Você se cansou, “queridinha”. Ah, você se cansou. Você chegou ao fim — é o terceiro mês em que os tremores nervosos não diminuem; de manhã, quando você acorda (ainda mais agora que acorda sozinha), a primeira coisa que sente é seu coração batendo acelerado sem conseguir acalmar — ainda bem que agora você dorme sem tranquilizantes, e aqueles terríveis ataques de vômito seco que não paravam durante noites a fio fazem-se lembrar só mesmo quando você enfia fundo a escova de dentes — um breve refluxo de ânsia, uma memória celular inconsciente de sua sujeição, idiota e imediata — no início ainda sussurrada e de forma apaixonada, mas, depois de algumas semanas, apenas como uma reprimenda seca: “Ponha na boca… Ponha mais fundo… Vamos, mais fundo!” — uma colher seca machuca a sua boca — sim, isso mesmo. No começo ela própria até tentava dar a entender, mostrar que ela também queria preliminares, e não só “lá embaixo”: nada mais interessa a você além dos órgãos sexuais? E: se você tinha planos para hoje à noite, nada o impedia de me avisar antes de eu ir dormir — em vez de ficar sentado cinzelando a sua arte, e, no mais, saiba que eu não gosto de me despir sozinha… Bem — prometeu ele, rindo —, amanhã nós faremos tal estreia! — o amanhã, porém, nunca chegou. Vem cá — mas eu tomei sonífero — ou seja, você vai dormir com “ele” dentro de você. Oh, Senhor, que horror isso. Por acaso é possível entender o mundo das pessoas que falam do próprio órgão sexual na terceira pessoa? Quando dizem para você — e esse homem só falava assim — “Abre ‘ela’”, você de pronto se desloca com todos os pensamentos para a mesa ginecológica — porque no caso não é “ela”, mas é você que se abre — ou se fecha: como neste caso — feito morta. Pois você sabe quantas mulheres eu já tive! — e nenhuma vez aconteceu de ser ruim! Pois sim, para você não, não foi — mas e para elas, alguma vez você perguntou? Eu também não imaginava que acontecia algo assim — algo somente ruim, só para você saber, querido! Por que é que você está me aborrecendo?, perguntou ele com um olhar estranho, vidrado, depois do amor, numa das primeiras noites, quando estava sentado fumando junto a seus pés, o que é isso? — enquanto você, estirada no travesseiro, segura de si, rindo baixinho, acariciava a cabeça dele com a sola do pé, você tinha pernas maravilhosas, todas as modelos de Saint Laurent, da casa Dior, com seus cambitos, diante da aparência dessas pernas deveriam ir se afogar o quanto antes; agora, você é assim, já é o segundo mês que você só usa calças, pois suas coxas estão dilaceradas como um mapa, um arquipélago de manchas de diversas cores, avermelhadas e marrons, escamosas e descamativas — cicatrizes, cortes, queimaduras, expondo à vista a história de nove meses (sim, nove meses!!!) de mad love, que acabou numa verdadeira madness, enquanto você simplesmente acariciava a cabeça dele com o pé, toda carinhosa, uma idiota de boca lambuzada, sem caráter, ele espetava a sola do seu pé com prazer, com a aspereza de seu cabelo “escovinha” — e de repente ele se virou ágil e apertou a sua perna contra a cama: É assim, é? Quer dizer que você gosta de me aborrecer? E se eu disser que gostaria de botar fogo em você agora? — aí você viu um isqueiro encostado atrás do seu joelho, e, em vez de gelar diante do medo — no momento em que flagrou pela primeira vez a apreensão daquele olhar, sem piscar, inumano, de alguma forma alterado, raivoso e irracional, no limite de um riso escancarado, com os caninos subitamente saltados de debaixo do lábio superior, um olhar interrogativo, do qual, a partir desse momento, você passou a se defender sempre — com risadas, tendo apenas estranhado um pouco, não de forma totalmente desperta — estranhado a que ponto a presença dele ensurdecia, como dinamite, dentro de você, todos os instintos de defesa, até esse momento já bem desenvolvidos, que emergiam como peixe de barriga virada, enquanto o rio continuava estremecendo — explosão seguida de explosão.

Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano
Oksana Zabuzhko
Trad. Emílio Gaudeda
Carambaia
176 páginas