
Ruas de Islamabad, capital do Paquistão, sinalizando as negociações entre EUA e Irã
Representantes dos Estados Unidos e do Irã se reúnem no sábado (11) em Islamabad, capital do Paquistão, para negociarem um acordo para fim da guerra. A reunião acontece após o cessar-fogo de duas semanas, estabelecido na terça-feira (7), e que também incluiu Israel.
Os dias anteriores ao encontro foram marcados por trocas de ameaças. As negociações ocorrem sob desconfiança mútua em torno de pontos sensíveis e com ambos os lados acusando o outro lado de violar o cessar-fogo.
Neste texto, o Nexo fala do acordo de trégua temporária, explica o impacto entre Israel e Líbano e mostra os principais pontos da proposta de cessar-fogo feita pelo Irã.
O cessar-fogo anunciado na terça-feira (7) prevê duas semanas de pausa nos ataques de EUA e Israel ao Irã, que começaram em 28 de fevereiro. Em contrapartida, o regime iraniano reabriria o Estreito de Ormuz.
Na quarta-feira (8), houve ataques de ambos os lados do conflito. O Irã afirmou que suas ilhas foram atacadas e criticou os ataques israelenses ao Líbano, cuja interrupção constava na proposta de trégua. Em paralelo, a Arábia Saudita, Omã e Kuwait denunciaram terem sido alvos de ataques durante a vigência da trégua. O corredor marítimo voltou a ser fechado.
Há um fator de complicação adicional: as negociações ocorrem entre dois atores que trocam hostilidades desde 1979, após a Revolução Iraniana, que tornou o país numa república teocrática xiita. Uma das bases da revolução é o sentimento anti-EUA e anti-Israel.
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Além disso, em 2015, houve um acordo nuclear iraniano firmado entre EUA e Irã, junto com Alemanha, China, França, Reino Unido e Rússia. O acordo previa alívio das sanções internacionais a Teerã, em troca da limitação do seu programa nuclear, o que o Irã vinha cumprindo. Porém, Donald Trump retirou unilateralmente os EUA do trato em 2018. O Irã, então, também saiu e avançou no seu programa.
O presidente americano tem pressionado o Irã a fazer um novo acordo, sob o qual eliminaria o programa nuclear, ao que o regime resiste. Representantes dos dois países retomaram negociações em 2025, mas os americanos atacaram o país persa durante as conversas tanto em junho de 2025 quanto em fevereiro de 2026.

JD Vance na base aérea antes de embarcar para Islamabad, no Paquistão
A delegação dos EUA para o encontro no Paquistão conta com o vice-presidente J.D. Vance; o enviado especial de Trump, Steve Witkoff; e seu genro, Jared Kushner. A comitiva do Irã é liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.
Embora Israel esteja incluído no acordo de cessar-fogo, as Forças de Defesa israelenses afirmaram na quarta-feira (8) no X que o Líbano não estava contemplado na trégua, o que contradiz um dos pontos do plano que foi divulgado por autoridades iranianas. Os ataques israelenses foram intensificados, deixando mais de 300 mortos só nesse dia.
1.888
é a estimativa de pessoas mortas no Líbano por ataques israelenses de 2 de março a 10 de abril, segundo a agência de notícias Reuters; 2 israelenses morreram por ataque do Hezbollah
Sob pressão dos EUA, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, afirmou que Israel vai negociar um acordo de cessar-fogo diretamente com o governo do Líbano. As conversas devem ocorrer na próxima semana em Washington, capital americana.
Contudo, o primeiro-ministro israelense alega que o conflito de Israel é contra o Hezbollah, e não com o Líbano. Netanyahu declarou ter dois objetivos: desarmar o Hezbollah e fechar um acordo de paz histórico e duradouro com o país vizinho.
O governo do Líbano não responde pelo Hezbollah e nem tem capacidade de desarmar o grupo extremista libanês. A organização, que é aliada do Irã, não vai participar das conversas.
Essa estratégia do governo israelense coloca o acordo de cessar-fogo sob pressão.
Trump afirmou na terça-feira (7) no Truth Social que recebeu “uma proposta de 10 pontos do Irã e acreditamos que ela seja uma base viável para negociar”. O plano foi intermediado pelo Paquistão, que agora faz a mediação das negociações. Tanto os EUA quanto o Irã declararam vitória, ainda que a guerra não tenha acabado e a trégua seja frágil.
Araghchi, chanceler iraniano, disse no X, ao confirmar o cessar-fogo, que o Irã se baseou numa proposta anterior dos EUA de 15 pontos.
Os EUA apresentaram o plano de 15 pontos em 25 de março. Não está claro se o conteúdo é o mesmo, mas a proposta tratava da remoção de todo o urânio enriquecido do território iraniano para um país terceiro e da autorização de inspeção internacional, além do fim do financiamento de aliados paramilitares na região e do programa de mísseis balísticos. O Irã já havia rejeitado esses tópicos.
Ou seja, a proposta está assentada em demandas que se conflitam. Algumas delas já foram alvos de negociações sem desfecho. Veja abaixo alguns dos principais pontos que devem ser discutidos no encontro.
Esse tópico pode se tornar um dos principais fatores de atrito nas negociações.
O Estreito de Ormuz é uma rota estratégica por onde circulam 20% do petróleo mundial, 20% do gás natural e 20% dos fertilizantes. O Irã ameaçou fechar o corredor marítimo caso fosse atacado. Trump não acreditou e se disse surpreso quando o regime cumpriu a promessa, impactando a economia mundial.
O estreito não foi fechado concretamente, mas as ameaças de bombardear embarcações ou de colocar minas marítimas foram suficientes para as empresas de transporte evitarem trafegar pela hidrovia. O regime disse que apenas navios com bandeiras de países não aliados aos EUA e Israel poderiam passar.
Isso fez a oferta energética diminuir e o preço do petróleo passar de US$ 72, antes do conflito, para cerca de US$ 110 o barril no início de abril.
Diante do novo cenário, a comissão de Relações Exteriores e Segurança Nacional do Parlamento iraniano aprovou na terça-feira (7) a cobrança de um pedágio que pode chegar a US$ 2 milhões por petroleiro, a ser dividido com Omã, país situado do outro lado do corredor marítimo. As transações devem ser feitas em yuan, a moeda chinesa, ou em bitcoin, segundo a agência de notícias Bloomberg.
Os EUA buscaram historicamente navegação livre e aberta. Contudo, Trump mencionou na quarta-feira (8), numa entrevista ao canal ABC News, a criação de uma joint venture com o Irã para gerenciar a navegação no estreito. Um dia depois, o presidente americano criticou a cobrança de pedágio no corredor pelo Irã.
O programa nuclear iraniano é um dos pontos mais sensíveis das negociações. Os EUA exigem a interrupção completa do enriquecimento de urânio pelo Irã e a remoção dos estoques de material radioativo para um país terceiro, que poderia ser a Rússia.
Houve uma divergência de versões sobre esse tópico. O Irã apresentou a proposta em farsi, a língua persa, citando a aceitação do direito do país de enriquecer urânio. Porém, autoridades americanas disseram, sob anonimato, que não consta no plano apresentado pelo Irã em inglês.
A Embaixada do Irã na Índia publicou na quarta-feira (8) no X, em inglês, os 10 pontos da proposta, incluindo a “aceitação do enriquecimento” de urânio.
Após declarar que aceitava o plano iraniano como ponto de partida para as negociações, Trump voltou a defender no Truth Social o “enriquecimento zero” de urânio pelo Irã.
O Irã tem afirmado que o seu programa nuclear tem finalidade pacífica, embora enriqueça o urânio bem acima do que seria necessário para esse fim.
Em seu estado natural, o urânio contém 0,7% do isótopo de urânio-235, elemento usado como combustível em reatores nucleares. O urânio enriquecido entre 3,5 e 5% (ou seja, com essa quantidade de urânio-235) pode ser usado para reatores nucleares; em 20% pode ser aplicado para pesquisa ou uso médico; e em 90%, para armas nucleares.
60%
é o nível de urânio enriquecido em posse do Irã, segundo a IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica), órgão de fiscalização nuclear da ONU, em relatório em setembro de 2025
As sanções primárias — impostas diretamente ao Irã — e secundárias — impostas a quem negocia com o Irã — têm pressionado a economia iraniana. Os EUA têm imposto sanções primárias desde 1979. Ao longo do tempo, as punições foram impostas pelo programa nuclear.
São medidas que restringem diretamente transações financeiras iranianas, comércio com outros países e acesso do país ao sistema econômico internacional, assim como países ou empresas estrangeiras que mantêm relações comerciais com o Irã.
Os EUA já sinalizaram que podem ceder nesses pontos desde que o programa nuclear iraniano seja completamente encerrado. Em propostas anteriores, a suspensão das sanções foi colocada como contrapartida se o Irã encerrar o programa de mísseis balísticos e a ajuda a grupos paramilitares regionais, além do programa nuclear.
Os EUA têm bases militares na Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Jordânia, Kuwait, Omã, Qatar e Síria. A proposta iraniana para retirada contraria a estratégia americana na região, que mantém essas bases para dissuasão militar, logística e influência regional.
40 mil
é a estimativa de militares americanos no Oriente Médio espalhados em bases e navios na região, em períodos normais, segundo projeção do think tank americano Conselho de Relações Exteriores
Mais de 10 instalações militares americanas na região do Golfo foram gravemente danificadas ou destruídas pela retaliação iraniana em 2026, segundo reportagem do jornal americano The New York Times. Diversos países da região foram alvos de ataques.