
Flávio Bolsonaro discurso em evento da CPAC, nos EUA
O senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência, pediu no sábado (28) “pressão diplomática” dos Estados Unidos “para que as instituições funcionem adequadamente” no Brasil e que, assim, as eleições no país tenham “valores de origem americana”.
No discurso na CPAC (Ação Política Conservadora, da sigla em inglês), evento da extrema direita americana realizado no Texas, o bolsonarista afirmou que o “Brasil é a solução para que os EUA não dependam da China”, referindo-se ao acesso aos minerais críticos e de terras raras, dominados pelo gigante asiático. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo.
Neste texto, o Nexo fala sobre as tentativas de interferência de Donald Trump em assuntos internos de outros países e analisa, com especialistas, a articulação bolsonarista nesse sentido.
Ao longo de 2025, Donald Trump interferiu política e eleitoralmente em diversos países. O presidente americano fez pressão diplomática e econômica, impôs tarifas, ameaçou invasões, criticou alguns políticos e anunciou apoio a outros abertamente.
Em dezembro, o governo dos EUA divulgou a sua Estratégia Nacional de Segurança, destacando o Corolário à Doutrina Monroe — ou como também foi chamada: Doutrina Donroe, numa mistura dos nomes Donald e Monroe.

Reprodução da capa do jornal americano New York Post associando Trump à doutrina Monroe
A doutrina atualiza a política americana para a América Latina, anunciada pela primeira vez em 1823 pelo então presidente James Monroe como um alerta a nações europeias: a partir dali, intervenções nas Américas não seriam mais toleradas, estabelecendo a ideia de que essa região seria zona de influência dos Estados Unidos.
Essa política foi atualizada algumas vezes ao longo da história para justificar o intervencionismo americano na região.
Trump ameaçou retomar o Canal do Panamá e anexar a Groenlândia. Bombardeou navios no Mar do Caribe, alegando se tratar de narcotraficantes, sem apresentar provas, e invadiu a Venezuela e sequestrou o então presidente Nicolás Maduro, hoje preso nos EUA. Após iniciar uma guerra com o Irã, ele passou a sugerir que vai derrubar o governo de Cuba.
Num movimento menos brusco, porém não menos intervencionista, Trump afirmou em outubro de 2025 a jornalistas que a ajuda financeira à Argentina dependia do sucesso eleitoral do presidente argentino, Javier Milei, na eleição legislativa, o que acabou ocorrendo.
Um mês depois, o presidente americano anunciou nas redes sociais apoio ao conservador Nasry Asfura, que acabou vencendo uma eleição presidencial controversa em Honduras. A contagem de votos foi suspensa por dias e, ao ser retomada, Asfura estava em vantagem e venceu.
Em abril de 2025, o governo Trump impôs tarifas sobre produtos exportados de cerca de 180 países para os EUA, impactando o comércio global e pressionando a reorganização das cadeias de suprimentos.
Em julho, os EUA interferiram politicamente no Brasil ao estabelecer sobretaxas de 50% para produtos brasileiros — a maior entre todos os países —, sob justificativa política: era uma retaliação à ação penal por tentativa de golpe de Estado então em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de primeira hora de Trump.
Também suspenderam vistos de entrada no país e impuseram a Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator do julgamento que condenou Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão.
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As sanções contra o Brasil e contra autoridades brasileiras foram articuladas pelo deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Bolsonaro, que vive desde fevereiro de 2025 nos EUA. Ele é um dos articuladores da extrema direita mundial e tem feito um périplo com o irmão, Flávio, para inseri-lo nesse meio visando as eleições de outubro.
Em meio ao tarifaço, a relação entre Brasil e os EUA atingiu um dos piores níveis da história.
À época, o governo Lula encampou o discurso de defesa da soberania nacional e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ameaçou usar a Lei de Reciprocidade Econômica às importações americanas. Enquanto isso, buscou negociar com a administração Trump e também estimulou empresários e entidades setoriais a mostrarem à Casa Branca os efeitos da medida.
Pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg de julho de 2025, no auge da crise do tarifaço ao Brasil, apontou que a postura de Lula em relação à tarifa dos EUA foi bem recebida pelos brasileiros. Já o presidente americano foi mal avaliado.
44,8%
dos brasileiros acharam a resposta do governo Lula adequada
62,2%
dos brasileiros acharam a taxa de Trump injustificada
50,3%
dos brasileiros disseram que o tarifaço configura uma ameaça à soberania nacional
60,2%
dos brasileiros disseram aprovar a política externa de Lula
61,1%
dos brasileiros responderam que o atual presidente representa melhor o Brasil internacionalmente do que Bolsonaro
Um encontro entre Lula e Trump na 80ª reunião da Assembleia-Geral da ONU, em setembro, seguido de conversas telefônicas e uma reunião na Malásia em outubro aliviou as tensões. Posteriormente, as sanções econômicas e a Lei Magnitsky foram retiradas.
O cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), avaliou ao Nexo que, além de novas sanções decorrentes da investigação comercial da Seção 301 da Lei de Comércio contra o Brasil, a estratégia mais provável, caso Trump decida jogar seu peso contra Lula, seria a classificação de grupos de crime organizado, como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), como organizações terroristas.
“Além de produzir um impasse diplomático, já que o Itamaraty rejeita essa classificação como uma forma de violação da soberania, uma medida como essa ajudará na narrativa bolsonarista que tenta não só colocá-los como aliados preferenciais dos EUA, mas também buscam associar o governo Lula — e a esquerda como um todo — ao crime organizado”, disse.
A Seção 301 autoriza o presidente americano a tomar medidas contra países que violem regras internacionais de comércio ou que adotem medidas que restrinjam o comércio com os EUA. Essa investigação trata, entre outras coisas, do Pix e da Rua 25 de Março.

Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca
Para Carlos Melo, professor de ciência política do Insper, a interferência do governo Trump na eleição brasileira pode ocorrer de forma indireta, como a atuação de uma consultoria ligada à extrema direita ou de empresas agindo nas redes sociais para beneficiar Flávio Bolsonaro, e não de forma explícita. Ele avaliou, todavia, que seria “um erro” de Flávio trazer Trump para a sua campanha.
“Trump não tem uma imagem positiva em lugar algum, nem nos EUA”, afirmou ao Nexo.
A popularidade do republicano está em declínio desde a posse em janeiro de 2025. Hoje, ele é desaprovado por 56% dos americanos, segundo o agregador de pesquisas do jornal The New York Times. Alguns levantamentos apontam para desaprovação de mais de 60%.
A tentativa de interferência de Trump no Canadá não surtiu o efeito desejado por ele. O presidente dos EUA sugeriu anexar o Canadá, como 51º estado americano, e anunciou apoio ao conservador Pierre Poilievre nas eleições em abril de 2025. Isso não ajudou o aliado e o liberal Mark Carney acabou eleito como primeiro-ministro canadense.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, fortaleceu a popularidade dela dentro e fora do país ao lidar de maneira firme com Trump. O presidente dos EUA impôs inúmeras tarifas ao México, alegando problemas de narcotráfico à balança comercial americana.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também viu subir sua popularidade ao entrar em embate com Trump. A eleição presidencial colombiana está prevista para 31 de maio. Petro não pode concorrer devido ao impedimento constitucional da reeleição, mas seu candidato, o senador Iván Cepeda, está liderando as pesquisas.
Já no Brasil, uma pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 13 de março, mostra que o apoio de Trump à candidatura de Flávio Bolsonaro pode surtir efeito contrário.
Questionados sobre o impacto do potencial endosso de Trump a Flávio na eleição, 32% afirmaram que isso aumentaria as chances de votar no presidente Lula, ante 28% que responderam aumentar a possibilidade de escolher o senador.
Outros 19% disseram que o apoio de Trump ao bolsonarista aumentaria a chance de votarem em um candidato que não seja Lula ou Flávio. Já 14% afirmaram que a chancela do americano não mudaria o voto ou não faria diferença e 7% não souberam ou não responderam.
Casarões afirmou que, no atual contexto, Lula terá o desafio de mostrar que é possível cooperar com os EUA de maneira altiva e pragmática.
O professor da Florida International University acrescentou que é essencial para a narrativa de Flávio Bolsonaro o reforço das relações simbólicas e práticas entre trumpismo e bolsonarismo, mesmo com os reveses recentes na questão das tarifas e sanções.
“A subserviência aos EUA dificilmente renderá votos adicionais a Flávio, mas o ajudará a reforçar a base bolsonarista e dará à sua campanha alguns motes importantes contra o atual governo, sobretudo na questão da segurança pública”, disse.
Melo avaliou que essa subserviência pode até surtir algum efeito positivo dentro da bolha bolsonarista, mas dificilmente agregará voto fora dela. O professor do Insper explicou que, com os votos em Lula e em Flávio cristalizados, a disputa será por uma quantidade pequena de eleitores que não se identificam com nenhum dos lados e para os quais esse apoio de Trump pode não surtir qualquer efeito.
“Esses eleitores vão votar naquele que seja menos ruim para eles”, disse Melo. “O que vai definir essa eleição é a rejeição”.