entre os cerca de 20 ministros que vão deixar o governo até o começo de abril para disputar os Executivos estaduais, o Senado e Câmara dos Deputados em outubro.
Concorrer com Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi um pedido de Luiz Inácio Lula da Silva a Haddad, que, inicialmente, disse que não queria participar das eleições paulistas. A tarefa é árdua, considerando a liderança folgada do atual governador nas pesquisas de intenção de voto.
Neste texto, o Nexo mostra as movimentações dos ministros e analisa com cientistas políticos as estratégias e escolhas de Lula.
Haddad encerrou na quinta-feira (19) seu período de pouco mais de três anos no Ministério da Fazenda. Dario Durigan, que era secretário-executivo da pasta, vai substituí-lo.
A gestão Haddad foi marcada por índices econômicos favoráveis, como o de desemprego – que atingiu a mínima histórica em 2025 –, e pelas aprovações da reforma tributária e da isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000 mensais. Por outro lado, também ficou marcada pelo aumento de impostos, o que rendeu ao ministro a pecha de “taxador”.

Luiz Inácio Lula da Silva (à esq) e Fernando Haddad durante evento do G20 em Brasília
Haddad não queria concorrer a nenhum cargo em 2026. Inicialmente, sua ideia era trabalhar no plano de governo de Lula para a reeleição e assumir a Casa Civil num eventual quarto mandato.
Em fevereiro, no entanto, o presidente afirmou em entrevista ao site UOL que tanto o então ministro da Fazenda como o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), tinham um “papel a cumprir” em São Paulo – ou seja, disputar cargos no Executivo estadual ou no Senado. Com mais de 34 milhões de eleitores, o estado é o maior colégio eleitoral do país – e, por isso, tão relevante na disputa presidencial.
42%
foi o percentual de votos em Tarcísio no segundo turno de 2022; Haddad teve 35%
“A candidatura de Haddad em São Paulo cumpre dois objetivos e um sonho. O sonho, obviamente, é vencer a eleição. Mas os objetivos são, primeiro, ir ao segundo turno com Tarcísio e, segundo, pelo menos manter a diferença de votos [em relação à eleição passada]”, disse ao Nexo o cientista político Beto Vasques, professor de comunicação política da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque.
44%
é a intenção de voto em Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo, segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 3 e 5 de março
31%
é a intenção de voto em Fernando Haddad (PT), segundo a mesma pesquisa
Embora a vantagem de Tarcísio seja folgada e Haddad tenha maior rejeição – 38% dos eleitores de São Paulo disseram que não votariam nele de jeito nenhum, segundo a pesquisa Datafolha mais recente –, o petista tem condições de avançar, na avaliação de Vasques.
“Tarcísio está jogando desmarcado. Ele não foi confrontado até agora. Além disso, ele não tem uma grande marca em sua gestão, e a campanha do Haddad pode usar isso”, afirmou.
Outro aspecto que o PT pode usar é o descontentamento dos prefeitos paulistas com o atual governador – algo que Lula citou no evento de lançamento da pré-candidatura de Haddad. O presidente disse que Tarcísio “não gosta de receber” chefes dos Executivos municipais fora de sua base aliada.
“Tenho escutado isso de assessores e prefeitos do interior, que dizem ter saudades dos governos Alckmin. O vice deve pegar Haddad pelo braço para percorrer o estado”, afirmou o professor.
“Não disputo eleição para barganhar, disputo para ganhar. Vitória política sempre é possível. Basta você se apresentar de cara limpa e com um bom projeto, que vai despertar o bom-senso das pessoas”
Fernando Haddad
ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, durante evento na capital paulista na quinta-feira (19)
Por mais que a disputa em São Paulo seja nacionalizada – ou seja, com tendência a repetir a calcificação política de PT versus bolsonarismo –, Vasques acredita que, pelos perfis de Haddad e Tarcísio, a campanha não vai se centrar apenas em debates ideológicos, mas se direcionar a aspectos programáticos e realizações no estado.
“Pode ser bom ter alguém confrontando Tarcísio e obrigando os dois lados a defenderem seus pontos fortes e fracos”, disse o professor.
Segundo ele, há ainda um elemento prático que parece irrelevante, mas que conta para quem vai às urnas: ter um candidato ao governo com o mesmo número que o candidato a presidente. Eleitores de Tarcísio que votarem em Flávio Bolsonaro (PL) para o Planalto, por exemplo, não terão a mesma facilidade na hora de votar, já que os dois são de diferentes partidos.
O prazo para que governadores, prefeitos e ministros de Estado façam a desincompatibilização – ato de se afastar de forma temporária ou definitiva do cargo para concorrer a uma vaga na eleição – termina seis meses antes do pleito em outubro. Por isso, eles precisam deixar suas funções até o dia 5 de abril.
Ao menos 20 ministros vão sair do governo Lula para concorrer ao Executivo estadual, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Além de Haddad, Renan Filho (MDB), da pasta dos Transportes, vai disputar o governo de Alagoas. Há ainda a possibilidade de o PSB lançar o ministro do Empreendedorismo, Márcio França, ao governo de São Paulo, para que Lula tenha um palanque duplo no estado.

Simone Tebet, Lula e Marina Silva em campanha em Minas Gerais em 2022
Lula também tem apostado em seus ministros para o Senado. Rui Costa (PT), atual comandante da Casa Civil, confirmou na sexta-feira (20) que vai concorrer a uma vaga na Casa pela Bahia, estado que governou entre 2015 e 2023. Hoje, ele é o favorito na disputa no estado.
27%
são as intenções de voto em Rui Costa (PT), segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada em 12 de março
A ministra do Planejamento, Simone Tebet, que deixou o MDB e se filiou ao PSB neste sábado (21), também vai deixar o ministério para concorrer ao Senado por São Paulo. De acordo com a Real Time Big Data, que divulgou levantamento sobre o estado em 9 de março, Tebet tem 16% das intenções de voto, em empate técnico com o deputado e ex-secretário de Segurança Pública de Tarcísio, Guilherme Derrite, do PP (15%), e Marina Silva, da Rede (15%).
O destino da ministra do Meio Ambiente ainda é incerto. Inicialmente, ela iria concorrer ao Senado por São Paulo, que terá duas vagas abertas em 2026. Ao ser sondada sobre o assunto, no entanto, despistou.
Há ainda a possibilidade de que Marina seja vice de Haddad – composição defendida por uma ala do PT que acredita que o nome de ambientalista pode trazer um ar de “novidade” para a chapa.
Ainda na disputa pelo Senado, a ministra Gleisi Hoffmann (PT) deixa a função nas Relações Institucionais para concorrer a uma vaga pelo Paraná, estado pelo qual já foi senadora em 2010. Segundo levantamento da Paraná Pesquisas divulgado neste mês, ela tem 24% das intenções de voto e é a terceira colocada, atrás de Álvaro Dias (MDB) e Alexandre Curi (PSD).
Outros integrantes do governo Lula vão tentar a sorte na Câmara dos Deputados:
Já a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo (PT), deve se candidatar a deputada estadual em Minas Gerais.
Para o cientista político Guilherme Carvalho, professor da UFG (Universidade Federal de Goiás), um dos problemas na estratégia de Lula para seus aliados em 2026 é expor nomes a disputas cujas derrotas são quase certas – o que pode impactar o capital eleitoral dos candidatos e trazer prejuízos futuros.
Além de Haddad, há o exemplo da deputada federal Adriana Accorsi (PT), que tem sido pressionada a concorrer ao governo em Goiás em vez de tentar a reeleição. Segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada na quarta-feira (18), ela é rejeitada por 40% dos eleitores do estado para o cargo no Executivo.
“Accorsi tem chances de concorrer contra a máquina [Daniel Vilela, do MDB, atual vice]? Não. É a mesma lógica com Haddad. O tamanho do sacrifício que Lula está pedindo não é trivial”, disse Carvalho ao Nexo.

Alckmin, Haddad, Lula, Gleisi Hoffmann e Margareth Menezes em cerimônia em São Paulo
“Na iminência de uma derrota grande para Haddad – e essa possibilidade existe –, isso esvazia o projeto do PT, e seu espaço pode ser ocupado por forças de centro ou algum outsider de esquerda em 2030,” afirmou.
Mais que isso, uma eventual segunda derrota de Haddad no governo de São Paulo pode prejudicar seu nome nacionalmente, pois ele é considerado um sucessor natural de Lula.
“Ele foi o último candidato a conquistar uma votação significativa pós-Dilma Rousseff [em 2018, contra Jair Bolsonaro]. Se ele tiver uma derrota acachapante ou acabar em terceiro lugar [na disputa em São Paulo], vai minar a confiança dos eleitores de centro-esquerda que votam no PT no segundo turno, que não vão ver mais vê-lo como um quadro viável – já que é melhor não estar no páreo do que perder feio”, disse.
Desde 2025, políticos de espectros variados discutem a importância de conquistar a maioria no Senado nas eleições de 2026. A extrema direita, por exemplo, tem como objetivo central ocupar a Casa e pautar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal – em especial Alexandre de Moraes, considerado algoz pelas condenações de Bolsonaro e seus aliados na trama golpista.
Por mais que o PT também esteja centrando esforços para aumentar ou pelo menos manter suas bancadas no Congresso, a legenda ainda direciona esforços demais para o Executivo, segundo Carvalho.
“O partido queima seus melhores nomes no Executivo e corre o risco de não ter força no Legislativo. Eventualmente, pode perder seu protagonismo para outra legenda”, disse. “O PT precisaria de uma estratégia coesa para fazer maiorias ou para ser bastante incômodo nas duas Casas num eventual governo de Flávio Bolsonaro.”
Vasques vê a situação de outra forma. Para ele, as decisões do PT até agora seguem o objetivo central de reeleger Lula. Por isso, faz sentido a estratégia de lançar nomes fortes nos estados – mesmo com grandes chances de perder –, que podem servir de palanque.
“Muita gente reclama que o bolsonarismo já está há mais de um ano preparando chapa para o Senado, e o PT não. Não é que o PT não esteja olhando. O PT não é bobo, mas esse objetivo está condicionado ao primeiro [de reeleger Lula]. Serão feitos os esforços necessários para garantir Lula, em que pese o risco de deixar a direita e a extrema direita com maioria no Senado”, afirmou.