
Edifício destruído no Líbano após ataque israelense
As Forças de Defesa de Israel atacaram o sul da capital libanesa, Beirute, e o Hezbollah bombardeou o norte do território israelense nesta quarta-feira (15). Os ataques ocorreram um dia depois de um encontro entre representantes de Israel e Líbano, nos EUA.
A reunião da terça-feira (14) terminou sem resolução, mas as partes decidiram continuar negociações diretas para um futuro acordo de paz. As conversas ocorreram em meio a críticas e ameaças do Hezbollah, que não participou.
Neste texto, o Nexo contextualiza a situação no Líbano, explica a reunião entre os países e fala sobre o papel do Hezbollah nesse conflito.
Em 2 de março de 2026, dois dias após os EUA e Israel atacarem o Irã, o Hezbollah, aliado iraniano, bombardeou o norte do território israelense. Israel respondeu com ataques massivos ao Líbano, inclusive à capital, Beirute.
Os ataques reacenderam o conflito após um período de relativa calma. Os dois países estabeleceram um acordo de cessar-fogo em novembro de 2024, por causa do conflito na Faixa de Gaza, iniciado em 8 de outubro de 2023. Há também uma trégua entre Israel e Hamas em vigor desde outubro de 2025.
Em 16 de março de 2026, após duas semanas de bombardeios, as Forças de Defesa israelenses avançam sobre o sul do território libanês, alegando a criação de uma zona-tampão, uma área de segurança ampliada para o território de Israel.
A operação terrestre israelense foi criticada por Canadá, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. A Turquia e a Organização das Nações Unidas também condenaram a ação.
Em 8 de abril, um dia depois do anúncio do cessar-fogo entre EUA, Israel e Irã, as Forças de Defesa israelenses afirmaram no X que o Líbano não estava contemplado na trégua, o que contradiz um dos pontos do plano que foi divulgado por autoridades iranianas. Os ataques israelenses foram intensificados, deixando mais de 300 mortos só naquele dia.
2.089
é a estimativa de mortos no Líbano por ataques israelenses de 2 de março até 13 de abril, segundo monitoramento da rede qatari Al Jazeera; além de 6.762 feridos
1,3 milhão
é a estimativa de deslocados internos no Líbano desde 2 de março, segundo a Acnur, a agência da ONU para refugiados; muitos deles são refugiados sírios que estão no país
Os ataques israelenses aprofundam os problemas do Líbano, que já lida com uma crise financeira desde 2019 por falta de reservas internacionais. A situação piorou em 2020, após as explosões no porto de Beirute e a pandemia de covid-19.
A inflação elevada — os preços aumentaram mais de 200% em 2023 — e a depreciação da libra libanesa, a moeda local, reduziram o poder de compra dos libaneses. O colapso econômico e financeiro provocou o aumento da pobreza e instabilidade política e institucional, prejudicando a capacidade de resposta do Estado e acentuando os problemas do país.
Os libaneses enfrentam dificuldades para acessar serviços básicos, com falta de medicamentos e alimentos. A escassez de combustível também impacta o serviço de transporte público e o fornecimento de energia, com interrupções diárias.
Israel e Líbano não mantêm relações diplomáticas. Houve um acordo de armistício em 1949 para suspender a guerra árabe-israelense de 1948, após a criação do Estado de Israel, e delimitar algumas fronteiras. O acordo foi parcialmente respeitado. Nunca houve um tratado de paz.
Israel invadiu o território libanês em 1978 para lutar contra a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), que atuava de lá contra o Estado judeu. Uma nova invasão em 1982, pelo mesmo motivo, ficou conhecida como a guerra do Líbano. Durante esse conflito, os países tentaram assinar um acordo de paz em 1983, que fracassou. Essa foi a última reunião bilateral entre eles.
A guerra matou mais de 20 mil árabes e 675 israelenses. Israel chegou até a capital, Beirute, e deixou o território libanês em 2000.
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As forças israelenses voltaram a atacar o Líbano em 2006, em um conflito contra o Hezbollah. O estopim desse conflito foi a morte de oito soldados israelenses e o sequestro de dois soldados pela organização libanesa na fronteira do Líbano. Em decorrência da segunda Guerra do Líbano, morreram 1.200 libaneses e 160 israelenses.
Desde então, há trocas de hostilidades intermitentes na fronteira sul do Líbano com o norte de Israel, com bombardeios pontuais dos dois lados. Um novo e mais intenso confronto ocorreu em outubro de 2023 na esteira do conflito entre Israel e Hamas. O Hezbollah é aliado do grupo palestino e do Irã na aliança informal autointitulada de Eixo da Resistência.
A reunião de terça-feira (14) — histórica pelo fato de os países não manterem relações diplomáticas — terminou sem anúncio de cessar-fogo, mas com o compromisso dos dois lados de continuarem as tratativas diretas no futuro. Tanto o governo de Israel quanto o do Líbano defendem o desarmamento do Hezbollah, que não participou das conversas.

Marco Rubio, secretário de Estado americano, entre o embaixador israelense nos EUA, Yechiel Leiter, e a embaixadora libanesa nos EUA, Nada Hamadeh Moawad, em reunião em Washington
O Líbano classificou o braço militar do Hezbollah como ilegal em 2026, mas quer apoio internacional para desarmar o o grupo — o Exército libanês não é suficientemente equipado para a tarefa.
O país árabe também pede o fim dos bombardeios e da ocupação israelense. Mas Israel quer manter a presença militar em partes do sul do Líbano enquanto o Hezbollah não for desarmado.
Numa declaração ao canal libanês Al Mayadeen na segunda-feira (13), Naim Qassem, atual líder do Hezbollah, rejeitou as conversas entre Israel e Líbano. Ele disse que as negociações eram uma estratégia inútil para desarmar a organização.
Wafiq Safa, membro de alto escalão do conselho político do Hezbollah, disse também na segunda-feira (13) que não estava preocupado com a reunião. “Não estamos vinculados ao que eles concordarem”, afirmou à agência de notícias Associated Press.
O Hezbollah surgiu como uma milícia islâmica de orientação xiita de resistência durante a primeira invasão israelense em 1982.
O grupo é inspirado na Revolução Islâmica, que em 1979 transformou o Irã numa teocracia xiita. Hoje, o Hezbollah é uma organização paramilitar e política — que congrega correntes de direita e de esquerda, com foco no nacionalismo islâmico. Exerce influência no Líbano, com assentos no Parlamento, e também opera serviços sociais, como escolas e hospitais, além de ter um canal de televisão, a Al-Manar.
O confronto com Israel na esteira do conflito em Gaza debilitou as capacidades militares do Hezbollah e minou a sua popularidade política no Líbano. Mas a organização libanesa segue firme e ativa. Diversos comandantes políticos e militares do grupo morreram em confrontos e foram substituídos, como Hassan Nasrallah, então líder do grupo, e que morreu em 2024.