O que é a primeira infância. E por que ela importa tanto

Fotografia mostra pés de criança pequena.

Criança em pé

Mais de 40% dos brasileiros desconhecem o significado do termo “primeira infância”, segundo pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal feita em parceria com o Datafolha em 2025. Além disso, 84% não sabem que o maior desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem das pessoas ocorre nessa fase, que vai até os 6 anos de idade. 

42%

dos brasileiros não sabiam o significado de “primeira infância” em 2025, segundo a pesquisa

A primeira infância é reconhecida como um período de “janela de oportunidades”. O investimento em cuidados nessa etapa se reflete em múltiplos ganhos na vida adulta. No Brasil, pouco mais da metade das crianças nessa faixa etária está em famílias de baixa renda.

Neste texto, o Nexo explica o que define a primeira infância, o que os estudos dizem sobre o período e qual o contexto do tema no Brasil. Também mostra as políticas adotadas pelo poder público para essa faixa etária.

O que define a primeira infância

A primeira infância é a fase que vai até os 6 anos de idade. É nesse período que ocorre o maior pico do desenvolvimento humano, formando-se as bases físicas, cognitivas e socioemocionais necessárias para as futuras etapas da vida.

Pesquisas na área da neurociência mostram que o cérebro das crianças tem grande plasticidade nessa fase — ou seja, tem capacidade de aprender e se adaptar muito maior do que em outras fases da vida. 

90% 

das conexões cerebrais são formadas na primeira infância, num ritmo de 1 milhão de sinapses por segundo

É por esse motivo que muitos pesquisadores dizem que a primeira infância é uma “janela de oportunidades”. Passar por essa fase de forma saudável tem reflexos na saúde, na construção de vínculos afetivos, na trajetória escolar e acadêmica e até nas oportunidades de trabalho na vida adulta.

Em entrevista ao Nexo em maio de 2025, o economista Naercio Menezes Filho, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância do Insper, disse que é nessa etapa “que se forma como as pessoas vão ser na vida adulta”. 

“Se as crianças passarem por desigualdade na primeira infância, em qualquer uma dessas áreas, isso vai afetar o desenvolvimento infantil e, depois, afetar a frequência escolar, o aprendizado, a entrada no mercado de trabalho, a produtividade. Muito do futuro da criança é determinado na primeira infância”

Naercio Menezes Filho

doutor em economia pela Universidade de Londres e diretor do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância do Insper, em entrevista ao Nexo em maio de 2025

Como alcançar o pleno desenvolvimento

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) estipula pelo menos cinco áreas de atenção para que crianças possam alcançar seu potencial de desenvolvimento na primeira infância. Elas são:

  1. saúde, incluindo o acompanhamento físico e emocional de crianças pequenas
  2. nutrição adequada, com alimentação balanceada desde a gestação, garantia de aleitamento materno exclusivo até pelo menos 6 meses de idade e segurança alimentar da família
  3. cuidados responsivos, abarcando a orientação de familiares e responsáveis pela criação da criança, para que eles possam criar vínculos
  4. segurança e proteção, não só ante violências e maus-tratos, mas contra a pobreza
  5. educação infantil, com acesso a serviços e atividades adequados ao desenvolvimento de crianças pequenas

Segundo o Unicef, essas orientações devem servir de guia para que os governos estipulem políticas públicas voltadas à primeira infância. Pesquisas na área da educação infantil sugerem também que o investimento em programas do tipo tem relativo baixo custo e garante amplos retornos à sociedade no curto e longo prazo.

Um dos pesquisadores que trouxeram notoriedade à importância dos investimentos na primeira infância foi o economista americano James Heckman, que analisou os efeitos do ensino pré-escolar de alta qualidade nos anos 1960. Segundo ele, crianças que frequentaram a pré-escola tinham:

7% a 10%

foi o retorno anual à sociedade, estimado por Heckman, do investimento na educação de crianças

Em 2019, um novo levantamento mostrou um quadro semelhante entre os filhos dos participantes do estudo original, indicando que os impactos da educação na primeira infância podem perdurar por várias gerações.

Qual o contexto brasileiro

Um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostra que mais da metade das crianças brasileiras na primeira infância tem seu desenvolvimento pleno em risco. Os dados foram sistematizados em 2024 a partir de bases de dados do governo federal e de outras entidades.

18,1 milhões

é a quantidade de crianças na primeira infância no Brasil

55,4% 

delas estão entre famílias de baixa renda

4,1 milhões

das crianças de 0 a 4 anos vivem em contextos de insegurança alimentar

De acordo com a organização, cerca de 10 milhões do total de crianças brasileiras de até 6 anos estavam em famílias de baixa renda — isto é, que tinham renda mensal per capita de até R$ 660 — em 2024. Na época, a maior parte desses núcleos familiares (73,8%) era chefiada por mães solo.

O levantamento também mostra que a taxa de mortalidade infantil entre os menores de 1 ano estava em 14,2 para cada 1.000 nascidos vivos em 2022. Segundo a fundação, o valor é alto, embora tenha tido queda de 50% em relação a 2002, quando a taxa era de 24,9 para cada 1.000 nascimentos.

Entre as crianças indígenas, a taxa de mortalidade é mais que o dobro da registrada entre as não indígenas. Em 2022, eram 34,7 mortos a cada 1.000 nascimentos.

Outro dado do levantamento é o número de crianças pequenas matriculadas em instituições de ensino — percentual que, em 2023, ainda não tinha alcançado a meta do PNE (Plano Nacional de Educação) vigente de incluir no sistema educacional pelo menos metade das crianças aptas a creches e 100% das aptas à pré-escola.

60,2%

das crianças de 0 a 3 anos não frequentavam a creche em 2023, ano da última coleta de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o tema

6,6%

das crianças de 4 a 5 anos não frequentavam a pré-escola

A primeira infância como política pública 

Na avaliação de Menezes Filho, do Insper, as políticas públicas do Brasil voltadas à primeira infância melhoraram de forma gradual nas últimas décadas, especialmente em termos de redução da pobreza e universalização do ensino. Apesar disso, “mais recentemente, essa melhora tem desacelerado”, disse ele em maio de 2025.

Um dos entraves apontados pelo economista foi a sistematização de dados para o monitoramento dos diferentes contextos da primeira infância no Brasil, e, com isso, o aperfeiçoamento das políticas para a área.

Criança dá a mão para alguém

Criança dá a mão para alguém

Essa é uma das premissas traçadas pela Política Nacional Integrada da Primeira Infância, conjunto de diretrizes previsto pelo Marco Legal da Primeira Infância de 2016 que reafirma a importância do olhar intersetorial não só para essa parcela da população, mas para pais, mães e responsáveis.

O objetivo do texto é articular estados, municípios e o Distrito Federal, sob a coordenação do Ministério da Educação, para integrar as diferentes políticas públicas de atenção às necessidades específicas desse público, sob eixos multidisciplinares, como educação, saúde e informação.

O governo federal sancionou a política como decreto em agosto de 2025. No mês seguinte, o Executivo publicou um plano estratégico para detalhar o cumprimento do texto até 2026.

Pebio-FCMCSV

Este conteúdo é parte da cobertura especial “Primeira infância primeiro”, feita com o apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, organização que atua pela promoção do desenvolvimento pleno de todas as crianças brasileiras e no combate às desigualdades sociais desde o começo da vida.