
Membros do Brazil LAB no Science @ Scale, da esquerda para a direita: Rodrigo Simon de Moraes, Bárbara Flores Borum-Kren, Sílvio Sanches Barreto Bará, Marina Hirota, Justino Sarmento Rezende Tuyuka, Agustín Fuentes e Cristina Caldas
No dia 13 de fevereiro, pesquisadores indígenas brasileiros afiliados ao Brazil LAB e ao Departamento de Antropologia da Universidade Princeton (EUA) — o antropólogo Justino Sarmento Rezende (Tuyuka), o antropólogo Sílvio Sanches Barreto (Bará) e a pesquisadora ambiental Bárbara Nascimento Flores (Borum-Kren) —, ao lado da cientista do clima Marina Hirota, apresentaram seus trabalhos no painel “Indigenizing Conservation Science and Restoration: Collaborative Perspectives from Brazil” (na tradução em português – “Indigenizando a Ciência da Conservação e Restauração: Perspectivas Colaborativas a partir do Brasil”).
O painel aconteceu no Science @ Scale, encontro anual da AAAS (Associação Americana para o Desenvolvimento da Ciência), realizado entre 12 e 14 de 2026 em Phoenix, no Arizona (EUA).
A sessão da AAAS constitui o mais recente marco do coletivo de pesquisa Indigenizing Conservation Science — uma equipe multidisciplinar apoiada por Princeton, para a qual metodologias, teorias e práticas indígenas são fundamentais para uma ciência da conservação socioecológica mais holística. Em parceria com o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da Universidade Federal do Amazonas, as bases intelectuais do coletivo foram apresentadas à comunidade científica global em 12 de novembro de 2024, com a publicação do artigo “Indigenizing Conservation Science for a Sustainable Amazon” na revista Science.
O artigo argumenta que a proteção da Amazônia exige que a ciência ocidental se envolva de maneira efetiva com os conhecimentos indígenas — combinando a conservação baseada em ciência com práticas de restauração e de diversidade biocultural dos povos indígenas. Ao ir além de visões antropocêntricas e utilitaristas da natureza, o texto mobiliza princípios cosmopolíticos indígenas do Alto Rio Negro para destacar estruturas relacionais baseadas na reciprocidade, na coexistência multiespécies, na gestão territorial e nas relações cíclicas entre os domínios aéreo, terrestre e aquático. Propõe, ainda, que a colaboração transdisciplinar pode expandir perguntas científicas, métodos e abordagens políticas, oferecendo caminhos mais holísticos para a conservação e a restauração.
“Cientistas ao redor do mundo começam a reconhecer que os sistemas de conhecimento indígena e ocidental podem atuar conjuntamente para enfrentar a devastação ambiental, mas a visão antropocêntrica e utilitarista da natureza ainda prevalece no campo científico”, afirmou João Biehl, diretor do Brazil LAB e chefe do Departamento de Antropologia da Universidade Princeton.
“Mesmo ações de conservação que promovem o valor intrínseco da biodiversidade geralmente não levam em conta práticas preexistentes e relações históricas entre humanos e outras espécies, como na concepção indígena de natureza”, complementa Biehl.
Justino Sarmento Rezende (Universidade Federal do Amazonas) defendeu a urgência de articular as ciências indígenas e ocidentais para enfrentar as mudanças climáticas. Para Rezende, a Terra é uma grande casa cósmica compartilhada por seres humanos, florestas, águas e todas as formas de vida — fundamento mesmo da ciência indígena, que emerge da convivência, da observação e da participação no movimento contínuo da natureza. Ele enfatizou que a floresta amazônica, tal como a conhecemos, é em si evidência de milênios de manejo indígena, moldada por técnicas de gestão da paisagem, agroflorestas e cultivo de plantas que remontam a pelo menos 12 mil anos. Rezende defendeu um diálogo genuíno entre sistemas de conhecimento baseado não na subordinação, mas na reciprocidade e na coautoria, concluindo com um apelo: “Somente juntos poderemos cuidar melhor do nosso mundo.”
Sílvio Sanches Barreto (Universidade Federal do Amazonas) centrou sua apresentação no conceito de “pousio epistemológico”, um arcabouço que desenvolveu para colocar em diálogo conhecimentos indígenas milenares e a ciência ocidental. A partir do método indígena do i’ña’oro (observação), Barreto descreveu como áreas em pousio nos territórios indígenas do Alto Rio Negro são deixadas em descanso para a regeneração do solo e da floresta antes que as famílias retornem para cultivar mandioca e árvores frutíferas — prática em grande medida conduzida por mulheres e que funciona simultaneamente como técnica agrícola, repositório de memória e identidade e sistema de parentesco. Ele argumentou que a roça — o pequeno campo cultivado — constitui um patrimônio tanto material quanto imaterial da humanidade, oferecendo caminhos concretos para a segurança alimentar, a soberania indígena e um futuro sustentável para a Amazônia.
Bárbara Nascimento Flores (Instituto Serrapilheira) iniciou sua apresentação argumentando que os biomas não existem de forma isolada — que a fragmentação territorial é um fenômeno recente e colonial, e que a ruptura da conectividade ecológica compromete não apenas os corredores biológicos, mas também as memórias bioculturais acumuladas ao longo de milhares de anos. No centro de sua argumentação está a ideia de que processos de retomada territorial indígena desencadeiam cascatas socioecológicas positivas: processos nos quais a recuperação de um elemento da rede desencadeia reações em cadeia na biodiversidade, na soberania alimentar, na saúde comunitária e nas economias locais, contribuindo para a estabilidade climática regional e continental. Ela propôs a noção de “engenharia dos sonhos” — um processo coletivo de reterritorialização no qual proteger a biodiversidade não significa remover pessoas da paisagem, mas fortalecer as relações que historicamente a produziram.
Moderando a sessão, Marina Hirota destacou seu significado mais amplo: “Ter essas vozes presentes em uma conferência dedicada ao avanço da ciência é profundamente emblemático. Isso indica que estamos abrindo espaço para que os fóruns científicos se tornem não apenas diversos, mas verdadeiramente plurais. A diversidade, por si só, não é suficiente sem pluralidade — sem que as vozes sejam ouvidas em condições de igualdade, com ouvidos igualmente abertos.”
Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Princeton e membro do comitê de programação da Associação Americana para o Avanço da Ciência, Agustín Fuentes observou que “este evento na AAAS demonstra a capacidade da comunidade científica mais ampla de se engajar de forma eficaz e genuína com os conhecimentos e cientistas indígenas, e de transformar a maneira como compreendemos a ciência. Pensar em conjunto — a partir de diferentes origens, histórias, modos de vida e geografias — nos permite pensar de maneira mais ampla e mais profunda.”
Também integrou o grupo em Phoenix a imunologista e diretora de programas do Instituto Imbuzeiro Cristina Caldas, que destacou “a clara importância de ter esses pensadores em espaços onde temas inovadores são debatidos e a conexão do grupo com representantes indígenas Inuit de Inukjuak, no norte de Quebec. Esse tipo de intercâmbio pode ser extremamente poderoso para avançar o reconhecimento dos povos indígenas como produtores de conhecimento.”
Após a reunião da AAAS, o grupo seguiu para a Universidade de Princeton para uma semana de atividades organizadas pelo Brazil LAB. Na cidade, os pesquisadores também visitaram o FACT (Forest & Climate Training initiative) no campus do colégio Princeton Academy. No encontro, os visitantes brasileiros ensinaram aos estudantes canções e danças tradicionais para lembrar aos presentes a importância de respeitar a natureza e conservar florestas, cursos d’água e a vida selvagem. “Foi um dia que nenhum estudante ou professor esquecerá”, disse a Dra. Patricia Shanley, diretora de Stewardship da Ridgeview Conservancy.
“Esses encontros foram muito importantes na minha trajetória como cientista indígena. Eles fazem parte de um esforço contínuo de indigenizar a ciência ocidental com a nossa própria ciência. Falar de ‘encapoeiramento epistemológico’ na Amazônia dentro da ‘casa da ciência ocidental’ é demonstrar a importância de uma prática cultural que, há milênios, contribui para enfrentar as mudanças climáticas”, disse o pesquisador Sílvio Sanches Barreto.