O que levou a Itália a ficar fora da Copa pela 3ª vez seguida

Jogadores da Itália após a disputa por pênaltis contra a Bósnia, pela repescagem europeia da Copa do Mundo de 2026. Homens de uniforme branco chorando. Dois se abraçam. Eles estão em um gramado

Jogadores da Itália após a disputa por pênaltis contra a Bósnia, pela repescagem europeia da Copa do Mundo de 2026

Depois de um empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, a Itália perdeu nos pênaltis para a Bósnia e Herzegovina na terça-feira (31) e não conseguiu a vaga para a Copa do Mundo de 2026. A derrota na repescagem marca a terceira vez consecutiva dos italianos fora do mundial. 

A crise do futebol italiano não se restringe ao desempenho da seleção nacional. Problemas institucionais e pouco talento nas novas gerações também afetam os clubes: a Série A italiana era a liga mais forte do mundo entre os anos 1980 e 1990, mas os times passaram a ser coadjuvantes nos torneios europeus. 

Neste texto, o Nexo apresenta a repercussão da eliminação na imprensa italiana, explica as dificuldades de renovação dos jogadores e mostra o atual cenário dos clubes da Itália. 

Repercussão da eliminação

Assim que a partida contra a Bósnia terminou, o jornal La Gazzetta dello Sport publicou em seu Instagram que “o pesadelo se tornou realidade novamente”. A imagem mostra o Estádio Olímpico de Roma com um gramado seco, a taça da Copa do Mundo coberta por folhas e um bilhete de passagem rasgado.

O jornalista Luigi Garlando, do Gazzetta dello Sport, afirmou em coluna nesta terça-feira (1º) que a não classificação da Itália pela terceira vez consecutiva passou a ser normal: “Perdeu o seu impacto, a sua capacidade de causar catástrofes imprevisíveis”. 

Paolo Tomaselli, correspondente do jornal Corriere della Sera em Zenica, cidade bósnia que sediou a repescagem, classificou a eliminação como a chegada da Azzurra – apelido da seleção, pela cor de seu uniforme – ao “fundo do poço”. 

O repórter também disse que a queda no ranking da Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) pelos maus resultados recentes levaram a Itália a um grupo difícil nas eliminatórias europeias. As duas derrotas contra a Noruega do atacante Erling Haaland fez com que os italianos tivessem de disputar a repescagem. 

A imprensa italiana eximiu a responsabilidade do técnico Gennaro Gattuso – campeão do mundo em 2006. Ele teve apenas oito jogos no cargo, substituindo Luciano Spalletti. No entanto, eles são unânimes sobre a necessidade de renúncia de Gabriele Gravina, presidente da FIGC (Federação Italiana de Futebol). 

“Entre desculpas e empurra-empurra, ninguém tem coragem de deixar seus cargos. Somente uma reformulação completa, no entanto, poderá criar as condições para uma verdadeira revolução”, afirmou Daniele Fiori, jornalista do jornal Il Fatto Quotidiano

Em campo, a expulsão do zagueiro Alessandro Bastoni afetou a seleção italiana, tendo que jogar bastante recuada e sofrendo pressão da Bósnia até levar o gol de empate. O goleiro e capitão Gianluigi Donnarumma foi o primeiro jogador a se pronunciar após a derrota. Ele disse ter chorado muito após a partida, “pela decepção de não ter conseguido levar a Itália ao lugar que ela merece”.

“Depois de uma decepção tão grande, precisamos encontrar a coragem para virar a página, mais uma vez. E para isso, precisamos de muita força, paixão e convicção. Sempre acreditar; essa é a força motriz para seguir em frente. Porque a vida recompensa aqueles que se entregam por completo, sem reservas”

Gianluigi Donnarumma 

goleiro italiano, em publicação no Instagram nesta quarta-feira (1º)

Dificuldade de renovação

De acordo com Felipe Lobo, jornalista e um dos integrantes do Meiocampo, podcast especializado em futebol, a não classificação italiana passa por uma série de fatores estruturais. “Mas nada disso deveria ser problema para a Itália se classificar”, afirmou ao Nexo

Dos 23 jogadores convocados para a repescagem europeia por Gattuso, somente três já atuavam profissionalmente na última partida da Itália em Copas do Mundo: derrota para o Uruguai por 1 a 0, na Arena das Dunas, em Natal, em 2014. O atacante Pio Esposito, o mais novo entre os convocados, tinha apenas um ano quando os italianos se tornaram tetracampeões mundiais, em 2006. 

Lobo afirmou que os elencos recentes têm uma responsabilidade muito grande em recolocar a Itália na Copa, o que aumenta a pressão. “O que os jogadores sabem é que a seleção ganhou a Copa quatro vezes e que a geração atual não consegue chegar”, disse o jornalista. 

Ao longo da história, a seleção italiana foi formada por craques, como o goleiro Gianluigi Buffon, o zagueiro Paolo Maldini, o meio campista Andrea Pirlo e o atacante Francesco Totti. O cenário atual é diferente: na lista da Bola de Ouro de 2025, premiação da revista France Football dos melhores jogadores da temporada, Donnarumma era o único italiano entre os 30 primeiros.  

Um dos principais problemas para a diminuição dos talentos italianos está nas divisões de base, especialmente na transição para o profissional. Apesar de resultados positivos nas categorias juniores, como o vice-campeonato na Copa do Mundo Sub-20 de 2023, os clubes e torcedores locais têm pouca paciência com os jovens. 

A falta de campeonatos para jogadores acima de 19 anos e a cultura de empréstimos dos jovens são aspectos que influenciam na dificuldade de reformulação, segundo Lobo. “Principalmente os times de Série A, que emprestam para times de divisões inferiores, normalmente com baixa estrutura e pressão de conseguir resultados. E acaba se perdendo muito desses talentos que não conseguem ter um acompanhamento próximo”, disse o jornalista. 

A renovação das categorias de base e da transição para o profissional já era uma demanda desde 2011. Na ocasião, o ex-meio-campista e ídolo italiano Roberto Baggio apresentou um dossiê de 900 páginas à FIGC com uma proposta de reforma do futebol italiano. Entre elas, estava uma formação mais lúdica. 

“Uma das coisas que ele coloca é que a base precisa dar mais ênfase à criatividade, à formação de jogadores que não sejam colocados para treinar tática e função tática tão cedo”, disse Lobo. O projeto foi descartado pela FIGC ainda durante a apresentação de Baggio. 

Em contrapartida, a escola italiana de técnicos de futebol segue como uma das mais renomadas. O centro de formação de Coverciano, em Florença, tornou-se referência mundial. Na Copa de 2026, três treinadores italianos estarão nos estádios dos Estados Unidos, México e Canadá: 

Crise de gestão

Nesta quarta-feira (1º), o ministro dos Esportes da Itália, Andrea Abodi, afirmou a jornalistas que a FIGC precisa passar por uma reformulação de sua liderança e a renúncia de Gabriele Gravini. Ele disse que é “objetivamente incorreto tentar negar sua responsabilidade pelo terceiro fracasso consecutivo na Copa do Mundo, acusando as instituições de suposta incompetência e menosprezando a importância e o nível profissional de outros esportes”. 

“Continuaremos, como temos feito até agora, a cumprir nossa responsabilidade institucional, mas responsabilidade, humildade e respeito são exigidos de todos. A Itália precisa voltar a ser a Itália, inclusive no futebol mundial”

Andrea Abodi

ministro dos Esportes da Itália

A réplica de Abodi veio após Gravina dizer a jornalistas que a atuação da FIGC está limitada pelas regras e regulamentos do esporte italiano. Além disso, ao ser perguntado sobre o insucesso futebolístico nacional em relação a conquistas de outros esportes, o presidente da federação disse que o futebol é a única modalidade “profissional”. 

40

foi o número de medalhas da Itália nos Jogos Olímpicos de 2024, sendo 12 de ouro

Gravina está no comando da FIGC desde outubro de 2018. Foi em meio ao seu segundo mandato que a Itália venceu a Eurocopa de 2021, torneio continental de seleções adiado pela pandemia. Em fevereiro de 2025, ele foi candidato único à presidência da federação e se reelegeu com 98,7% dos votos.  

Apesar disso, Gravina colecionou fracassos esportivos ao longo de seus mandatos. Duas das três eliminações na repescagem da Copa foram durante sua gestão, assim como a derrota para a Suíça nas oitavas de final da Eurocopa de 2024 – os suíços não venciam os italianos há 31 anos. 

O presidente da FIGC, Gabriele Gravini. Um homem idoso, de terno, faz um jóia com a mão. Ao fundo, um painel azul

O presidente da FIGC, Gabriele Gravini

A Itália teve quatro técnicos no período, uma rotação alta para seleções europeias. A escolha de Gennaro Gattuso foi bastante criticada pelo pouco currículo do treinador e por ter perdido a chance de contratar Carlo Ancelotti antes da seleção brasileira. 

Além disso, o presidente da FIGC é investigado pela polícia italiana desde 2024, por suspeitas de lavagem de dinheiro e peculato. O caso é referente à venda de direitos de televisão da Lega Pro, a terceira divisão nacional.                                                                                                                     

Gravina convocou uma reunião para definir o futuro da FIGC e da seleção italiana. Ele sofre pressão de aliados e opositores para que renuncie à presidência. 

O cenário dos clubes

A liga italiana é uma das mais tradicionais do futebol mundial e, durante décadas, foi a mais forte. Na temporada 2009/2010, quando a Internazionale de Milão venceu o seu terceiro título da Champions League, a Itália estava empatada com a Espanha como os países com maior número de conquistas da competição, com 12. 

Uma década e meia depois, a Itália se manteve estacionada, enquanto a Espanha chegou a 20 títulos. Os italianos também foram ultrapassados pelos ingleses, com 15 conquistas da Champions League. 

Apesar de ser menos rígido que em países como Espanha e Inglaterra, o começo do fair play financeiro no futebol italiano, no início dos anos 2010, reduziu a injeção massiva de dinheiro nos clubes. Para o jornalista Felipe Lobo, a necessidade de controlar as dívidas “torna o ambiente menos suscetível a investir na base, que é um investimento de longo prazo”. 

Uma narrativa com forte adesão na Itália é a da dependência dos clubes nacionais por jogadores estrangeiros. Cerca de 68% dos jogadores do Campeonato Italiano nasceram fora do país. De acordo com a imprensa e os torcedores locais, isso ajuda a minar o desenvolvimento dos atletas nacionais. 

Para Lobo, a presença dos estrangeiros na liga não é um fator impeditivo do desenvolvimento de jogadores italianos. “Tem ligas com muito mais estrangeiros proporcionalmente, como é a Premier League, da Inglaterra, e a de Portugal, e eles continuam formando jogadores. Mesmo a França, que tem uma liga com um patamar muito próximo de estrangeiros, é considerada o melhor elenco da Copa”, afirmou o jornalista.