Qual é a estratégia por trás de usar perfis de fofoca na política

Celular com Instagram. Imagem de uma mão segurando um celular

Celular com Instagram

Desde o final de 2025, usuários passaram a chamar a atenção para postagens de páginas de fofoca no Instagram sobre acontecimentos políticos. Perfis como Alfinetei – com mais de 25,4 milhões de seguidores – tecem críticas ao governo Lula e elogiam políticos de extrema direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). 

As redes sociais se tornaram parte importante das estratégias de campanhas eleitorais. De acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a empresa que mais recebeu recursos nas eleições de 2022 e 2024 foi a subsidiária da Meta no Brasil, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp. 

Neste texto, o Nexo apresenta as publicações políticas em páginas de fofoca, explica a estratégia de redes e mostra o peso das redes sociais no marketing político. 

Política em páginas de fofoca 

Os perfis de fofoca nas redes sociais costumam ter uma alta frequência de publicações por dia, com bastante engajamento com o público e sobre os mais diversos assuntos. A Alfinetei, por exemplo, é a 46º conta brasileira mais seguida no Instagram. A página está à frente de perfis como da cantora Claudia Leitte (25,1 milhões) e próxima ao do padre Fábio de Melo (25,6 milhões). 

Somente na segunda-feira (30), a Alfinetei fez 46 postagens em seu feed. As publicações iam desde informações sobre o reality show Big Brother Brasil e o retorno da novela “Avenida Brasil”, ambos da TV Globo, até notícias sobre a vida de famosos e influenciadores. Conteúdos políticos também estavam nas postagens. 

Publicações do Caso Master

O aumento do conteúdo político em páginas de fofoca começou com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025. A partir do mês seguinte, cerca de 46 perfis fizeram ataques coordenados e simultâneos aos investigadores do caso e à autarquia federal, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro

4.560 

foi o número de posts com ataques ao Banco Central em 27 de dezembro, de acordo com levantamento da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) 

Um dos nomes mais citados na ofensiva foi o de Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, que encerrou seu mandato em dezembro. Ele foi contra a compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília). 

Com o desenrolar da investigação sobre Vorcaro, perfis de fofoca como o Divas do Humor (5,2 milhões de seguidores) e o Comuacim (4,1 milhões de seguidores) apagaram publicações contra o BC e Gomes. Os influenciadores de direita Rony Gabriel, vereador pelo PL em Erechin (RS), e a jornalista Juliana Moreira Leite, afirmaram em vídeos que foram contatados para seguir com os ataques, mas recusaram. 

Postagens políticas

Em meio às 46 postagens de segunda-feira (30), a Alfinetei publicou uma notícia sobre a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, para a aplicação de multas contra caminhoneiros que bloquearam rodovias após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022. A imagem teve o maior engajamento do dia, com mais de 88,4 mil curtidas e 14,6 mil comentários até às 14h de terça-feira (31).

Na mesma data, a Alfinetei postou uma reportagem do canal CNN Brasil, em que mostra a diminuição da distribuição do Bolsa Família, programa característico do governo Lula, na cidade de Bento Gonçalves (RS), pelo aumento de vagas de emprego. 

O modus operandi de páginas menores também é semelhante, com a veiculação de temas característicos da extrema direita. Entre publicações sobre BBB, o perfil Babadeira (2,7 milhões de seguidores) postou que a Câmara dos Vereadores de Goiânia aprovou um auxílio para mulheres vítimas de violência

A imagem destaca que o benefício é para itens de defesa pessoal. No entanto, o auxílio serve, primordialmente, para assistência psicológica e orientação jurídica, com a possibilidade de comprar armas de fogo após o cumprimento de todas as medidas não letais. O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel (União), vetou a possibilidade de adquirir os itens e devolveu o texto para a Câmara. 

A Babadeira também fez publicações caçoando de Lula não ter curso superior e afirmando categoricamente que Flávio Bolsonaro (PL) vencerá o pleito presidencial de 2026 contra o petista. 

Além de Nikolas Ferreira, outro político que costuma receber destaque nos perfis de fofoca é Tarcísio de Freitas. Em dezembro, a Alfinetei publicou vídeo do governador paulista fazendo referência à polêmica envolvendo Fernanda Torres e a marca de chinelos Havaianas

Financiamento de páginas de fofoca

Na descrição de dezenas de páginas de fofoca como Alfinetei e Babadeira, está escrito que elas são embaixadoras da 7games.bet, plataforma de bets de Fernando Oliveira de Lima, conhecido por Fernandin OIG. O empresário é o responsável pela operação do jogo do tigrinho no Brasil. 

De acordo com reportagem do portal Intercept Brasil de sábado (28), Fernandin é amigo do senador Ciro Nogueira (Progressistas), ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL). 

Além disso, em 13 de fevereiro, o jornal Folha de S.Paulo divulgou que funcionários da agência de influenciadores digitais Mynd teriam negociado publicações em perfis para elogios a Tarcísio de Freitas e críticas ao Banco Central. A empresa afirmou que os contatos não foram em nome dela, enquanto o governo de São Paulo disse não ter feito investimentos para esses conteúdos. 

A estratégia de redes 

Segundo Sérgio Trein, professor de propaganda pública na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a publicação de conteúdos políticos em páginas de fofoca pode ser uma forma de aumentar a presença digital de determinados políticos. Isso se amplia pelo distanciamento das pessoas com a política tradicional

“As pessoas não vão procurar as editorias políticas ou frequentar os espaços públicos. A rede social é um formato que se transforma no canal de comunicação política e você consegue, de uma forma não tão oficial, se aproximar do eleitorado”, afirmou Trein ao Nexo

Adriane Buarque de Holanda, pesquisadora em comunicação política e professora da ESPM Rio (Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro), disse ao Nexo que os estrategistas de campanha são capazes de driblar algoritmos e alcançar um eleitorado maior com as publicações em perfis de fofoca. 

Isso torna o ambiente digital ainda mais propício para a desinformação, segundo Holanda: “A minha preocupação é com a possibilidade de manobra da massa vulnerável, que não vai atrás de checar os fatos”. 

Além disso, a professora da ESPM Rio afirmou que é necessário se atentar não só às páginas, mas também aos posicionamentos de influenciadores. “A forma como eles se posicionam e distribuem a informação também pode trazer conteúdos que não são verdadeiros”, disse Holanda. 

De acordo com Trein, a viralização dos discursos inflamados faz parte de uma cultura de espetacularização e sensacionalismo. “A direita tem opiniões mais firmes, enquanto a esquerda vai para um lado mais dos direitos humanos e sociais. Mas a repercussão ao dizer que é contra a questão de gênero ou a favor da tortura é maior”, afirmou o professor da UFRGS.

Dentre os normativos que orientam as eleições de outubro de 2026, o de propaganda eleitoral é o único a tratar sobre o uso das redes sociais nas campanhas. Perfis podem ser removidos se forem comprovadamente falsos, apócrifos ou com atividade robotizada e cometerem crimes eleitorais ou publicações que possam afetar negativamente o processo eleitoral. 

O peso das redes no marketing político 

Desde meados dos anos 2000 e da popularização do Orkut, as redes sociais se tornaram importantes ferramentas do marketing político. Em 2008, por exemplo, o TSE permitia a veiculação de propagandas políticas na internet apenas nas páginas dos candidatos e dos partidos. 

Para Holanda, as redes sociais tiveram uma transformação acompanhada pelos políticos: “Ela não é só de construção de relacionamento, como a gente pensou no início da década 2010, sem algoritmos por trás e que ajudava na distribuição da informação. Se a gente for pensar os conteúdos hoje, eles sempre tem uma estrutura e estratégia de viralização”. 

A importância das redes sociais na campanha política se traduz nos gastos de recursos ao longo dos anos. Segundo dados do portal Divulgacand, do TSE, o Facebook recebeu R$ 980 de candidatos em 2014. Dez anos depois, esse valor ultrapassou os R$ 201 milhões. 

Importância do Facebook nas campanhas

Nas eleições municipais de 2024, Guilherme Boulos (PSOL-SP), então candidato à prefeitura de São Paulo, foi o que mais gastou com impulsionamento de conteúdo nas redes sociais do grupo Meta: R$ 8.843.360,00. Na sequência, estavam os adversários do pleito para a prefeitura de Fortaleza, Evandro Leitão (PT) e José Sarto (PDT); e Pablo Marçal (União), candidato nas eleições da capital paulista. 

Além das redes sociais da Meta, Holanda destacou o Tik Tok e o Telegram como possíveis influências para as eleições de 2026, ambos seguindo a tendência de pleitos anteriores.