O site que transforma qualquer texto em post do LinkedIn

Celular mostrando a tela inicial do LinkedIn

Celular mostrando a tela inicial do LinkedIn

No LinkedIn, uma demissão (ou “desligamento”) que deixou a vida de alguém de ponta cabeça pode ser descrita como a chance de “iniciar um novo ciclo” e “começar um período de reflexão sobre os próximos passos”. 

A rede social focada no mundo profissional ficou conhecida por textos eufemísticos, otimismo extremo e hashtags para explorar engajamento. Diante desse cenário, um site com uma interface parecida com a do Google Tradutor aproveitou para converter qualquer tipo de texto em uma linguagem cheia de jargões corporativos.

O tradutor de ‘corporativês’

O Kagi Translate foi criado em 2024 e afirma usar uma combinação de LLMs (grandes modelos de linguagem, da sigla em inglês) para fazer traduções melhores do que as de outros serviços do tipo. 

Além disso, o site converte textos em formas diferentes de se comunicar. Se você acionar a alternativa Emoji Speak, por exemplo, ele transforma qualquer frase em uma sequência de emojis.

O LinkedIn Speak (ou a “língua do LinkedIn”) foi adicionado em 2026. Ele funciona como os outros idiomas do tradutor, como inglês ou espanhol, de maneira que uma pessoa pode inserir um texto e receber uma tradução para o jargão, em inglês).

Por exemplo, caso você tenha sido demitido e esteja muito triste com isso, pode pedir uma tradução da situação para a língua da plataforma.

“Estou começando um novo capítulo! 🚀 Ontem, encerrei meu ciclo na minha empresa anterior. Embora tenha sido uma transição inesperada, sou extremamente grata por todo o crescimento e pelos colegas incríveis que conheci ao longo do caminho. Agora, estou tirando um tempo para refletir e recarregar as energias antes de mergulhar no meu próximo grande desafio. Estou oficialmente #DisponívelParaTrabalhar e animada para contribuir com minhas habilidades em uma nova equipe! Se você souber de alguma oportunidade ou simplesmente quiser tomar um café virtual, vamos nos conectar! #AtualizaçãoDeCarreira #NovosComeços #Resiliência #Networking”, traduz o site.

O tradutor de linguagem corporativa começou a ficar popular nas redes sociais em março. Pessoas começaram a compartilhar os resultados de suas perguntas para o site.

Um usuário na rede social X compartilhou que, ao pedir uma tradução para “eu fui preso por fraude”, recebeu como resposta o seguinte texto: “Hoje encerro um ciclo desafiador que me trouxe aprendizados valiosos sobre conformidade e resiliência. Sou grato pela oportunidade de refletir sobre ética e governança, transformando esse obstáculo em uma jornada de crescimento pessoal e profissional. #AprendizadoContínuo #Compliance #Resiliência #NovosDesafios”.

Além da tradução de idiomas, o Kagi Translate também revisa textos, consulta palavras no dicionário e traduz sites inteiros.

A linguagem da plataforma

Em entrevista ao site Fast Company, Giorgio Brullo, chefe de tradução da Kagi, afirmou que o LinkedIn Speak pareceu uma adição natural devido à proliferação do estilo de comunicação distinto da rede social.

“Temos lançado novos recursos continuamente, mantendo um espírito divertido, adicionando modos de tradução interessantes como a ‘língua pirata’, a ‘língua do Reddit’, idiomas fictícios e, mais recentemente, a ‘língua do LinkedIn’”, disse.

O “corporativês” – conjunto de palavras, em geral estrangeiras, que se popularizaram no mundo corporativo, como “feedback” ou “mindset” – da plataforma fez com que influenciadores começassem a viralizar com ensinamentos sobre como traduzir sentimentos para uma linguagem mais compatível com o mundo empresarial.

Um exemplo de comunicadora que fez sucesso com esses vídeos é a publicitária Fernanda Mattos, que viralizou em 2023 ao explicar como “insultar de maneira corporativa”. Ela propôs o seguinte diálogo caso alguém esteja sendo muito chato: “Você não recebeu notícias minhas porque eu não tenho novidades sobre esse tema, mas assim que eu tiver uma atualização eu vou alinhar com você”.

A professora e linguista Jana Viscardi, em entrevista ao site Gama Revista em 2024, afirmou que os textos no LinkedIn se confundem com práticas publicitárias, em que há um “marketing de si mesmo”. A prática é intensificada pelo fato de que a plataforma reúne possíveis contratantes, o que gera uma sensação de estar sendo observado e de precisar mostrar sua melhor versão.  

A dinâmica é incentivada pela plataforma, que incentiva postagens abordando projetos, lições aprendidas e os desafios, uma maneira de fazer com que outros profissionais – e o algoritmo do LinkedIn – impulsionem o perfil do autor.

“As pessoas vão construindo essas narrativas sobre a própria trajetória para que outros possam acompanhar e isso se transformar num diálogo”, disse Viscardi.