
Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião ministerial no Palácio do Planalto
Luiz Inácio Lula da Silva anunciou na terça-feira (31) que pelo menos 18 ministros vão deixar o governo para disputar as eleições em outubro – o prazo para desincompatibilização para concorrer a cargos eletivos, no caso dos ministros de estado, termina no sábado (4).
Deixaram o Executivo nomes como Fernando Haddad, que comandava o ministério da Fazenda, Camilo Santana, da Educação, e Anielle Franco, da Igualdade Racial. Para seus lugares, foram nomeados os secretários-executivos das pastas, que tocam o dia a dia nos ministérios.
A estratégia de Lula é manter o funcionamento dos projetos e políticas públicas e entregar resultados, visando a reeleição, em um momento em que o atual presidente está tecnicamente empatado nas pesquisas de intenção de voto com o seu principal oponente, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Neste texto, o Nexo mostra as prioridades do atual governo e analisa com cientistas políticos qual deve ser o peso da máquina pública no pleito de 2026.
A aprovação do fim da escala de trabalho no regime 6×1, sem redução de salário, é a principal aposta do governo federal, e foi um dos temas citados na mensagem enviada pelo presidente ao Congresso Nacional na abertura dos trabalhos legislativos, em fevereiro.
O tema mobilizou a Câmara logo nos primeiros dias de trabalho. Em 9 de fevereiro, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB) encaminhou a Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim do modelo à Comissão de Constituição e Justiça.
Tramitam apensadas (juntas): a PEC 8/25, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), e a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Ambas alteram o artigo 7° da Constituição Federal, que estabelece os direitos fundamentais dos trabalhadores urbanos e rurais.
O movimento de Motta pegou o governo de surpresa e gerou uma disputa pela autoria da medida. A ideia do Executivo, ao invés da PEC, era enviar um projeto de lei sobre o tema, alegando que o andamento do texto, quando remetido com urgência ao Congresso, é mais rápido que uma PEC.
Como Motta pautou o tema, as propostas estão em análise na CCJ, e a intenção, segundo o presidente da Câmara, é votar em maio no Plenário. Pelo fato de ambas serem de autoria de dois aliados, a ideia é “colar” uma eventual aprovação no governo Lula, para que essa seja uma das entregas concretas de 2026.
O governo também quer finalizar os trâmites da PEC da Segurança Pública. O texto entregue por Lula ao Congresso em abril de 2025, ficou meses parado. Em março de 2026, foi aprovado pela Câmara e agora está em análise no Senado. O tema é relevante para a imagem do governo: pesquisa Quaest divulgada em 11 de março mostra que a violência é a principal preocupação dos brasileiros.
Para além das entregas, uma das estratégias do PT na campanha eleitoral será a de comparar as gestões de Lula com a de Jair Bolsonaro (PL). O ex-presidente, que está preso, designou ao filho mais velho a missão de concorrer em seu lugar representando a extrema direita.
Até agora, o senador não tem sido escrutinado e, segundo a pesquisa Quaest mais recente, divulgada em 11 de março, conseguiu obter uma transferência rápida do eleitorado do pai.
Em cenário de primeiro turno com Flávio e Ronaldo Caiado (PSD), que confirmou a sua pré-candidatura pelo partido de Gilberto Kassab na segunda-feira (30), após desistência de Ratinho Jr., Lula aparece com 37% das intenções de voto, Flávio com 30% e Caiado com 4%. No cenário de segundo turno, o presidente e o senador empatam.
41%
é o percentual de intenção de voto em cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, segundo pesquisa Quaest de 11 de março
“Só ser filho de Jair Bolsonaro basta? Talvez baste enquanto a campanha ainda não começou e ele não está apanhando de fato.
Nesse aspecto, ter poder em mãos facilita esse processo. Com a dinâmica de inaugurações de obras, passando pela gestão da política macroeconômica e condução de políticas públicas, o governo pode dar boas notícias e melhorar a percepção dos eleitores”, disse ao Nexo o cientista político Creomar de Souza, fundador da consultoria de análise política Dharma.
A isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000, projeto de autoria do Executivo e uma promessa de campanha de Lula em 2022, foi aprovado na Câmara e no Senado e sancionado por Lula no fim de 2025. A medida começou a valer em janeiro de 2026, quando pessoas com renda nesta faixa deixaram de ser tributadas, o que significa um ganho na renda.
Os dados macroeconômicos também são positivos, com crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), baixo desemprego (taxa de 5,8% no trimestre de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026) e 8,6 milhões de pessoas que deixaram a linha da pobreza entre 2023 e 2024. O Brasil também deixou o Mapa da Fome em 2025.
A iniciativa da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) mostra em quais países mais de 2,5% da população está subnutrida. O país já havia saído do relatório em 2014, no governo Dilma Rousseff (PT), mas voltou em 2021, no governo Bolsonaro, após aumento na insegurança alimentar, agravada pela pandemia de covid-19.
Os resultados da Operação Carbono Oculto da Polícia Federal, realizada em agosto de 2025 e que mostrou a infiltração da facção PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal, é outra medida comemorada pelo governo federal. Foram bloqueados cerca de R$ 70 bilhões em movimentações financeiras fraudulentas oriundas do crime.
“Na maior ofensiva contra o crime organizado de todos os tempos, o combate às facções criminosas chegou ao andar de cima, comprovou que os verdadeiros líderes do crime organizado não estão nas comunidades, mas em alguns dos endereços mais caros no Brasil e no exterior”.
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República, em mensagem enviada ao Congresso Nacional no início dos trabalhos legislativos de 2026
Entre os resultados alcançados pelo terceiro mandato de Lula, o governo destaca medidas como:
O governo trabalha ainda para conter os impactos da crise do petróleo gerada pela guerra no Irã, que conta com grandes reservas energéticas. Desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o país, o preço do barril de petróleo vem subindo. Para amenizar a escalada de preços, o governo zerou impostos federais sobre o combustível e deu subvenções ao diesel.
O uso da máquina pública é a vantagem estratégica do incumbente em angariar mais votos por meio de ações concentradas no ano eleitoral, dentro da lei, que demonstram a realização de promessas de campanha e apontam para valores caros ao eleitor.
Mas a linha é tênue: no contexto eleitoral, o uso da estrutura estatal para favorecer a reeleição ou aliados pode configurar abuso de poder político e econômico ou improbidade administrativa.
“A oposição, mesmo que tenha o lugar de crítica, não consegue fazer essas entregas concretas. O governo consegue criar fatos políticos a partir dos recursos, das políticas públicas e da máquina de discurso. Por isso, é tradicional que quem está no governo tenha vantagem, porque consegue mostrar entregas concretas”, disse ao Nexo o cientista político Jorge Chaloub, professor de ciência política na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
Dentro da ciência política, afirmou Chaloub, sempre se analisou que o incumbente tinha uma vantagem grande na reeleição, por já ser conhecido e por ter na mão os recursos federais e entregas que podem jogar a seu favor.
Na democracia norte-americana, por exemplo, são raros os casos de não reeleição, como o democrata Jimmy Carter, o republicano George Bush pai, que, de acordo com Chaloub, não foi reconduzido sobretudo por uma divisão do partido republicano na época, e Donald Trump, em 2020, quando perdeu para o democrata Joe Biden.
No caso brasileiro, o primeiro presidente a não ser reeleito foi Jair Bolsonaro, em 2022. A não reeleição também é rara nos Executivos municipais e estaduais. A derrota de Fernando Haddad (PT) em 2016, na busca por um segundo mandato como prefeito de São Paulo, e de Cristovam Buarque, na época filiado ao PT, no governo do Distrito Federal em 1998, são alguns exemplos.
“Bolsonaro, de fato, fez um uso muito agressivo da máquina. Em termos comparativos, não consigo pegar algo tão agressivo quanto o aumento significativo do Auxílio Brasil [programa de transferência de renda do então governo]. Lula tem temor de fazer esse tipo de movimento e ter a candidatura julgada pelo TSE”, disse Chaloub.
“Olhando para a trajetória de 2022, Bolsonaro inicialmente estava atrás nas pesquisas e perdeu por pouco. O uso da máquina fez efeito. Mas ele estava impopular por causa da pandemia, e de o opositor ser Lula. O uso da máquina foi efetivo do primeiro para o segundo turno, tanto que Bolsonaro quase ganhou a eleição”
Jorge Chaloub
cientista político e professor de ciência política na UFRJ e UFJF, em entrevista ao Nexo
O fracasso da tentativa de reeleição de Bolsonaro, na visão de Creomar de Souza, se deve a elementos como o estilo Bolsonaro de fazer política, núcleo decisório centrado nele e nos filhos e a mudança de humor do eleitor em relação a 2018.
“O governo Bolsonaro precisava de muita crise política e institucional para funcionar, porque a agenda não tem nada mais do que jogar tijolo na vidraça alheia. E quando você vira vidraça, é um grande problema. Toda aquela performance, pessimismo e negatividade da narrativa eleitoral fica desconstruída”, disse Souza.
Segundo Creomar de Souza, em 2018, a ideia disseminada de que político não “servia” para nada impulsionou o discurso antissistema de Bolsonaro e ajudou a elegê-lo.
“Só que depois veio uma pandemia e uma crise econômica. O esforço de manter o controle das atenções cansou as pessoas do governo Bolsonaro quando existiam problemas muito concretos. E aí a performance não funciona quando a vacinação para covid não chega, quando Macapá fica sem luz. Apesar de despejar dinheiro na sociedade [via Auxílio Brasil], isso foi insuficiente no final do dia”, disse Souza.
O dilema para a eleição de 2026 é saber qual será o humor do eleitorado, afirmou Souza, e a conjuntura não é favorável nesse sentido.
A confluência de elementos críticos, de crise interna de confiança por questões como o escândalo do Banco Master, a permanência de elementos de polarização política, e internacionalmente, a predisposição a uma situação bastante caótica por causa da guerra do Irã, podem gerar impactos ao atual governo na busca pela reeleição, segundo a avaliação de Creomar de Souza.
Recentemente, com a crise democrática que assola o mundo e a ascensão da extrema direita, há uma série de derrotas de incumbentes em uma média maior, lembra Jorge Chaloub. “Será que em um contexto de tanta crítica, é tão vantajoso estar no governo ou ser apoiado pelo candidato que está no governo? Os dados da economia inicialmente apontariam para uma avaliação positiva do governo Lula, e não é isso que as pesquisas têm mostrado”, disse o cientista político.
Na avaliação de Creomar de Souza, a aposta do governo Lula foi a de que uma economia dando bons resultados conseguiria pavimentar uma reeleição.
“Só que caiu na lógica da percepção do eleitorado, que é superior ao dado frio. Ele vê o dado frio e não consegue ver transformado em uma sensação de bem-estar. Mesmo assim, chegar a uma eleição em que os eleitores tenham perspectivas negativas da realidade, não significa necessariamente que elas vão optar pelo Flávio entre Flávio e Lula”, disse o cientista político.