O novo impedimento que a Fifa testa. E a história da regra

A árbitra assistente Neuza Inês Back. Uma mulher de camisa azul e shorts preto segurando uma bandeira amarela e laranja

A árbitra assistente Neuza Inês Back

Com a adoção do árbitro de vídeo no futebol, as diferenças entre um jogador estar ou não impedido passaram a ser milimétricas, quase invisíveis a olho nu. Isso fez com que as discussões na imprensa e nas redes sociais sobre a anulação de gols fosse ainda maior.

No sábado (4), a Fifa (Federação Internacional de Futebol) começou a fazer os primeiros testes em competições profissionais para uma possível alteração da regra do impedimento. A experimentação acontece na temporada de 2026 da Premier League Canadense, a liga de mais alto nível do país.

A liga do Canadá também testará o FVS (Football Video Support), um substituto do VAR para lances cruciais do jogo. Nesse caso, os árbitros de vídeo não analisam todas as jogadas, somente aquelas em que os treinadores solicitarem revisão – semelhante ao que acontece no vôlei. Em um número limitado de vezes, eles devem entregar um cartão para o quarto árbitro para fazerem a análise do gol, falta ou impedimento.

Impedimento à luz do dia

De acordo com as normas atuais da IFAB (International Football Association Board), órgão que regulamenta as regras do futebol, um jogador está impedido se qualquer parte do corpo – com exceção de braços e mãos – estiver mais próxima da linha de fundo do adversário que a bola, e tiver menos que dois adversários à sua frente. Além disso, o atleta precisa estar à frente da linha do meio de campo no momento do passe.

A proposta de alteração na regra do impedimento está sendo chamada de “impedimento à luz do dia”. Nela, o jogador estará em posição legal – ou seja, fora do impedimento – se alguma parte de seu corpo estiver na mesma linha que o penúltimo defensor, com exceção de braços e mãos. A infração só será marcada caso o atacante esteja totalmente à frente do adversário.

Por exemplo: se um jogador está com o tronco à frente do penúltimo defensor, mas sua perna estiver na mesma linha ou atrás, ele estará em posição legal.

O ex-treinador francês Arsène Wenger, atual chefe de Desenvolvimento Global do Futebol da Fifa, foi o idealizador da mudança.

“Ao testarmos essa nova interpretação em uma competição profissional, podemos entender melhor seu impacto, inclusive em termos de melhoria da clareza e do fluxo do jogo, além de promover o jogo ofensivo”

Arsène Wenger

chefe de Desenvolvimento Global do Futebol da Fifa

A expectativa é que a dinâmica do jogo mude, com mais gols sendo marcados pelos atacantes. De acordo com levantamento do canal ESPN, a temporada de 2024/2025 da Premier League (primeira divisão da Inglaterra) teve 34 gols anulados por impedimento do VAR.

Um exemplo de lance que levantou discussões sobre a marcação de impedimento aconteceu na partida entre Cusco, do Peru, e Flamengo, disputada na quarta-feira (8) pela Copa Libertadores da América. O VAR afirmou que o meio-campista José Manzaneda estava à frente, em uma diferença milimétrica. A anulação do gol gerou protestos do time peruano nas redes sociais.

Por outro lado, a alteração pode fazer com que os times se tornem mais precavidos na defesa e joguem mais recuados, com menos chances de gols para os dois times. Além disso, em maio de 2024, o comentarista Paulo Vinícius Coelho afirmou ao portal UOL que a mudança poderia manter as discussões sobre estar ou não impedido.

“Eu discuto o princípio: se tenho que pegar uma lupa para ver se tem um pedacinho da trava da chuteira que vai dar impedimento, a gente pode ter o mesmo problema”

Paulo Vinícius Coelho 

comentarista

História do impedimento 

O impedimento no futebol é uma herança inglesa do rugby, esporte em que os passes com a mão não podem ser feitos para frente. Até 1863, quando foi criada a FA (Football Association), primeira federação do esporte, os jogadores se aglomeravam na frente do gol.

A primeira regra de impedimento proibia que passes fossem dados para frente. Três anos depois, isso mudou, com a determinação de que um jogador precisava ter três jogadores entre ele e a linha de fundo adversária para estar impedido – ou, então, estar atrás da linha da bola.

Em 1925, a regra mudou para que dois jogadores adversários estivessem à frente para o atleta estar em posição legal. A mudança aconteceu após as equipes terem descoberto melhores estratégias para deixar os atacantes em impedimento.

A partir de 1990, o atacante poderia estar alinhado com o penúltimo adversário e não estar em impedimento. Qualquer parte do corpo permitida a marcar gol que estivesse à frente do defensor anularia o lance, regra que se mantém até os dias atuais.