Romper o silêncio: por que escrevi um romance sobre aborto

Existe um silenciamento do tema aborto na literatura brasileira, no sentido de “tornar silencioso, omitir, calar ou impor silêncio” ao drama das mulheres que interrompem voluntariamente uma gravidez. Esse silenciamento literário pode ser explicado como uma extensão do comportamento da parte da sociedade brasileira que considera o aborto um tabu.

Em termos culturais, temas tabus como o aborto são evitados ou proibidos de serem falados, discutidos, publicados, escritos ou lidos porque o silenciamento ajuda a manter estruturas de poder e evita disseminar informações que poderiam abrir novas visões de mundo.

Parte da sociedade brasileira considera o aborto uma coisa proibida, um tabu, baseada na crença de que tal ato invadiria o campo do sagrado, porque entendido como um atentado contra a vida, em seu sentido religioso, especialmente para maiorias cristãs. 

Essa interpretação religiosa do tema aborto no Brasil acabou por se estender ao campo jurídico. O aborto é um crime contra a vida, segundo o artigo 124 do Código Penal Brasileiro, escrito em 1940, há quase um século, portanto. A criminalização do aborto reforça o ciclo do silenciamento social e em consequência, também, do literário. 

O aborto é um ato comum a milhões de mulheres, desde que o mundo é mundo, e envolve todos os dramas humanos

A escritora francesa Annie Ernaux comentou ao publicar o livro “O acontecimento”, onde narra o aborto a que se submeteu em 1964, em Paris, que só o estava fazendo agora, referindo-se ao início dos anos 2000, porque o aborto tinha sido legalizado na França, isso em 1975. 

Na verdade, me interessei pelo aborto como tema literário, em 2023, a partir da leitura da própria Ernaux que acabara de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, no ano anterior.

Na época, ler “O acontecimento” foi para mim uma epifania. A contemporaneidade dramática, mais do que política, da escrita de Ernaux me iluminou: “Então, podia-se escrever sobre aborto, daquele jeito, pessoal, e ainda ser respeitada”.

Foi quando decidi escrever “Do tamanho de um grão”, publicado em 2025, que acabou sendo o primeiro romance da literatura brasileira e enfrentar o tabu do aborto no conflito central da história. 

No romance, uma mulher madura revisita a própria juventude para narrar a experiência de um aborto clandestino realizado em Belo Horizonte no final dos anos 1980. Acompanhamos sua jornada desde a descoberta da gravidez indesejada, fruto de um relacionamento com um colega mais jovem, até a busca por uma clínica, o procedimento em si e as marcas deixadas por aqueles dias. Aos 30 dias de gestação, o embrião era do tamanho de um grão, imagem que dá título e que desvenda o significado do livro para a autora.  Décadas depois, uma revelação médica transforma sua compreensão sobre o passado.

Durante meu processo criativo, quanto aos estudos de forma e conteúdo, busquei outros autores e autoras, críticos e críticas que tivessem trabalhado o tema aborto na literatura. Ernaux, claro, foi minha primeira referência quando decidi escrever meu romance.

Ao ler Ernaux, acabei entrando em contato com a tradutora de “O acontecimento” para o português, a mineira de Juiz de Fora, Isadora Pontes, doutora em estudos literários pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Isadora vive e trabalha em Paris, como tradutora literária e apresenta “Do tamanho de um grão”.

Estudei a tese e a dissertação de Isadora que abordou com muito rigor e sensibilidade autoras francesas que escreveram sobre o aborto, dentro de uma perspectiva comparada, contemporânea e de estudos de gênero, como Violete Leduc e Nathalie Carron-Lnzl, não traduzidas para o português; a própria Annie Ernaux e Colombe Scheneck, ambas traduzidas para o português por Isadora, sendo que a última autora teve Laura Campos também como tradutora.

Empreendi ainda meus próprios estudos e à medida que fui comparando as literaturas francesa e brasileira, e mesmo outras literaturas, percebi o silenciamento do tema aborto na brasileira, o que me encorajou a enfrentar o tabu.

Não que o aborto tenha sido ignorado pela literatura brasileira. Há obras que chamaram o tema, mas cuja estratégia narrativa foi a lateralização e dentro de um enredo cujo conflito central não é o aborto, como são os casos dos livros “Melhor não contar”, de Tatiana Salem Levy, “Estela sem Deus”, de Jefferson Tenorio, “O oito”, de Paloma Franco Amorim e “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles, entre muitos outros e muitas outras.

A primeira referência literária que eu identifiquei relacionada ao tema aborto foi um livro publicado em 1893 pelo carioca Figueiredo Pimentel, cujo título é explicito: “O aborto”, romance classificado como realista.  

Embalado pelo sensacionalismo do título, o livro teria vendido 10 mil exemplares,  além de ter feito sucesso e provocado polêmica nos jornais, quando lançado também em folhetim. Mas, não. O tema central do livro não é o aborto de Maricota, a protagonista.

Ao consagrar a Annie Ernaux o Prêmio Nobel de Literatura de 2022, uma mulher que escreve a vida, que escreve sobre aborto, reconheceu-se o direito de cada indivíduo narrar sua própria história e legitimou-se o lugar da não ficção na literatura dos séculos 20 e 21.

Entendo que essa consagração, há apenas quatro anos, foi um confronto ao silenciamento literário e em consequência ao apagamento narrativo de experiências humanas, especialmente de mulheres, que desestabilizam estruturas de poder e encorajam a abertura de novas visões de mundo. 

Esse sentido político da literatura, tão caro ao espírito dos tempos, me interessa, mas não foi o que me inspirou a escrever “Do tamanho de um grão”. O aborto é um ato comum a milhões de mulheres, desde que o mundo é mundo, e envolve todos os dramas humanos: amor, morte, sofrimento físico e emocional, em seus sentidos literal e metafórico. Tudo o que interessa a quem escreve, critica e lê literatura.

Quanto ao meu livro, “Do tamanho de um grão”, digo que você vai mudar sua opinião sobre o aborto, seja ela qual for.  

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N. Netta é mestre em teoria da literatura, especialista em escrita criativa e jornalista. “Do tamanho de um grão”, apresentado por Isadora Pontes e publicado pelo Grupo Editorial Quixote, é seu romance de estreia.