
O escritor Omar El Akkad durante um simpósio em março de 2025
Omar El Akkad nasceu no Egito e foi criado no Catar. Na adolescência, ouvia o disco “Nevermind”, do Nirvana, em que o bebê nu que estampa a capa aparecia em uma versão censurada. O Ocidente, por comparação, parecia prometer liberdade.
El Akkad mudou-se para o Canadá na juventude e depois para os Estados Unidos. Atuou como jornalista, cobrindo os julgamentos em Guantánamo após os atentados do 11 de setembro, por exemplo. Em 2017, escreveu “Guerra americana”, em que conta a história de um Estados Unidos distópico devastado pela guerra e por desastres climáticos, e em 2021 “What Strange Paradise” (“Que paraíso estranho”, em tradução livre), sobre um menino sírio que sobrevive a um naufrágio na costa da Grécia.
Essas experiências são lembradas em seu novo livro “Um dia todos dirão terem sido contra” – escrito após os ataques de Israel à Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023 e publicado no Brasil em 13 de março –, que mistura memórias e denúncias, principalmente a grupos políticos e culturais que escolhem desviar o olhar das ações conduzidas por Israel, em dez ensaios.
“Penso no mundo ocidental e nos Estados Unidos em particular, e nessa espécie de doença de fingir ser uma coisa enquanto na verdade se é outra completamente diferente”, disse El Akkad.
Em entrevista concedida ao Nexo, o autor abordou o sucesso do livro nos Estados Unidos e como a linguagem é utilizada durante guerras para criar distanciamento.
Em que momento o senhor decidiu escrever o livro?
Omar El Akkad Comecei a escrever a primeira versão deste livro no final de outubro de 2023 a partir de anotações. Parte do motivo pelo qual comecei a fazê-las é porque todo dia eu acordava e via a pior coisa imaginável. Eu suspeitava que, em um momento futuro, todas essas coisas iriam desaparecer, seriam de certa forma apagadas da memória, e eu queria manter um registro disso.
No início de novembro, enquanto jantava com o meu editor, John Freeman, eu estava reclamando sobre a dificuldade de entender o significado de ser alguém com a minha aparência e viver nos Estados Unidos hoje. Depois de um tempo, ele disse que eu deveria escrever sobre isso. Foi quando passei de simples anotações soltas para tentar dar coerência e uma forma a isso.
Normalmente sou um escritor muito lento, mas com este livro não foi assim. Ele foi escrito com muita raiva. Eu me sentava e despejava milhares de palavras. No dia seguinte, deletava a maioria porque eram terríveis, mas esse era o processo.
Comecei a escrever oficialmente no início de novembro. No final de fevereiro de 2024 eu tinha um primeiro rascunho, foi o que mostrei ao meu editor e foi o que eles compraram.
“Um dia todos dirão terem sido contra” ganhou o prêmio National Book Awards na categoria não ficção e recebeu críticas positivas em jornais como o The New York Times e o The Guardian. O senhor esperava essa recepção?
Omar El Akkad Não, eu nem esperava que o livro fosse publicado. Uma das razões pelas quais consegui escrever esse tipo de livro é porque, no fundo, eu pensava “meu editor me apoia, mas isso não significa que a editora vai pagar para publicar um livro assim” — ou seja, de um autor árabe e muçulmano, num momento como este.
A editora realmente apoiou o livro. Tudo o que aconteceu desde então foi surpreendente para mim. E, para ser completamente honesto, não acredito que o sucesso tenha muita relação com a qualidade do livro ou o quão bom ele é, mas sim com a situação em que nos encontramos, particularmente nos Estados Unidos.
Há muitas pessoas nos EUA que sentem que estão enlouquecendo porque todo dia veem coisas verdadeiramente horríveis pelas quais o dinheiro dos impostos delas está pagando. E então você liga a televisão e é informado de que você é o mocinho e que isso é certo e adequado. Creio que o fato de este livro abordar isso — e, provavelmente mais importante, o fato de haver tão poucos outros livros que abordam isso neste país — provavelmente teve algo a ver com a reação que recebeu.
Não achava que o New York Times fosse resenhar o livro em primeiro lugar e não estava tão nervoso no National Book Awards porque não achava que tinha a menor chance. Nada do que aconteceu com este livro foi algo que eu esperava.
O livro foi lançado nos Estados Unidos em fevereiro de 2025. Desde então, o país entrou em conflitos de escala global, atacando a Venezuela e o Irã. Esses ataques reforçaram as críticas que o senhor traz em seu livro?
Omar El Akkad Sei que este livro é visto como um livro sobre a Palestina — e é claro que eu não o teria escrito se não fosse pelo genocídio em curso —, mas penso nele como um livro sobre o Ocidente, não sobre Israel ou Palestina. Penso no mundo ocidental e nos Estados Unidos em particular, e nessa espécie de doença de fingir ser uma coisa enquanto na verdade se é outra completamente diferente.
Muitas coisas sobre as quais falo no livro foram reforçadas por, por exemplo, o que é claramente o ato ilegal de sequestrar o chefe de Estado de outra nação, ou bombardear um país enquanto se está em meio a negociações de paz com ele, e então fingir que é isso que os mocinhos fazem.
Quase toda desventura em que os Estados Unidos se envolve tem o mesmo tipo de narrativa por trás, as mesmas histórias. E muitas dessas histórias são o que abordo no livro. Acho que é por isso que o livro teve essa repercussão e o porquê de ele continuar ressoando.
O senhor julga que a imprensa tradicional falha ao cobrir os conflitos no Oriente Médio?
Omar El Akkad Absolutamente. Isso é frustrante para mim por vários motivos. Um deles é que isso não é abstrato, não é hipotético, a má cobertura está matando pessoas.
Quando todos repercutem a história dos 40 bebês decapitados, e depois há uma pequena correção dizendo “ops, isso foi pura fantasia” — nesse meio-tempo, você criou as condições para que as pessoas apoiem o assassinato em massa dos seres humanos que você acusou de serem o tipo de gente capaz de fazer isso.
E isso é particularmente verdadeiro no Oriente Médio. Durante toda a minha infância e a maior parte da minha vida adulta, toda vez que assistia a um filme de ação americano, havia alguém com a minha aparência com uma bomba amarrada no corpo ou fazendo algo horrível. Você reforça essa mensagem repetidamente. É horrível reforçar isso através do cinema e da televisão, mas é um tipo diferente de horrível quando isso é reforçado pela mídia, pelo jornalismo propriamente dito.
E penso que a razão pela qual os grandes veículos de comunicação fizeram um trabalho tão terrível é porque temos esse modelo de jornalismo que é perfeitamente válido e correto se as condições estiverem niveladas e se todos estiverem agindo de boa fé.
No momento em que há um desequilíbrio de poder — em que você dirige uma corporação bilionária e a outra pessoa não, por exemplo —, esse modelo é um desastre. Não funciona de jeito nenhum.
Há um enorme desequilíbrio de poder, e creio que isso é uma das razões pelas quais estamos nessa bagunça em que estamos agora. De um lado, há um Estado com um governo, um exército e um aparato de relações públicas sofisticados. Do outro, algum palestino com um celular.
Então, por todas essas razões, penso que a grande mídia fez um trabalho horrível. Acho que haverá uma geração inteira de pessoas que terão menos confiança no jornalismo em geral por causa do que aconteceu nos últimos anos. E isso não é bom.
A obra traz suas memórias da cobertura da guerra do Afeganistão e dos julgamentos de Guantánamo. Na sua perspectiva, as reações à guerra em Gaza foram diferentes de conflitos anteriores?
Omar El Akkad Sim e não. Acho que sim, mas é apenas uma versão mais intensa das mesmas tendências que tenho visto por cerca de 25 anos. Não é a primeira vez que se espera que acreditemos que “aquelas pessoas árabes lá” são selvagens e capazes de qualquer coisa. Mas estamos vendo isso em um nível de intensidade que acho ser maior do que em qualquer outro momento da minha vida.
O uso de linguagem covarde e passiva, por exemplo, sempre existiu, mas acredito que a frequência com que é usado agora é muito mais intensa.
E há uma distinção entre quem conta como humano e quem não conta. Outro dia eu estava assistindo a uma apresentadora falando sobre um piloto americano que acabara de ser resgatado após cair em algum lugar no Irã. Ela disse algo como: “Bem, isso realmente traz um aspecto humano ao que está acontecendo”. Acabamos de bombardear uma escola e matar quase 200 crianças e essa situação não trouxe nenhum aspecto humano a nada disso. Há apenas uma explicação: aquelas crianças não são humanas, aquele cara é.
Nada disso é novo, mas creio que é muito mais intenso agora. Acho que houve uma certa porta que foi aberta, onde você nem precisa mais fingir.
Em um dos capítulos, o senhor escreve sobre o papel da linguagem nas guerras. Como ela influencia a percepção sobre conflitos globais?
Omar El Akkad Penso que ela permite que as pessoas que têm o privilégio de desviar o olhar o façam com mais facilidade. Se você evita usar a palavra genocídio e usa “conflito”, ou “combate ao terrorismo”, ou outro termo, isso permite que alguém desvie o olhar com mais facilidade.
A primeira vez que vi isso de perto foi em Guantánamo. Essa ideia de que não torturamos ninguém, temos “interrogatórios aprimorados”. Isso gera distância.
Eventualmente você chega a um ponto onde as pessoas conseguem desligar sua consciência de uma forma que, se você simplesmente descrevesse como o assassinato de crianças aos centenas de milhares, seria mais difícil de fazer.
O senhor critica o liberalismo de esquerda americano por não adotar posições contundentes com relação ao conflito em Gaza. Quais atitudes deveriam ser seguidas hoje?
Omar El Akkad Falarei em relação ao único partido liberal de corrente dominante onde vivo, que é o Partido Democrata.
Antes de tudo, qualquer partido que se considere de centro precisa abandonar essa noção de que o centro é uma posição estática que não se move.
O centro neste país já considerou ultrajante ter uma força policial como o ICE [agência americana de Imigração e Controle de Alfândega]. E então, uma vez que o ICE foi estabelecido, a posição centrista passou a ser “devemos mantê-lo limitado”. Hoje, o ICE é a força policial mais bem financiada dos Estados Unidos e agora a posição centrista é “bem, não devemos dar mais dinheiro a ele”. Ou seja, a posição centrista está se deslocando.
A direita entendeu isso. A esquerda neste país não entendeu. E quando digo esquerda, estou falando do Partido Democrata, que não é um partido de esquerda, é de centro-direita, mas pelos padrões americanos, é de esquerda.
Enquanto os partidos liberais dominantes continuarem tentando ocupar esse terreno central que está constantemente se deslocando para a direita, terão o mesmo problema que trouxe Donald Trump ao poder, em que muitas pessoas decidem que preferem o mal ativo ao passivo.
A outra coisa que precisa mudar é que o partido tem que entender que perder seus grandes doadores corporativos é a segunda pior coisa que pode acontecer ao seu partido político. É terrível, já que nos EUA você precisa de milhões de dólares para fazer uma campanha eleitoral. Mas não é tão terrível quanto ser abandonado pelos seus eleitores, pelas pessoas que vão colocá-lo no poder no final do dia.
No capítulo final, o senhor argumenta que um dia as pessoas não terão medo de apontar e discutir os erros do passado. Isso está perto de acontecer ou ainda há um longo caminho pela frente?
Omar El Akkad Uma das coisas que percebi desde que o livro foi lançado é que muitas pessoas leram o título e pensaram que eu queria dizer que aconteceria amanhã.
Não acho que seja assim. Penso que quando estivermos tão distantes do passado que ninguém possa ser responsabilizado chegaremos a isso. Há uma certa distância que precisa existir entre a atrocidade e o reconhecimento.
Sempre foi algo que eu não esperava ver em minha própria vida, por exemplo. Creio que pessoas diferentes chegam individualmente a esse limiar em momentos distintos. Há pessoas na minha vida que um ou dois anos atrás diriam tranquilamente “isso é combate ao terrorismo, é justificado” e que hoje estão dizendo ou “isso é terrível” ou não estão dizendo nada. Você pode vê-las mudar em tempo real, pode ver o dia delas se aproximando.
Mas isso é algo individual. Institucionalmente, eu estava pensando em décadas, talvez um século ou mais. Mas talvez eu esteja sendo cínico. Quem sabe?