
Retrato de Harriet Taylor Mill
“Sobre a liberdade” (1859) permaneceu assinado durante mais de 150 anos somente com o nome do escritor, filósofo e economista John Stuart Mill. Em 31 de março, o livro chegará pela primeira vez às prateleiras com um segundo nome: Harriet Taylor Mill, filósofa e esposa do britânico.
Harriet Taylor Mill é uma entre diversas mulheres que participaram da criação de obras – transcrevendo manuscritos e dando suas opiniões sobre os trechos – mas não foram reconhecidas por isso.
Neste texto, o Nexo apresenta os indícios da autoria de Harriet Taylor no texto “Sobre a liberdade”, o movimento pelo reconhecimento das esposas de grandes autores e como o assunto foi abordado na ficção.
Nascida em uma família aristocrática de Londres, Harriet era casada com John Taylor quando passou a se relacionar John Stuart Mill em 1831, época em que ele já era conhecido por seus trabalhos políticos no Reino Unido.
A relação entre os dois era, ao mesmo tempo, romântica e intelectual. Harriet e John Stuart Mill debatiam conceitos políticos e econômicos – em especial, sobre os direitos das mulheres, causa defendida pela britânica.
Dois anos após a morte de Taylor, em 1851, os dois se casaram em uma união considerada escandalosa para a época, já que o relacionamento havia começado ainda durante o primeiro casamento de Harriet.
A influência do pensamento de Harriet nas obras do economista foi alvo de debate durante décadas. Enquanto alguns biógrafos e pesquisadores afirmavam que ela havia o influenciado, outros defendiam o oposto, pontuando que a esposa não exercia qualquer influência sobre as obras.
Pesquisadores sugerem que os dois trabalharam em diferentes obras, como “A sujeição das mulheres” (1869) – que em algumas edições brasileiras traz o nome de ambos, e em outras não.
A editora americana Hackett Classics é a primeira a dar destaque para a filósofa em “Sobre a liberdade”, texto que discute liberdade individual e progresso.
A nova edição foi fruto de uma pesquisa publicada em 2021 na revista Utilitas, da Universidade de Cambridge, que debatia a necessidade de atualizar o cânone.
Segundo os pesquisadores Christoph Schmidt-Petri, Michael Schefczyk e Lilly Osburg, que também participaram da edição do novo volume, há duas posições clássicas sobre o assunto:
Os pesquisadores aplicaram análise estilométrica no texto, uma técnica computacional que identifica o estilo de um autor com base na frequência de palavras funcionais (como “e”, “ou”, “o”).
Os resultados sugerem que John Stuart Mill não escreveu “Sobre a liberdade” sozinho, e que sua esposa provavelmente redigiu partes do terceiro capítulo e contribuiu com o quinto, o que justificaria sua coautoria nas edições modernas da obra.
Em sua autobiografia, Mill abordou a influência da esposa no livro, escrevendo que “com relação aos pensamentos [expressos no livro], é difícil identificar qualquer parte ou elemento específico como sendo mais dela do que os demais. Todo o modo de pensar que o livro expressava era, enfaticamente, dela. Mas eu também estava tão imbuído dele que os mesmos pensamentos nos ocorreram naturalmente”.
Em 2017, o professor americano de literatura Bruce Holsinger reparou no fato de que muitas teses acadêmicas apresentavam agradecimentos às esposas – frequentemente sem mencionar seus nomes – por escrever, transcrever ou pesquisar trechos para seus companheiros.
Holsinger inaugurou a hashtag #Thanksfortyping para discutir a falta de reconhecimento das mulheres nos trabalhos acadêmicos dos quais fizeram parte.
A discussão foi além do mundo acadêmico conforme usuários relembravam as histórias de esposas de grandes autores que exerceram diferentes papéis: tradutoras, revisoras, leitoras ou transcritoras.
Enquanto alguns autores contratavam mulheres para essas funções, outros faziam com que suas esposas, mães ou filhas realizassem o trabalho sem remuneração. O trabalho era muitas vezes feito em casa, enquanto elas conciliavam tarefas domésticas com o cuidado com os filhos.
Na casa de Lev Tolstói, autor de “Guerra e paz” e “Anna Kariênina”, duas mulheres atuaram como transcritoras: sua filha Alexandra e sua esposa Sófia, com a qual teve um casamento turbulento. Esta última é creditada por ter atuado como copista de “Guerra e paz”, reescrevendo sete vezes à mão o livro de mais de mil páginas.
Sófia também produziu obras próprias. Uma delas foi uma resposta ao livro “A sonata Kreutzer” (1889) – em que Tolstói narra a história de um homem que assassina a esposa por ciúme – censurado na época e considerado um retrato do casamento infeliz dos dois.
O manuscrito da russa, cuja veracidade foi contestada durante anos, foi incluído em uma versão de “A sonata Kreutzer” publicada pela editora da Universidade de Yale, que reuniu trechos de cartas, diários, anotações e memórias da família.
Véra Nabokov também transcrevia os manuscritos do marido Vladimir (autor de “Lolita”), lia os primeiros manuscritos do escritor, dando sugestões, lidava com a correspondência do marido, negociando os contratos com editoras, e enviava contos para revistas.
Já no caso da francesa Gabrielle Colette, autora de “Gigi”, ela era obrigada pelo marido Henry Gauthier-Villars, conhecido como Willy, a passar longas horas em casa escrevendo. As obras eram assinadas com o nome de Willy, que recebia todo o reconhecimento.
O casamento dos dois era infeliz e Colette decidiu pedir o divórcio. Com a separação, ela iniciou uma batalha judicial para recuperar os direitos autorais das obras, enquanto o ex-marido negava que a francesa tivesse tido qualquer participação nos livros.
O tema também chegou ao cinema através de “A esposa” (2017), dirigido por Björn Runge e baseado no romance homônimo de Meg Wolitzer.
No longa, que se passa na década de 1990, o casal Joan (Glenn Close) e Joe Castleman (Jonathan Pryce) embarca para Estocolmo, onde o marido irá receber o prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.
A viagem é marcada por conflitos, causados em parte pelo comportamento de Joe, que é extremamente dependente da esposa, e pela presença de Nathaniel Boone, escritor que pretende fazer uma biografia do novo Nobel.
Boone acredita que Joe não é o verdadeiro autor das obras premiadas, mas sim Joan. O filme passa a revelar fragmentos do passado dos dois, entre as décadas de 1950 e 1960, quando Joan era aluna de Joe e mostrava ser uma escritora promissora, talento que abandonou para apoiar o marido.
Glenn Close venceu o Globo de Ouro de 2019 na categoria Melhor Atriz em filme dramático por sua atuação em “A esposa” e foi indicada ao Oscar no mesmo ano, o qual perdeu para Olivia Colman (por “A favorita”).
85%
é a aprovação de críticos ao filme “A esposa” no site Rotten Tomatoes, que agrega avaliações de profissionais especializados
Em seu discurso na cerimônia do Globo de Ouro, Close disse que a personagem que interpretou a lembrava de sua própria mãe, que “se invisibilizou por causa de meu pai a vida toda”.
“Sinto que o que aprendi com essa experiência é que as mulheres são cuidadoras, é isso que é esperado de nós. Com sorte, temos nossos filhos, nossos maridos ou parceiros, mas temos que encontrar nossa realização pessoal, seguir os nossos sonhos. Temos que dizer: ‘Eu posso fazer isso, e deve ser permitido que eu faça'”, afirmou.