Por que um dos artistas mais ouvidos do Brasil foi preso

O funkeiro MC Ryan SP. Um homem de roupa preta e chapéu preto. Ele segura dois colares e óculos de sol

O funkeiro MC Ryan SP

O funkeiro MC Ryan SP foi preso pela Polícia Federal na quarta-feira (15), como parte da Operação Narco Fluxo. A investigação visa uma organização criminosa acusada de lavagem de dinheiro e transações ilegais na casa de R$ 1,6 bilhão. O artista é apontado como um dos líderes do esquema, que promovia bets ilegais e rifas clandestinas.

Ryan foi o terceiro artista brasileiro mais escutado no Spotify em 2025, com mais de 19 milhões de ouvintes mensais na plataforma. Segundo a Pró-Música, entidade representante das gravadoras e produtoras fonográficas do Brasil, a música “Posso até não te dar flores”, feita em colaboração com DJ Japa Nk, MC Meno K e MC Jacaré, foi a 12ª mais ouvida no ano. 

Neste texto, o Nexo apresenta a carreira de MC Ryan SP, mostra os motivos que levaram à prisão do funkeiro e explica a relação de influenciadores com rifas clandestinas e bets ilegais. 

Quem é MC Ryan SP

Aos 25 anos, Ryan Santana é um dos principais nomes do funk paulista e nacional. O sucesso na música veio no início da pandemia de covid-19, quando ele lançou “Vergonha pra mídia”, uma parceria com Salvador da Rima, MC Kevin, NOG e MC Lele JP. Antes, ele trabalhava entregando panfletos e lavando carros na zona norte de São Paulo

334 milhões 

é o número de visualizações do clipe de “Vergonha pra mídia” no YouTube

MC Ryan SP é um dos principais artistas da produtora GR6, ao lado de nomes como MC Livinho e MC Hariel, além de ter contrato com a gravadora Warner Music Brasil. Suas composições transitam entre o funk ostentação e o proibidão, com uso do trap, subgênero do rap.

A música “Tubarão te amo” fez grande sucesso nas redes sociais em 2022. “Posso até não te dar flores”, de 2025, é o maior hit de Ryan no Spotify, com mais de 357 milhões de reproduções até quinta-feira (16). Entre os dias 3 e 9 de abril, o funkeiro foi o segundo artista brasileiro mais ouvido na plataforma, atrás somente da dupla sertaneja Henrique e Juliano.

O sucesso fez MC Ryan SP ser contratado para se apresentar no Rock in Rio de 2024. No entanto, ele não apareceu no show, sob a justificativa de uma gripe. Na data, ele esteve presente na Arena Corinthians para uma partida do time contra o Atlético Goianiense. 

Em 2025, Ryan abriu a produtora Bololô Records, responsável por gerenciar a carreira de artistas emergentes.

Na esfera pessoal, MC Ryan acumula casos controversos. Em maio de 2025, o funkeiro foi preso após dar um cavalo de pau com um carro dentro de um estádio em Piracicaba, no interior de São Paulo. No ano anterior, ele teve uma Ferrari apreendida por irregularidades na documentação.

O funkeiro tem uma filha de 2 anos com a influenciadora Giovanna Roque, que soma 2,6 milhões de seguidores no Instagram. O relacionamento foi interrompido em maio de 2025, após agressões físicas de Ryan. Eles reataram depois de cinco meses.

Em publicação na madrugada de quinta-feira (16) no Instagram, Roque fez uma declaração defendendo MC Ryan SP. “Eu sigo ao seu lado, hoje e sempre. E sei que lá na frente vamos olhar para tudo isso com a cabeça erguida, mais fortes do que nunca”, afirmou a influenciadora.

A operação da PF

Além de MC Ryan SP, a Polícia Federal emitiu outros 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária com a deflagração da Operação Narco Fluxo – seis alvos estão foragidos. As ações aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Distrito Federal.

Também foram presos o funkeiro MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, dono do perfil de fofocas Choquei.

A operação teve início a partir de um backup do iCloud, o serviço de armazenamento de dados em nuvem da Apple, do operador financeiro Rodrigo de Paula Morgado. A suspeita da PF é de que ele atuava como contador da organização criminosa. Ele está preso desde outubro de 2025, quando houve a Operação Narco Bet – fase anterior da operação da Polícia Federal. 

Segundo a Polícia, o dinheiro utilizado no esquema era obtido pelos integrantes da organização criminosa por meio de apostas ilegais, rifas clandestinas e tráfico de drogas internacional.

As quantias eram distribuídas em diversas contas bancárias, uma técnica de lavagem de dinheiro chamada de “smurfing”, feita para evitar o rastreamento. Além disso, as transferências eram feitas com criptomoedas e fragmentada em contas de empresas e de terceiros. 

A investigação da PF apontou MC Ryan SP como o principal beneficiário do esquema de lavagem de dinheiro. Ele teria utilizado empresas de produção musical e entretenimento, como a gravadora Bololô Records e o Bololô Restaurant & Bar, para misturar as receitas dos estabelecimentos com as de apostas e rifas ilegais. 

Além da compra de itens de luxo, como veículos e mansões, o dinheiro seria utilizado para custear a carreira artística dos funkeiros. A função dos influenciadores e páginas de fofoca envolveria a divulgação das rifas e plataformas de bets e a publicação de conteúdos positivos sobre os envolvidos. 

O que dizem as defesas dos investigados

Tanto as defesas de MC Ryan SP como de MC Poze do Rodo afirmaram ao site G1 que não tiveram acesso aos autos do processo. Por isso, não poderiam se manifestar especificamente sobre a operação da PF. 

“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”, disseram os advogados do funkeiro. 

Já Pedro Paulo de Medeiros, responsável pela defesa de Raphael Sousa Oliveira, afirmou ao G1 que os valores recebidos pelo proprietário da Choquei eram relacionados a serviços de publicidade. Segundo o advogado, seu cliente não tem participação na organização criminosa, “limitando-se a publicar conteúdos que lhe são encaminhados por equipes responsáveis pelas campanhas publicitárias”. 

“Ressalta-se, ainda, que não há elementos que indiquem que o investigado tivesse conhecimento sobre eventual irregularidade nas atividades de terceiros. Sua atuação sempre se deu dentro dos limites de uma atividade empresarial de mídia digital, sem ingerência sobre a origem ou a finalidade dos serviços contratados”, afirmou Medeiros. 

A defesa do operador financeiro Rodrigo de Paula Morgado não se manifestou após a deflagração da nova operação da PF. Em outubro, o advogado Felipe Pires de Campos pediu prisão domiciliar para seu cliente, para que ele ajudasse nos cuidados dos filhos. 

Rifas e apostas ilegais

A divulgação de rifas online é uma estratégia utilizada por influenciadores digitais para aumentar seu número de seguidores nas redes sociais. Nessa modalidade, o público é convidado a comprar números para concorrer a prêmios sorteados, como iPhones, carros de luxo ou valores em dinheiro.

Apesar de ser uma prática comum, o sorteio mediante pagamento de cotas pode ser considerado como um jogo de azar, o que não é permitido pela legislação brasileira. Desde 2022, operações policiais ao redor do Brasil foram deflagradas contra influenciadores digitais que promovem rifas.

Na pesquisa pela hashtag “rifaiphone” na busca do Instagram, uma das publicações afirma que o valor das cotas para o sorteio de um iPhone 17 Pro Max novo, lançado em setembro de 2025, é de R$ 0,01. Para igualar as vendas de rifas ao valor atual desse modelo, seria necessário vender quase 1,25 milhão de bilhetes. 

Celulares não são as únicas premiações divulgadas por esses influenciadores. Também há rifas de carros de luxo ou de colecionador, assim como de grandes valores em dinheiro, a serem depositados via Pix.

MC Poze do Rodo, preso pela Operação Narco Fluxo, já foi alvo de outra investigação por divulgação de rifas ilegais em novembro de 2024. Naquele momento, a Polícia Civil apreendeu joias e carros luxuosos dele e de sua esposa, Viviane Noronha, em meio à Operação Rifa Limpa, que visava crimes de associação criminosa e lavagem de dinheiro por meio de sorteios com prêmios milionários. Ambos afirmaram nas redes sociais que não havia nada de errado nas suas ações. 

No caso das bets ilegais, os influenciadores são recrutados por casas de apostas não regularizadas para atrair seguidores. Por causa do alto faturamento dessas plataformas, as personalidades digitais costumam receber propostas elevadas. Em muitos casos, o usuário pode se cadastrar com cupons com o nome dos influencers, o que aumenta os ganhos de quem divulgou o conteúdo. 

41% a 51%

é a estimativa de participação de mercado de plataformas ilegais de bets em 2025, de acordo com estudo de fevereiro de 2025 do Instituto Esfera 

regulações em vigor para que os anúncios de plataformas em canais de comunicação sejam responsáveis – mesmo que muitos influenciadores não as cumpram.

Por exemplo, há proibição a: