A sociobioeconomia entrou de vez no debate público brasileiro, sobretudo quando a Amazônia aparece como fronteira de desenvolvimento sustentável. No Nexo Políticas Públicas o tema já foi discutido em diversos artigos, como: ‘O que é bioeconomia, e qual o lugar do Brasil nesse campo’, em ‘Economia da sociobiodiversidade, caminhos para a Amazônia’, em ‘A implementação do Protocolo de Nagóia no Brasil: lições para a bioeconomia’ e também em ‘Qual o papel da governança para a redução do desmatamento’. Mas, na prática, muitas iniciativas seguem presas no piloto: criam valor socioambiental, porém tropeçam no custo invisível de coordenar interesses, regras e responsabilidades entre atores muito diferentes.
É esse ponto cego que o artigo ‘Towards a Sustainable Bio-Based Future: A Governance Framework for Bioeconomy Initiatives’, publicado na revista Business Strategy & Development, coloca no centro da análise. Em vez de tratar a bioeconomia apenas como agenda tecnológica ou regulatória, o trabalho propõe olhar para os custos de transação: tempo, esforço e recursos gastos para negociar, monitorar, medir, cumprir e fazer cumprir acordos em cadeias e arranjos multissetoriais. A tese é simples: uma estratégia sociobioeconômica só se sustenta quando os benefícios gerados superam, de forma clara, os custos de governança que ela exige. O estudo declara financiamento do Instituto Pensi – Fundação José Luiz Setúbal.
O framework organiza o diagnóstico em quatro camadas:
Esse mapa ajuda a responder perguntas raramente enfrentadas no desenho de projetos: quais transações são críticas, onde estão os riscos de oportunismo, que investimentos ficam presos na relação, quem paga a mensuração e a verificação de qualidade, e o que acontece quando há divergências.
A sociobioeconomia não é só floresta: ela também atravessa sistemas alimentares, segurança nutricional, qualidade de água e exposição a poluentes. Quando arranjos produtivos sustentáveis falham por governança frágil, o resultado não é apenas econômico, pode significar menos oferta de alimentos saudáveis, mais pressão sobre ecossistemas e mais vulnerabilidade social em territórios onde crianças vivem e se desenvolvem
Para a filantropia, essa abordagem abre um caminho estratégico. Parte relevante dos custos de transação em sociobioeconomia tem natureza de bem público ou quase-bem público: padrões, rastreabilidade, governança territorial, métricas socioambientais, mediação de conflitos e construção de confiança. São elementos essenciais para escalar iniciativas, mas frequentemente subfinanciados por empresas, que não capturam todo o retorno, e pelo Estado, que enfrenta restrições e ciclos políticos. Em outras oportunidades, também foi debatido no Nexo para ‘Como a filantropia pode ser ferramenta de mudança social’ e para ‘Como a filantropia pode contribuir para a transformação social’. A filantropia, por definição, pode operar com horizonte mais longo, assumir risco e financiar a infraestrutura de coordenação que permite que outras fontes de capital entrem depois.
Além disso, na visão do Instituto Pensi, a conexão com a saúde infantil é direta. A sociobioeconomia não é só floresta: ela também atravessa sistemas alimentares, segurança nutricional, qualidade de água e exposição a poluentes. Quando arranjos produtivos sustentáveis falham por governança frágil, o resultado não é apenas econômico, pode significar menos oferta de alimentos saudáveis, mais pressão sobre ecossistemas e mais vulnerabilidade social em territórios onde crianças vivem e se desenvolvem. Assim, investir em governança é também investir em determinantes sociais e ambientais da saúde.
Para tornar esse debate aplicável, o Laboratório de Estratégia, Governança e Filantropia para Transições Sustentáveis do Instituto Pensi, com o apoio da UEA (Universidade Estadual do Estado do Amazonas) publicou a nota técnica ‘Governança e custos de transação em iniciativas de bioeconomia: implicações para o sistema filantrópico e para o desenho de iniciativas em transições sociotécnicas’. O documento traduz o framework em instrumentos de diagnóstico, como uma matriz para mapear transações e custos de governança, um roteiro de entrevistas com atores-chave e um guia de interpretação para priorizar o que mudar primeiro.
A proposta é simples: antes de financiar apenas a solução, tecnologia, planta ou produto, contribuir também para aumentar a capacidade de coordenação que reduz riscos, dá previsibilidade e protege investimentos específicos.
Se quisermos que a sociobioeconomia deixe de ser promessa e vire política pública e estratégia empresarial consistente, precisamos tratar governança como investimento, e não como burocracia. A filantropia pode ser a ponte entre a ambição do discurso e a engenharia institucional do mundo real.