
Pilha de fitas
O americano Aadam Jacobs tinha 17 anos quando começou um hobby que duraria mais de duas décadas: gravar shows de bandas que passavam por Chicago, onde morava.
As apresentações de nomes como Nirvana, The Cure, Fugazi e Sonic Youth geraram mais de 10 mil fitas. Em 2024, elas começaram a ser digitalizadas por um grupo de voluntários que, aos poucos, está tornando público o acervo de Jacobs.
Neste texto, o Nexo conta a trajetória de Jacobs como arquivista musical de Chicago e explica o projeto para preservar e divulgar suas gravações.
O primeiro show gravado pelo americano foi o do grupo britânico de free jazz AMM, numa apresentação que ocorreu em maio de 1984, no Arts Club de Chicago.
Jacobs tinha o costume de gravar as músicas que eram tocadas nas rádios para que pudesse ouvir depois. Um colega sugeriu que Jacobs fizesse o mesmo em shows. Então, em 1984, o adolescente levou o gravador de voz da avó para captar a apresentação do AMM.
Ele continuou a gravar shows ao longo dos anos, mudando os instrumentos que utilizava conforme a tecnologia evoluía – indo das fitas até os gravadores digitais.
As apresentações gravadas capturaram as transformações pelas quais Chicago passou entre as décadas de 1980 e 1990. Na época, a cidade começava a se tornar um destino importante de bandas indie.
Jacobs passou décadas indo a mais de 15 shows por mês. Eventualmente, tornou-se uma figura conhecida na cena musical local, sendo apelidado de “Chicago’s taping guy” (“o cara das gravações de Chicago”, em tradução do inglês).
“Minha paixão é realmente documentar algo que, de outra forma, não estaria sendo documentado”
Aadam Jacobs
americano, em entrevista ao jornal Chicago Reader
Os shows eram gravados sem a autorização dos artistas. Algumas das cópias das gravações – feitas pelo próprio Jacobs, que as compartilhava com amigos e com as próprias bandas – foram vendidas ilegalmente. Isso fez com que, por um tempo, o americano fosse impedido de entrar em apresentações.
“Depois que isso aconteceu, decidi manter minhas gravações entre um círculo pequeno de pessoas – a não ser que seja uma banda que queira que as gravações sejam públicas, como os Mekons”, disse em entrevista ao jornal Chicago Reader em 2004. Além dos Mekons, outras bandas registradas pelo americano, como o Sonic Youth e o Yo La Tengo, usaram gravações feitas por ele em seus álbuns oficiais.
Após problemas de saúde, Jacobs, hoje com 59 anos, parou de gravar shows no início dos anos 2000. Sua trajetória virou documentário em 2023, com “Melomaniac”, dirigido por Katlin Schneider, que explora o impacto que o jovem teve como arquivista da cena musical de Chicago. O filme também traz relatos de artistas da época e de donos de casas de shows onde o americano fez suas gravações.
Em 2019, um grupo de cerca de 10 arquivistas de shows ligado ao Internet Archive – site que reúne livros, filmes, músicas e bilhões de páginas da web arquivadas – entrou em contato com Jacobs para preservar e divulgar as gravações feitas por ele. Em 2024, um dos voluntários do projeto visitou a casa do americano e saiu de lá com as primeiras 120 fitas, dando origem ao projeto “Aadam Jacobs Collection”.
As mais de 10 mil gravações estão guardadas em caixas na casa de Jacobs. Algumas delas apresentam dois ou três sets diferentes de shows.
200
é a quantidade de fitas que precisam ser processadas por semana para que os integrantes finalizem o projeto em cerca de dois ou três anos
Os voluntários se dividem para converter as fitas em áudio digital, identificar as informações dos shows (como quais músicas foram tocadas e a data das apresentações) e melhorar a qualidade do som. É possível acompanhar as atualizações nas redes sociais Facebook e Bluesky.
Cerca de 2.500 gravações foram disponibilizadas no Internet Archive até a publicação deste texto. A expectativa, segundo os voluntários, é que 8.000 shows sejam disponibilizados até o fim de 2026 e o site alcance 1 milhão de visitantes.
O acervo varia entre gêneros como indie, punk rock, jazz e hip-hop. É possível encontrar apresentações de artistas que ainda não eram consagrados quando Jacobs foi a seus shows, como Nirvana, cuja apresentação foi gravada dois anos antes do lançamento do disco de sucesso “Nevermind” (1991).
Em entrevista à agência AP News em abril de 2026, Jacobs afirmou que a maioria dos artistas gosta de ter seus acervos preservados, mas ele pode retirar as gravações a pedido das bandas.
David Nimmer, advogado especializado em copyright e professor na Universidade da Califórnia, afirmou à mesma agência que os artistas tecnicamente detêm as composições originais e gravações ao vivo, mas, como nem o acervo nem Jacobs estão lucrando com as fitas, é improvável que surjam processos.