Os acenos às tradições culturais coreanas no novo disco do BTS

Imagem de divulgação do álbum "Arirang", do BTS

Imagem de divulgação do álbum ‘Arirang’, do BTS

Estreou na Netflix na sexta-feira (27) o documentário “BTS: o reencontro”, que explica o processo de produção do novo disco “Arirang”, lançado pelo grupo sul-coreano após mais de três anos de espera dos fãs.

O nome “Arirang” vem de uma música tradicional homônima, que se tornou símbolo de identificação cultural na península coreana. O disco também carrega outras referências a momentos históricos do país.

Neste texto, o Nexo retoma a história e o sucesso do BTS, apresenta as referências coreanas tradicionais no álbum e explica de que maneira elas também se misturam com outros elementos internacionais.

O sucesso do BTS

O BTS – sigla para Bangtan Sonyeondan (“escoteiros à prova de bala”, da tradução em coreano) – foi criado no início dos anos 2010, composto por Jin, RM (líder do grupo), Suga, J-Hope, V, Jimin e Jungkook.

Os primeiros álbuns do grupo – “2 Cool 4 Skool” (2012) e “O!RUL8,2?” (2013) – apresentavam sonoridades focadas no rap, com letras mesclando inglês e coreano e abordando reflexões sobre a juventude.

O sucesso internacional veio com a trilogia de discos “The Most Beautiful Moment in Life”, lançada entre 2015 e 2016, que alcançou as listas de álbuns mais tocados daqueles anos da revista Billboard

Em 2017, o BTS estreou na TV americana ao participar do American Music Awards com a performance de “DNA”. Desde então, o grupo fez colaborações com artistas de outros países, como os britânicos do Coldplay em “My Universe” (2021) e a americana Halsey em “Boy With Luv” (2019).

Rapidamente, eles se tornaram o rosto do “Hallyu” (“onda coreana”, em português), termo que diz respeito ao projeto de expansão mundial da cultura pop sul-coreana, que inclui também o cinema e os k-dramas.

O grupo também passou a ter importância econômica. De acordo com um programa da rádio americana NPR (National Public Radio), o BTS injeta US$ 5 bilhões por ano na Coreia do Sul – o que corresponde a cerca de 0,5% da economia nacional. Seu sucesso impulsionou o turismo no país e o estudo da língua coreana.

A interrupção forçada

O hiato do grupo começou em 2022, quando seus membros tiveram que cumprir o alistamento militar obrigatório.

Na Coreia do Sul, todo homem saudável entre os 18 e os 28 anos precisa cumprir de 18 a 22 meses de serviço militar. As mulheres não são obrigadas a se alistar, mas podem ser voluntárias nas Forças Armadas.

O país está até hoje em guerra com a Coreia do Norte. As nações estão em armistício (suspensão temporária das agressões), mas um tratado de paz nunca foi assinado entre os dois países depois da Guerra da Coreia (1950-1953).

É possível adiar o alistamento até os 30 anos no caso de artistas de k-pop – como os do BTS – como que tenham recebido medalhas por divulgar a influência cultural e linguística da Coreia do Sul.

Jin, por ser o integrante mais velho do grupo, foi o primeiro a se alistar, em dezembro de 2022. Já o último a retornar foi Suga, que concluiu a obrigatoriedade em 21 de junho de 2025.

No período sem lançamentos do BTS, os músicos se dedicaram às suas carreiras solo.

2 bilhões

é o número de vezes que a canção “Seven”, de Jungkook, foi ouvida no Spotify; música solo é a mais bem-sucedida entre as dos membros do grupo

Em junho de 2025, antes do retorno de Suga, fãs se aglomeraram em frente a bases militares sul-coreanas para acompanhar o fim do alistamento de quatro dos sete integrantes do grupo.

As referências culturais

Em janeiro, a BigHit Music, empresa responsável por gerenciar a carreira do BTS, emitiu um comunicado detalhando o lançamento de “Arirang” e a turnê mundial que vai ocorrer como forma de divulgação do disco.

O álbum tem 14 faixas. Seu nome faz referência à canção tradicional de mesmo nome que passou a ser considerada símbolo de identificação coreana após a divisão da península asiática, na metade do século 20.

Um manuscrito de 1756, encontrado na atual região da província de Gangwon, na Coreia do Sul, contém o que estudiosos consideram a primeira referência a “Arirang”. O termo não é uma palavra do coreano moderno e sua origem é desconhecida. Alguns pesquisadores sugerem que “ari” significaria “bonito” e “rang”, “pessoa amada”.

Há diferentes variações regionais para a música, cuja letra expressa temas de separação, saudade, resiliência e amor. A versão mais conhecida da canção é “Bonjo Arirang”, popularizada pelo filme mudo “Arirang” (1926), dirigido por Na Woon-gyu, que carrega críticas ao domínio japonês na Coreia.

3.600

é o número aproximado de variações de “Arirang”

Ao longo do século 19, o termo foi de canção folclórica regional para símbolo da identidade coreana. Isso ocorreu ao mesmo tempo que se deu a ocupação japonesa do país (1910-1945), quando a língua e a cultura coreana foram oprimidas.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a guerra das Coreias, instaurou-se uma divisão política e cultural na península. Apesar disso, “Arirang” continua a ser entoada nas duas nações.

No caso da Coreia do Norte, a canção deu origem ao Festival Arirang, que combina música e ginástica. Já na Coreia do Sul, a canção foi entoada durante a ditadura militar que o país viveu entre os anos 1960 e 1980.

No disco do BTS, a canção “Arirang” é referenciada na faixa “Body to Body”. O grupo também mencionou “손에 손잡고 (Hand in Hand)”, música-tema dos Jogos Olímpicos de 1988, sediados em Seul, como inspiração para a canção. 

Há ainda outras faixas que carregam referências a canções tradicionais e momentos da história da Coreia do Sul.

Em “Aliens”, fala-se em Kim Gu (1876-1949), um dos líderes do Movimento de Independência do país contra a ocupação japonesa, por exemplo. 

Já “No.29” é uma gravação do sino do rei Seongdeok, construído em 771 pelo reino Silla, que unificou a Coreia sob a dinastia Silla Unificada (668-935). O objeto é considerado o 29° tesouro nacional do país.

A equipe de marketing do grupo sul-coreano também fez referências às tradições coreanas.

Num trailer de divulgação do novo álbum, há um tributo aos sete homens que cantaram “Arirang” quando chegaram à Universidade de Howard, em Washington, em 1896. Três deles participaram daquela que é considerada a primeira gravação em áudio de uma música coreana nos Estados Unidos. 

Os elementos internacionais

Além das referências ao país de origem dos membros, o álbum do BTS carrega outros elementos internacionais.

A maioria dos produtores e escritores das músicas inclui nomes como Diplo, dos Estados Unidos, e Kevin Parker (conhecido pela banda Tame Impala), da Austrália.

A melodia das músicas tradicionais coreanas é acompanhada de elementos de gêneros como hip-hop, pop-rock, funk, R&B e EDM. 

Alguns fãs ficaram desapontados com o álbum por esperar mais faixas em coreano — expectativa alimentada pelo marketing do retorno. Na maioria das músicas do novo lançamento, o inglês é o idioma mais falado.

“Swim”, por exemplo, é cantada totalmente em inglês, assim como outros singles anteriores de divulgação de álbuns, como “Dynamite”, “Butter” e “Permission to Dance”, que tiveram sucesso internacional. 

A recepção do álbum

A avaliação de “Arirang” é 83 de 100 no Metacritic, site que agrega avaliações de críticos sobre filmes, álbuns e jogos. O número se baseia em nove análises.

A pior nota — 5,3 de 10 — foi do crítico coreano-americano Joshua Minsoo Kim, que, no site Pitchfork, escreveu que as novas músicas são genéricas, sem emoção e representantes do desejo por validação ocidental e domínio global.

Para o crítico, “Body to Body” é a única canção que aborda de forma significativa os conceitos temáticos pretendidos sobre a identidade cultural coreana. 

“[A música] ‘Arirang’ há muito funciona como um hino polissêmico – de profunda saudade, resiliência coletiva e até mesmo da reunificação da Coreia do Norte e do Sul. Para um álbum tão vazio, brandir ‘Arirang’ como um estandarte de triunfo faz com que qualquer orgulho pareça vazio – uma aceitação do ‘bom o suficiente’ como identidade nacional”, escreveu.

Em artigo para a revista Teen Vogue intitulado “Quem decide se o álbum do BTS ‘Arirang’ é coreano o suficiente?”, a jornalista Jiye Kim escreveu sobre as contradições do disco e as expectativas para que o grupo explorasse suas raízes.

Para ela, não basta que um artista use instrumentos tradicionais e fale sua própria língua para ser considerado, de fato, coreano.

“O BTS, por meio da natureza aparentemente contraditória do título do álbum e das músicas que o compõem, nos lembra que é bom preservar a própria cultura, mas também é bom continuar a revitalizá-la e torná-la um exemplo nobre e reverenciado, acessível e pessoal.”