
Mikako Fuse em uma de suas produções
Uma nova técnica de meditação criada no Japão propõe um ambiente inusitado para o relaxamento, fugindo dos tradicionais tapetes de yoga: um caixão.
A prática se chama “coffin-laying” e se baseia no kuyō, termo japonês que se refere a cerimônias de oferecimento de descanso aos mortos. A ideia é que os praticantes se deitem em urnas funerárias para contemplar a própria existência e se afastar da ansiedade.
Neste texto, o Nexo explica a origem do “coffin-laying” e analisa seus possíveis efeitos na saúde mental dos praticantes.
Inicialmente, a prática de deitar-se dentro de um caixão não surgiu como forma de meditação.
A iniciativa teve origem em 2024, na funerária “Kajiya Honten”, localizada na cidade de Futtsu, na província de Chiba, no leste do Japão. A proposta convidava clientes a tomarem um café dentro de um caixão enquanto refletiam sobre o próprio futuro.
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A ideia se baseava numa estratégia de marketing. Com ela, a empresa poderia reutilizar urnas funerárias e atrair novos clientes.
Em entrevista em 2024 ao jornal japonês The Mainichi, o presidente da companhia, Kiyotaka Hirano, então com 48 anos, disse que o projeto ganhou novo significado após ele ter conversas com clientes que haviam perdido entes queridos para o suicídio. A partir disso, surgiu o desejo de contribuir para a prevenção desses casos.
Ele procurou a empresa Grave Tokyo, da designer Mikako Fuse, para desenvolver novos modelos de caixões, com cores vivas e alegres. A proposta era associar uma imagem mais leve às urnas.
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Hirano afirmou que a experiência oferecida pela funerária também buscava reforçar o valor da vida.
“Sair deles [dos caixões] significa renascer e ter uma nova vida. Quero que as pessoas sintam que podem recomeçar”, disse.
Os números de suicídio no Japão são altos desde 2003. Em 2024, o país registrou um recorde de 527 casos entre estudantes do ensino fundamental e médio, segundo o Ministério da Saúde do país.
A proposta de Hirano viralizou e se tornou tendência entre os japoneses, sendo incorporada em práticas de meditação sob o nome de “coffin-laying”, de acordo com o jornal New York Post.
Vídeos publicados nas redes sociais mostram desde praticantes se preparando para as sessões até recomendações de locais especializados.
@notbobbies 16 days to go. It’s inspired by Korean and Thai traditions of lying in a coffin during a ritual to purge bad karma, and welcome a good life ahead. Costs $2 in Haw Par Villa. Interesting experience while walking trails of singapore. #sgculturepass #trailadventure #walkingtrail #thingstodoinsingapore
Outras publicações destacam os possíveis benefícios da prática para a saúde mental e o convívio social. Os relatos sugerem que o método pode ajudar os praticantes a encararem suas angústias dentro das urnas e, posteriormente, valorizarem momentos com pessoas próximas, com mais leveza e senso de gratidão.
@theangjoliemei Lying in a coffin for $14 might sound strange, but what if 5 minutes of darkness could change how you live? Japan’s onto something here 💭✨ #TheLifeCelebrant #KajiyaHonten #FuneralDirector #CoffinCafe #JapanViral
Com a consolidação da prática, espaços dedicados exclusivamente ao “coffin-laying” surgiram. Um exemplo é o Meiso Kukan Kanoke-in, spa localizado no bairro de Takadanobaba, no centro de Tóquio, inaugurado em 2026.
No local, os clientes podem escolher entre diferentes tipos de caixões e permanecer por até 30 minutos dentro da urna. O valor da experiência é de aproximadamente US$ 13.
Projetadas por Mikako Fuse, a mesma designer responsável pelos modelos da funerária Kajiya Honten, as urnas do spa apresentam estética vibrante, com cores intensas e diferentes padrões.
Durante a prática, é possível optar pelo caixão aberto ou fechado, ouvir músicas relaxantes e assistir a projeções no teto. Também há a opção de permanecer em silêncio e imóvel.
Em workshops realizados por Fuse em universidades como a de Kyoto, os jovens que participaram da experiência relataram redução do medo e uma oportunidade de autorreflexão, segundo o The Mainichi.
Apesar de não citar especificamente o “coffin-laying”, um estudo publicado em 2023 na revista científica BMC Medical Education investigou os possíveis efeitos de permanecer deitado dentro de um caixão.
No experimento, 134 estudantes de medicina e enfermagem de uma universidade em Taiwan foram divididos em dois grupos. Um deles permaneceu deitado em um caixão por três horas, enquanto o outro não participou da prática.
Antes e depois do procedimento, os pesquisadores avaliaram as emoções dos participantes.
Os resultados indicaram que o grupo submetido à experiência apresentou redução do medo e de emoções negativas relacionadas à morte. Além disso, notou-se um aumento nos sentimentos de afeto por familiares e amigos e maior percepção de sentido na vida.