As festas afro-religiosas realizadas no espaço público constituem práticas que ultrapassam os limites do ritual religioso, afirmando-se como ações políticas no ambiente urbano. Ao ocuparem as cidades, os praticantes da Umbanda e do candomblé produzem visibilidades que desafiam as hierarquias estabelecidas e tensionam os modos tradicionais de participação política.
As festas criam cenas em locais abertos nas quais os praticantes afirmam sua autonomia cultural, reivindicando o direito de existir plenamente na cidade. Ruas, praças, parques, praias e matas se transformam em territórios sagrados e políticos ao produzirem encontros, afetos e narrativas que desafiam as fronteiras entre o religioso e o secular. Isso constitui uma relação na qual a própria vida se torna um ato político de subversão das normas que regem os usos do espaço.
Ao navegar entre o sagrado e o político, a celebração afirma a cidade como lugar de múltiplas existências
Trata-se de um agir político elaborado nas experiências cotidianas das populações negras brasileiras, expressas por meio de gestos, batuques, cantos e danças que reivindicam a presença da diferença na cidade. Essa reivindicação ocorre a partir da criação de imagens e modos de ser vistos combativos de estereótipos e de discursos de marginalização, cujas representações violentam os sujeitos negros e suas práticas.
O caráter político da festa revela-se também na forma como ela reorganiza as relações entre os sujeitos. Ao reunir diferentes terreiros, entidades e linhas religiosas, a celebração expressa a pluralidade constitutiva do campo religioso afro-brasileiro. Essa diversidade não aparece como fragmentação, mas como princípio organizador que fortalece a coletividade e amplia as possibilidades de ação no espaço urbano.
As cidades aparecem, nesse contexto, como campos de disputas, pois o direito de viver não se restringe ao acesso físico aos equipamentos urbanos. Ele envolve o reconhecimento simbólico e social das existências que humanizam o mundo em suas diferenças e diversidades. As festas constituem situações de enfrentamento das desigualdades vividas nas cidades, onde os sujeitos se afirmam no canto, na dança e no batuque.
O corpo é o centro dessa tríade ao sustentar a existência pelo movimento ritmado e expressar formas de ser dissidentes, gravando no espaço as distinções que lhe são próprias. O ato de cantar ativa a memória coletiva ao narrar as conquistas e batalhas dos sujeitos. Batucar aciona a matriz ancestral do movimento. Dançar é escrever poeticamente com o corpo no espaço, usando gestos de expansão que transformam a percepção de cada pessoa sobre si mesma e sobre o mundo.
A tríade de canto, dança e batuque é também o movimento inventivo da existência; a disputa por narrativas próprias enaltecedoras de sujeitos e grupos de pertencimento; e a marcação simbólica do mundo, transformando o espaço. Por isso, é também ação criadora de uma política da presença.
A política que emerge das festas afro-religiosas no país está ligada à invenção de novos modos de convivência. Ao afirmar a presença da religiosidade afro-brasileira na cidade, a festa questiona a distinção territorial e corpórea de direitos, que marginaliza os locais das práticas religiosas, e os modos de habitar e ser dos sujeitos da religião. As celebrações também propõem outras formas de sociabilidade, baseadas no respeito à diferença e na partilha do comum.
As festas religiosas afro-brasileiras podem ser compreendidas, portanto, como exercício do direito à cidade. Elas produzem deslocamentos simbólicos e materiais que ampliam os limites do que é reconhecido como legítimo no espaço urbano. Ao navegar entre o sagrado e o político, a celebração afirma a cidade como lugar de múltiplas existências e reivindica um futuro no qual a diversidade não seja apenas tolerada, mas constitutiva da vida urbana.
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Ilaina Damasceno é doutora em geografia pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e professora da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde integra o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros. Com trajetória acadêmica focada em relações étnico-raciais e espaço público, atua também como cambone na Tenda Espírita do Boiadeiro, na Engenhoca em Niterói, no Rio de Janeiro. É autora do “Iemanjá em mares verdes”, livro que nasceu de uma pesquisa de doutorado na UFF e investiga como as religiões de matriz africana se apropriam do espaço público como estratégia de resistência e afirmação cultural. Seus trabalhos anteriores incluem coletâneas sobre juventude e territórios-terreiros, sempre com enfoque nas dinâmicas culturais e políticas das periferias.